A ‘Cunhalada’ pelas costas – Michel Temer refém de Eduardo Cunha. Quatro ameaças

(Foto: J. Batista)

Por Bajonas Teixeira de Brito Junior, colunista de política do Cafezinho

O nome é feio mas, num catálogo universal do horror, pouca coisa ousaria rivalizar com a estética do golpe que estamos vivendo.  Só isso já recomendava o título. Embora pareça conversa de fanho, o fato é que a Cunhalada pelas costas é o maior pavor de Temer (vulgo Michel) e de seus partidários, uma grande frente ampla de parasitas de legenda, políticos carreiristas, alpinistas do Congresso e corruptos em geral. E quem aponta para esse fantasma mau-caráter, espectro encardido que ronda os fundilhos sujos de cada um deles, é o próprio dedo duro de Eduardo Cunha.

Desde fins de 2015, sempre que o tempo fecha para Cunha, aparecem menções, ilações, boatos, porta-vozes que dizem que, se isso ou aquilo não sair conforme sua vontade, o circo vai pegar fogo para Temer e sua trupe.   Foi assim em 08 de maio, em 20 de abril, em 12 de junho e agora em 02 de agosto. Por quatro vezes as ameaças bateram à porta de Temer, como detalhamos abaixo.

A esquerda também vem sonhando, de fins de 2015, com denúncias apocalípticas que ocasionariam  uma reviravolta retumbante no processo do impeachment. Se Cunha desse com  a língua nos dentes, abrindo o bico contra os seus cúmplices e cupinchas nas dezenas de maracutaias que gerenciou – para usar aqui o verbo “gerenciar” tão caro ao prefeito do Rio, Eduardo Paes –, a costura do golpe podia ruir de uma só vez.

A experiência mostrou duas coisas: primeiro, que Cunha dispõe de mais apoios do que se imaginava entre o baixo clero da Câmara, o que leva à conclusão de que ele financiou mais campanhas do que se imaginava de deputados dessa faixa; segundo, que sua moderação em vazar fatos, sua discrição, não significa falta de munição mas, ao contrário, um farto arsenal de recursos que permite um uso dosado, quase cirúrgico, a cada vez que se faz necessário. Assim, tivemos quatro episódios bastante emblemáticos, sobretudo para conhecer o modus operandi de Eduardo Cunha:

Em 08 de maio de 2016:  

Anthony Garotinho, servindo de garoto de recados, trouxe a público declarações de Cunha que davam conta de que, se traído, não hesitaria em dar uma resposta dura: “Se eu for abandonado não vou sozinho para o sacrifício. É bom que alguém diga a Michel (Temer) e a (Romero) Jucá que eu posso ser o início do fim de um governo que nem começou.”

Cunha, com o olfato aguçado, farejava no ar uma traição de Temer que ligou para empenhar solidariedade assim que Teori Zavascki decidiu pela suspensão de seu mandato e da presidência da Câmara. Sua resposta veio lapidar, nos termos mafiosos próprios da política brasileira:

“Não sou bobo. Tem gente que manda matar e depois vai chorar no velório ao lado da viúva. Se estão pensando que vou aceitar solidariedade sem uma solução concreta estão enganados.”

 

Interessante é que o post em que, no seu blog, Garotinho relatou essa conversação de alto nível recebeu o título de Eduardo Cunha com faca nos dentes.

http://www.blogdogarotinho.com.br/lartigo.aspx?id=21222

 

Em 20 de abril:

Matéria no Estadão informava em detalhes as manobras de Cunha para minar a tentativa de Temer de ampliar seu poder junto aos deputados na Câmara. A matéria tinha o título: Ameaça a Temer é plano B de Cunha para se salvar.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ameaca-a-temer-e-plano-b-de-cunha-para-se-salvar,10000027129

 

Em 12 de Junho:

Em nova ameaça dirigida ao interino Michel Temer, Cunha diz que se cair levará junto, num grande abraço de afogados, 150 deputados. Ou seja, seria o apodrecimento definitivo e a ruína do bloco político que dá a aparência repugnante, embora para o gosto dos golpistas passável, de sustentação no Congresso da opção Temer.

http://www.brasil247.com/pt/247/poder/237789/Cunha-amea%C3%A7a-Temer-se-cair-leva-150-deputados.htm

 

02 de agosto:

Agora, novamente, no dia de ontem, o Estadão publica matéria em que Eduardo Cunha sinalizaria com munição de baixo calibre mas alto poder destrutivo contra políticos que se disponham a puxar o tapete debaixo dos seus pés. A matéria vem com o título Cunha prepara dossiê sobre seus aliados políticos.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,cunha-prepara-dossie-sobre-seus-aliados-politicos,10000066375

Eduardo Cunha respondeu com extrema agitação à matéria, afetando uma indignação que só um recém nascido na política brasileira poderia sentir.

“Faz uma semana que a repórter do Estadão ,que assina a matéria de hoje , tenta emplacar a fofoca que publicou  e tenta uma frase minha.  Certamente [está] a serviço de plantadores [de notícias] que querem tumultuar com mentiras e fazer disso pauta política. Desmenti a ela com veemência e afirmei a ela que publicação irresponsável, ainda mais sem citar a fonte, mereceria de mim processo judicial. É o que terei de fazer. Serei obrigado a processa-la e à publicação.”

Esse desmentido não passa, evidentemente, de conversa fiada, que, dentre outras coisas, isenta o Estadão de servir de mural de recados ao submundo da política. A longa ficha corrida de ameaças, como mostrado acima, não deixa dúvida de que Cunha usa a delação em massa como método de trabalho.  Elas aparecem a cada mês, com a constância disciplinada de um bom pagador, ou melhor, no caso, de um cobrador bem armado (“com faca nos dentes”).

Que não tenham sido, até agora, objeto de uma ação enérgica de Michel Temer, desafiando Cunha a declamar publicamente suas insinuações, o que pode ser senão o óbvio acovardamento? E por que motivos Temer teria o que temer de Cunha?

O resultado da última chantagem está na coluna Painel da Folha de São Paulo de hoje. Partidários de Cunha dizem ter força para até 200 abstenções se votada a cassação, e da parte de Temer as notícias seriam as seguintes:

“O Planalto atua para empurrar a votação final para depois do julgamento de Dilma. ‘Eduardo não pode ir primeiro’, diz um líder do centrão, que ajuda o governo nos bastidores.”

Deixar o assunto para depois de Dilma, torcendo para a aprovação do impeachment, significa trabalhar para que Eduardo não só não vá primeiro como não vá nunca. A república da escória é também a república da chantagem.

Bajonas Teixeira:
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