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Espiando o poder – Abstenção, recado e trabalho

Por Luis Edmundo

04 de outubro de 2016 : 11h15

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Espiando o poder: análise diária da grande imprensa

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

A direita ruge, grande vencedora das eleições municipais em todo o País, e tamanha vitória dá direito, no entender ao menos do Globo e da Folha de São Paulo, de voltar a contestar a obviedade do golpe, assimilada já em diversos pontos do planeta, a julgar pelo recente vexame internacional de Michel Temer na Organização das Nações Unidas (ONU). Até o presidente da Costa Rica se recusou a ouvir seu colega brasileiro, enquanto Barack Obama fingia se atrasar para não estar ali presente, pela primeira vez na história, escutando do presidente empossado, não eleito, a mesma tese defendida por Merval Pereira. “Derrota de PT mostra que tese do golpe foi rejeitada”, diz o jornalista em sua chamada de capa, enquanto na Folha a tarefa cabe a ACM Neto, reeleito prefeito de Salvador com 74% dos votos. O recado mais importante, porém, aquele que vai também na primeira página do Estado de São Paulo, cada um publicando de um jeito, a pretender originalidade, refere-se à abstenção registrada nestas eleições. Parece que o eleitor não quer mais votar, não, ainda mais amedrontado por tantos crimes por causa da tal política demonizada há anos, seguida e impiedosamente, pelos três jornais.

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É Temer quem dá o “recado à classe política” no Estadão, em chamada sem foto, e também na Folha, onde aparece grande na única imagem da capa (de Natacha Pisarenko, da Associated Press), a cochichar com o presidente argentino, Mauricio Macri, que a “reforma política é ‘indispensável'”, segundo o texto-legenda. No Globo, duas chamadas abaixo da batalha perdida de seu colega de redação, Míriam Leitão avisa que o “País precisa ouvir o silêncio que vem das urnas”, e também na primeira página o editorial saca o “lulopetismo” pra dizer que o eleitorado puniu os políticos em geral. No texto, lá dentro, o jornal lembra da declaração de João Doria, eleito prefeito de São Paulo no primeiro turno. “Não sou político, sou gestor”, volta a dizer Doria nas páginas do jornal que no meio de uma crítica tardia à pulverização das legendas, surgida apenas no último parágrafo, afirma que “a crise na representação política torna o eleitor cada vez menos interessado em votar”.

Exemplo maior do sucesso desse raciocínio, Doria aparece na manchete da Folha prometendo congelar por todo o ano que vem as tarifas de ônibus, causadoras primordiais dos protestos gigantescos de 2013 em que o Congresso foi cercado por centenas de milhares pedindo decência, carros de emissoras de televisão foram virados, quebrados, e que deram no que estamos vivendo hoje. No subtítulo da manchete ao lado do mapa brasileiro mostrando em cores, o vermelho principalmente, a queda vertiginosa do PT nas eleições, o futuro prefeito fala logo em “privatização”.

No Estadão Doria surge triunfante na janela do carro, ao lado de um “admirador” na foto de Marcelo Fernandes, com um troféu na mão. É ainda o único nome citado na manchete do jornal sobre a disputa interna no PSDB para 2018, eleição que, caso aconteça mesmo, parece já vencida pela direita, a julgar pela foto (de Tiago Queiroz) abaixo da de Dória, do futuro representado pelos três mais jovens eleitos vereadores em São Paulo. Fernando Holiday (DEM), militante do MBL, e Janaina Lima, do Partido Novo, defensor do Estado mínimo, aparecem um pouco à frente, lado a lado, ao lado também de Sâmia Bomfim, eleita pelo PSol e posicionada um pouquinho só atrás dos futuros colegas. Dos três, o único que merece menção além do nome e do partido é Holliday, negro e gay que “é contra cotas raciais e não assume a bandeira LGBT”, segundo o texto-legenda.

O Globo deixa a celebração para as páginas de dentro e para as chamadas menores sobre os “27 milhões” a serem governados pelo PSDB, por enquanto, e sobre Doria partindo logo para privatizar as ciclovias. Ao contrário dos concorrentes paulistanos, o jornal carioca ainda precisa trabalhar numa eleição, e depois da imparcialidade inevitável da edição sobre o resultado das eleições, inaugura hoje a esperada série de capas a induzirem, apenas, sem afirmar qual o candidato do jornal. A manchete é sobre o duelo entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo por 2,4 milhões de votos na cidade, neutra como quase tudo, aliás, no que se refere ao texto sobre a eleição carioca na primeira página, a não ser a chamada para o artigo do editor de livros Carlos Andreazza dizendo que o “PSol dá chancela à liberdade de disparar rojão”.

Andreazza retoma, no primeiro dia de campanha do segundo turno, o caso do cinegrafista Santiago Andrade, morto em 2014 ao ser atingido por um rojão disparado durante manifestação, e que rendeu a já histórica manchete do Globo afirmando que o estagiário de um advogado havia dito que os acusados pela morte de Santiago estariam envolvidos com Freixo, tudo isso, inclusive o estagiário, em letras garrafais, como convém a uma manchete. Agora, o jornal volta a tentar relacionar Freixo com o caso, ao lado da feliz imagem captada de novo por Paulo Jacob, de um Crivella com todos os apoios possíveis refletidos nele mesmo, de Índio da Costa na bochecha e também de Pedro Paulo e Osorio na altura do rosto, e com Jandira lá embaixo, afastada do Freixo refletido em cima, isolado ali e também na outra foto da capa (de Marcelo Carnaval), a posar pensativo, sozinho.

E se tem de trabalhar ainda nesta eleição, o Globo repete de maneira mais discreta o pito ao prefeito Eduardo Paes, o grande culpado disso na edição de ontem, com direito a foto e vaticínio na capa onde hoje nem é citado na chamada para o texto de Joaquim Falcão. “STF, MP e PF vão para um lado e o eleitor para outro”, diz o título pra só nas páginas de dentro o leitor ficar sabendo que trata-se do caso de Pedro Paulo, absolvido pela Justiça das acusações de agressão à própria mulher.

Mas se tem ainda de disputar a Prefeitura do Rio, a direita continua a rugir. Refletido no ombro de Crivella na primeira página, Flávio Bolsonaro vem no alto da página 6 do Globo, em matéria sobre os mais de 530 mil votos para os filhos do deputado federal Jair Bolsonaro no pleito de domingo. Dono de 424.307 desses votos, Flávio aparece na foto de Leo Martins fazendo com a mão o movimento de quem cresce, e atribui a votação conquistada ao eleitor que ‘saiu do armário’. Flávio terminou em quarto lugar na disputa para a Prefeitura do Rio, com 14% dos votos, a 4,2% de distância do segundo turno, já que o segundo colocado, Marcelo Freixo (PSol) teve 18,2% dos votos. Seu irmão, Carlos Bolsonaro, foi o vereador mais votado da cidade, com 106.657 votos.

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Luis Edmundo

Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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1 comentário

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Maria Aparecida Lacerda Jubé

04 de outubro de 2016 às 18h58

Para quê votar, se o o legislativo e o judiciário obedecendo a mídia e demais poderosos, não respeitam nosso voto?

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