Cunha delata o golpe: votos pelo impeachment foram comprados

(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil / Fotos Públicas)

Não vou comentar mais sobre o fato da delação vazar antes mesmo de existir. Também vou tentar ignorar a possibilidade de ser mais uma barriga de Noblat.

Há algum tempo, um procurador-geral, alguns juízes, ainda faziam barulho contra o vazamento de delações – geralmente quando ela atingia alguém querido deles, ou a eles mesmos.

Hoje ninguém mais liga.

Virou bagunça.

Entretanto, se a mídia acredita nas delações, precisaria dar o devido destaque à delação de Eduardo Cunha, que é a mais importante de todas, porque denuncia que a votação do impeachment foi comprada.

Repitamos: Eduardo Cunha, que era presidente da Câmara dos Deputados e o coordenador do processo de impeachment no congresso nacional, afirmou que os parlamentares receberam propina para votar em favor do golpe.

A denúncia de Cunha, e isso é o essencial, é apenas mais um entre tantos vícios que corrompem o processo de impeachment – a começar pelo vício de não apontar nenhum crime de responsabilidade.

Não vou me estender sobre o triste papel dos ministros do STF. A mídia só consulta o judiciário se for para corroborar suas próprias teses.

E os ministros do STF só agem ou falam se antes entenderem que terão aval da mídia.

Eu poderia aqui falar sobre a necessidade do STF anular o impeachment. Mas vocês já souberam qual ministro foi “sorteado” para relatar a ação popular que pede a anulação do golpe?

Foi Alexandre de Moraes, o ministro tucano que substituiu Teori Zavascki, morto num acidente de avião dias antes de tomar uma decisão sobre as delações da Odebrecht…

Moraes, indicado por Michel Temer, não vê problemas em relatar a ação de anulação do impeachment.

Ninguém vê. Nessa exótica e atrasada república de banana que o Brasil se tornou, todos fingem que as instituições estão “funcionando normalmente”.

Carmen Lucia, presidenta do STF, numa de suas performances para Globo, falou algo sobre o cinismo vencer a esperança e o escárnio vencer o cinismo.

E agora, excelentíssima?

O que vence o escárnio?

O que vence o escárnio de ver o judiciário participando da suruba?

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No blog do Noblat

A lista de Eduardo Cunha
14/07/2017 – 04h40
Por Ricardo Noblat

Parte da delação do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em Curitiba desde outubro do ano passado, já foi aceita pelo Ministério Público Federal. E é nela que reside a revelação que mais assombra seus ex-colegas da Câmara: a lista dos que receberam dinheiro para votar a favor da abertura do processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

Cunha não se limitou a dar os nomes – a maioria deles do PMDB. Citou as fontes pagadoras e implicou o presidente Michel Temer. Reconheceu que ele mesmo em alguns casos atuou para que os pagamentos fossem feitos. Contou o que viu e acompanhou de perto e o que ficou sabendo depois. Não poupou nem aqueles deputados considerados mais próximos dele. Teve uma razão especial para isso.

É o troco que dá aos que antes satisfizeram suas vontades e depois o abandonaram quando mais precisou da ajuda deles. Cunha foi do céu ao inferno num período de 17 meses. Eleito presidente da Câmara em primeiro turno no dia 1 de fevereiro de 2015 com 267 votos de um total de 513, acabou cassado no dia 12 de setembro do ano seguinte por 450 votos. Somente 10 deputados votaram por sua absolvição.

Tanto Cunha quanto o Ministério Público têm pressa em fechar acordo em torno do restante da delação. Se isso ocorrer, ela poderá servir de base para uma nova denúncia contra Temer. Ou, no mínimo, para provocar um terremoto na base de sustentação do governo no Congresso, fragilizando-o ainda mais. Temer já foi informado a respeito e reagiu com tranquilidade.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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