Live do Cafezinho (21 h): análise das eleições, pós-segundo turno

Moniz Bandeira vê Forças Armadas com a cabeça em 1964 e aponta a “revolução” como única saída

Por Wellington Calasans

01 de outubro de 2017 : 18h06

Por Wellington Calasans

O Cafezinho tem a honra de publicar mais uma entrevista exclusiva do cientista político e historiador, Luiz Alberto Moniz Bandeira. Nesta entrevista, o cientista reconhece que a “intervenção militar para transição democrática” jamais daria certo com a instituição ocupada por generais com a cabeça em 1964. Moniz Bandeira diz que a “revolução” é o único caminho que resta para evitar o desmonte do Estado.
Ouça atentamente o que diz o Professor Moniz ou, se preferir, leia a transcrição feita pela leitora e colaboradora voluntária do Cafezinho, Camila Govedice.


Professor Moniz Bandeira – Ao Wellington Calasans do blog O Cafezinho que eu acompanho, eu queria dizer que com essa proposta do Ministério da Defesa para a entrega de Alcântara aos norte-americanos dos EUA, já não se pode confiar no nacionalismo das Forças Armadas. Estive a pensar hoje, realmente eu percebo que uma intervenção militar desse jeito não poderia resolver o problema do Brasil. As Forças Armadas estão divididas. Há militares muito esclarecidos, mas outros, como o General Mourão, ainda pensam em termos de Guerra Fria e dos tempos de 1964 e a situação do mundo é outra, então eu acho difícil que as Forças Armadas possam realmente dar jeito no país. O Comandante do Exército, o General Villas Bôas, que é um homem muito lúcido, está doente e as Forças Armadas estão divididas em opiniões, divididas inclusive nisso. Teriam que agir como instituição, sem quebra da disciplina e da hierarquia, mas aí isso é difícil por esta razão, porque muitos estão pensando de forma diferente.

Wellington Calasans – Professor Moniz, o senhor falou que o Comandante Villas Bôas está doente, o senhor tem alguma informação mais precisa sobre isso?

Professor Moniz Bandeira – Não, só sei disso, que ele está doente, andando com bengala, que há realmente uma degenerescência muscular, só sei isso. Ele é um homem muito lúcido, e há outros também que são muito lúcidos, mas por isso que é difícil que elas possam agir como tem que agir, claro, como instituição, sem quebra da disciplina, da hierarquia que são fundamentais. Não, isso não pode haver, quebra da disciplina e da hierarquia.

Wellington Calasans – Professor Moniz, o senhor falou aí sobre o lançamento de satélites norte-americanos, foguetes norte-americanos a partir da base brasileira de Alcântara. O senhor considera isso um crime lesa-pátria praticado pelas Forças Armadas, pela própria Defesa Nacional?

Professor Moniz Bandeira – Não falo em lesa-pátria, isso não faço, mas é uma violação da estratégia nacional de defesa, da soberania do país, porque os norte-americanos não transferem tecnologia e vedavam até o acesso de brasileiros às bases. Isso não interessa ao país. Os acordos com a Ucrânia fracassaram por causa do golpe que houve lá que os EUA fomentaram contra Yuri (Viktor, correção da transcritora) Yanukovych. O acordo com a Ucrânia só não deu certo por causa disso, mas os russos estão dispostos a fazer uma cooperação com o Brasil transferindo tecnologia. E outros países podem fazer também, tem a França.

Wellington Calasans – Professor, então, diante aí desse comentário do senhor, não é exagero afirmar que o Brasil hoje é um país rendido, é isso aí, que está sob uma invasão e está rendido? Ao invés de decretar resistência ao desmonte e à invasão, o Brasil está institucionalizando todo o processo de invasão do qual está sendo vítima.

Professor Moniz Bandeira – Está, isso não tenha dúvida. O Brasil está sendo ocupado em todos os sentidos, entregando todas as bases do poder nacional ao estrangeiro como agora a venda das hidrelétricas. A energia pode condicionar o desenvolvimento do Brasil, eles querem ou não, os estrangeiros. E o governo está vendendo tudo, não vai restar nada no final.

Wellington Calasans – O Brasil então está condenado a ser um grande terreno com a bandeira do entreguismo no meio, é isso?

Professor Moniz Bandeira – Já é. Já está, desde o golpe contra a Presidenta Dilma que o Brasil está cada vez mais sob o domínio do estrangeiro representado, sobretudo pelo Ministro Henrique Meirelles, que é um homem dos bancos. O que temos no Brasil é uma ditadura de empresários e banqueiros. Um governo que só tem 3% de apoio popular, 3% é uma ditadura. E aplica reformas, essas reformas não tem legitimidade, nenhuma. E precisaria de um governo que desfizesse tudo, mas eu tenho minhas dúvidas de que isso possa ocorrer porque estão manipulando tudo, até as eleições.

Wellington Calasans – O senhor acredita que as eleições de 2018 estejam ameaçadas também?

Professor Moniz Bandeira – Eu acho. Essa gente não vai entregar o governo porque sabe que vai ser presa e também essa Lava Jato é uma encenação, é uma farsa que não vai acabar com a corrupção. A corrupção é inerente ao sistema republicano presidencialista e ao capitalismo. Os empresários não estão se incomodando com isso porque eles sabem que a corrupção é inerente à economia privada, à livre-iniciativa. Para vencer eles usam de todos os meios, até da corrupção. Agora, países mais, países menos. Nos EUA, o lobby é institucionalizado, os presidentes dão conferências, viajam pago, ganham fortunas, as eleições lá são financiadas pelos bancos, quem ganha mais dinheiro para as eleições é o vencedor. No Brasil tem esse escândalo todo aí para quê?

Wellington Calasans – Então o senhor acha que, a pretexto do combate à corrupção, o Brasil mergulhou num retrocesso que não tem mais volta, é isso?

Professor Moniz Bandeira – Não sei se não tem mais volta, precisaria de uma revolução para que houvesse uma volta, agora, não estou vendo mais possibilidade de que as Forças Armadas pudessem dar um jeito, não vejo.

Wellington Calasans – O senhor considera a gota d’água, então, a entrega que foi feita de know-how militar, assim de forma totalmente…

Professor Moniz Bandeira – Ainda não foi entrega, ainda não foi Alcântara entregue. Há uma proposta brasileira que os americanos estão estudando se aceitam ou não, mas eu sei que os americanos, os norte-americanos não querem, não vão fazer, não vão transferir tecnologia. Isso é proibido, lá. E não vão deixar entrar. Ademais, os EUA não cumprem acordo, isso é tradicional, é histórico. Eles não cumprem nenhum tratado. Só cumprem enquanto interessa, quando não mais interessa, eles rompem. Isso é tradicional. O egoísmo nacional nos EUA é fantástico.

Wellington Calasans – Professor, para concluirmos a nossa conversa, o senhor falou na palavra “revolução”, que os setores progressistas brasileiros tremem de medo quando ouvem, a sociedade brasileira, o senhor em uma recente entrevista aqui mesmo para O Cafezinho falou que a sociedade brasileira não tem educação suficiente para entender os problemas nos quais está mergulhada, então, qual seria a solução, professor? Não temos solução?

Professor Moniz Bandeira – É difícil. É um dos mais baixos níveis de leitura do mundo e um dos mais baixos níveis de compreensão de leitura. É uma coisa horrorosa. Nesse aspecto, é muito inferior à Argentina, o Brasil. À Argentina e ao Uruguai.

Wellington Calasans – Isso quer dizer, então, professor que não temos saída fácil, não aí, não é?

Professor Moniz Bandeira – Não, a educação é fundamental para o desenvolvimento e o Brasil não tem.

Wellington Calasans – Então eu volto a perguntar ao senhor: então não tem jeito?

Professor Moniz Bandeira – Não sei se tem jeito ou não tem. Não estou vendo perspectiva nenhuma e cada vez está pior. Está cada vez pior. Eu não vejo, entende? Houve um momento em que se vislumbrou alguma coisa. Nós temos grandes homens. O chanceler Celso Amorim, que era o melhor do mundo na sua época, do presidente Lula, o que ele alcançou. Temos grandes figuras, mas o Brasil não dá valor. Não sei se vocês vão permitir que o ex-presidente Lula volte a se candidatar, com tantos processos que eles estão armando, um atrás do outro. Agora, só com ele que atingem, enquanto que a corrupção não começou com ele. A privatização que houve durante o governo de Fernando Henrique foi terrível o enriquecimento ilícito. Toda privatização tem dinheiro por trás que vai lá para as Bahamas e outros paraísos fiscais. Eu não acredito, eu acho que tudo isso é uma farsa. A corrupção é usada para sensibilizar a classe média, o operário não está ligando para isso, não está vendo esse assunto. E o empresário, a classe alta sabe porque eles vivem da corrupção.

Wellington Calasans – Professor Moniz Bandeira, muito obrigado por esta entrevista aqui para O Cafezinho.

Professor Moniz Bandeira – Eu que agradeço, mais uma vez, a oportunidade de falar para O Cafezinho. Lamento muito, eu achava, achei há pouco tempo que a solução seria uma intervenção militar, mas hoje vejo que é difícil porque não há um consenso dentro do pensamento das Forças Armadas e elas teriam agir como instituição, sem quebra da hierarquia e a disciplina, e eu não estou vendo isso possível. Ainda agora com essa entrega de Alcântara eu já estou duvidando do nacionalismo.

Wellington Calasans – Pois é. Professor, muito obrigado, então. Um grande abraço e conte sempre aqui com a gente.

Professor Moniz Bandeira – Muito obrigado.

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18 comentários

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Edjane Guedes Nascimento

05 de outubro de 2017 às 09h15

Que país é esse? Entreguismo das nossas riquezas é isso que os lesas pátria sabem fazer. Voltaremos a ser colônia agora não mais de Portugal mas do capital estrangeiro. Tudo dado de bandeja em troca nossa subserviência.

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José Ubaldino Motta do Amaral

04 de outubro de 2017 às 10h28

Se as força armadas desfizerem tudo o que fizeram dese 1889. Há um jeito: uma monarquia parlamentarista, onde o Banco Central, o Ministério Público, as empresas estatais e conselho das força armadas fariam parte do Poder Moderador (naturalmente sempre nacionalista) e não do Poder Executivo (patriota ou não)

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Helena Maria Mendes Francisco

03 de outubro de 2017 às 22h17

Finalmente alguém percebeu o óbvio.

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Hélio Ferraz Falcochio

02 de outubro de 2017 às 19h18

O Brasil tem jeito!
1.o. Deixar um pouco o ultranacionalismo de lado.
2.o. Ter foco no combate à corrupção.
3.o. Permitir o capital estrangeiro.
4.o. Dar as boas vindas as corporações Aeroespaciais que querem usar Alcântara e aproveitar também esse capital e aporte tecnológico.
5.o. Votar consciente de que não há “salvador da pátria “l.
6.o. Dar continuidade aos programas sociais com foco no combate à pobreza.
7.o. Valorização das FFAA, das Polícias e do servidor público.
8.o. Focar na educação de nível técnico e superior.
9.o. Investimento em ciência e tecnologia.
9.o. Valorização dos empresários.
10.o. Geração de emprego e renda.

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Rute Fonseca

02 de outubro de 2017 às 19h19

Deus nos livre de intervenção militar .AFFI. Os caras são treinados pra guerra , pra briga , pra matar. Como eles vão lidar com a democracia? Não é o trabalho deles. Não foram instruídos pra isso. A função deles é outra .

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Edson

02 de outubro de 2017 às 14h49

E como é difícil conversa com o povo !!!
Tu vai conversar com o sujeito sobre política, o sujeito mistura religião no meio . Ou então não consegue compreender que ele tem direitos, a maioria acha que os direitos que tem, caíram do céu !!!
Não tem memória política, não tem memória histórica, não sabe de PORRA nenhuma !!!
O povo é conservador, elitizado, vê se pode ?
O pobre brasileiro é ELITIZADO !!!!
O povo só sabe o que a MÍDIA GOLPISTA ensinou ao longo da vida !!!
E pior as igrejas evangélicas estão alienando mais ainda a cabeça do povo, estão fazendo o povo acreditar que ciência é coisa do capeta !!!!
Que futuro terá esse país ?

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orlando arruda

02 de outubro de 2017 às 13h15

Prezado Wellington Calazans: Postar reportagem com uma pessoa como esse Moniz Bandeira, já sabendo de sua opinião, é um completo desserviço ao país. Os ´analistas´ de plantão se aproveitam da palavra do doutor para vomitar merda. E ainda termina com ´Um grande abraço e conte sempre aqui com a gente.
É demais. Já leram os comentários?

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Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto

02 de outubro de 2017 às 11h36

A História só se repete como farsa? Um novo General Mourão, como em 64.Um novo “Ministro” (Comandante) do Exército legalista doente, como em 64. Uma nova grita contra a Corrupção, excitando a classe média, como em 64. Farsa?

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João Carlos AGDM

02 de outubro de 2017 às 11h10

Grande e lúcida entrevista deste grande brasileiro.
Da minha parte, só vejo um jeito:
1. Lula alcançar 70% de aceitação principalmente nas classes média e alta. Estas classes devem entender que Lula é amigo, e não inimigo. E Lula reverter o que os bandidos que a Globo botou no Poder e dá amparo/proteção estão fazendo contra o Brasil.
2. Depois disto, ou Lula ou uma Forças Armadas politizada como na Venezuela.
É muito difícil, mas, nada é impossível.
Afinal o povo venezuelano é tão precário quanto o nosso…

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Mário Alves Ferreira Jr.

02 de outubro de 2017 às 12h45

ERA única saída… agora só com o exército…

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Aldo soares

02 de outubro de 2017 às 09h40

Não existe essa de militar com cabeça de 1964 . O que existe é um estatuto com base na CF onde o militar cumpre fielmente, o que não está acontecendo com os políticos que fazem as leis ; as fazem imputando para si todas prerrogativas imorais,tal o foro. Militar não é burro muito menos ingénuo ; gato escaldado sente medo de água fria. O caos é o momento crucial. A sociedade ainda não explodiu, mas está prestes. A assepsia deve na política não elegendo vagabundos.

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Hilario Sousa

02 de outubro de 2017 às 06h59

Não quero me alongar para não cansar ninguém. Por acaso, há uma outra saída, senão o exército a frente para em seguida chamar as eleições? Há motivos mais do que suficiente para tal.

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Gilson Da Silva Nunes

02 de outubro de 2017 às 04h47

Robson Azevedus, Míriam M. Morais

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Miguel Barbosa

01 de outubro de 2017 às 22h35

Notável a entrevista com o Professor Moniz Bandeira. E la nave va, Professor….Concordo com o Hildermes.

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Reginaldo Gomes

01 de outubro de 2017 às 22h23

Intervenção Popular Já.
É como o professor Moniz sentenciou : ” Revolução como única saída!”
Igual a revolução que está sendo feita pelo povo de São Bernardo do Campo , MTST e o Boulos.

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Luis Campinas

01 de outubro de 2017 às 22h10

Com todo o respeito, imaginar que os militares de hoje se pareceriam com os de 64 é inaceitável. As FFAAs foram de longe, o seguimento de resistência mais perseguido no pós 64. Se algo tem que ser apreendido com o que estamos a passar é que os espaços do Estado, suas corporações, têm que ser disputados. Militar, juiz, procurador e delegado, tem que ter lado, primeiro a legalidade e o respeito a autoridade constituída. E quem exige respeito o tem, quem não… O lado é o seguinte: não pode participar de ato ilegal do tipo, mandar oficial seu infiltrar em movimentos democráticos para incriminar jovens e ainda o promover! Não pode escutar conversas de presidente da república e pior divulgá-las, não pode delegado levar eleição para segundo turno em conluio com a mídia, não pode pactuar com criminosos para perseguir partidos, pessoas.

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Francisco Gonçalves Mota

01 de outubro de 2017 às 22h02

As forças armadas precisam se posicionarem urgentemente , pois a bagunça está formada nos três poderes, a política do Brasil é a mais suja do mundo. Acredite que se as forças armadas não reagirem, somente o povo pode dá uma resposta nas urnas e assim acaba essa sacanagem.

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Hildermes José Medeiros

01 de outubro de 2017 às 19h43

Ao dizer que “Essa gente não vai entregar o governo “, para mim está claro o quê diz o professor Muniz Bandeira, à vista das pesquisas de intenção de votos, para a eleição para Presidente em 2018, que irá se realizar exatamente daqui um ano, podem estar apresentando resultados bastante improváveis, que a tendência, mesmo Lula sendo impedido de candidatar-se, não seja o fortalecimento de uma candidatura de oposição ao golpe, golpe que está procurando a legitimidade do voto, mas está ficando claro que não tem um nome de consenso, com possibilidade de garantir uma vitória. Sem recurso às Forças Armadas, se não for encontrado pelos golpistas um nome com possibilidades de ganhar, que até aqui não se vê, fica difícil afirmar que ” Essa gente não vai entregar o governo “. Parece que sem Lula, mas com um indicado seu, fica difícil para os golpistas uma solução no voto, dentro desse arremedo de Democracia que ainda existe. Não sendo isto, só há uma possibilidade: tentativa, uma aventura (as Forças Armadas, diz, estão divididas) de resolver o problema, que é a tentativa de consolidar o golpe através das armas, da força bruta. As Forças Armadas não deixam dúvidas que estão dando apoio ao grande capital. Por tudo isso, é bom pensar, muito juízo, para não entrar em aventuras, prejudicando ainda mais o país, nessa tentativa, sem apoio da maior parte da população, de consolidar o golpe do impeachment contra o interesse da maioria, que não mais se reflete no Congresso Nacional. Essas pesquisas mostram como o Congresso destoa da população que deveria representar.

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