Mais uma opinião sobre a possibilidade de o PT apoiar Ciro Gomes

Por Pedro Breier

– Desculpa, você tá intoxicado com a propaganda do mercado. Vai me perdoar. No orçamento executado ano passado, de cada 100 reais executados documentalmente, 51 reais e 70 centavos foram juro pra banco.

– Não, eu tô falando da despesa não financeira.

– Mas por que que eu vou fazer a despesa não financeira? Isso é gasto corrente. É aí que tá o busílis, se eu tirar a despesa financeira eu não discuto ela. Vou discutir, no lombo do povo, o gasto com saúde. Deixa que o nosso povo morra como mosca nos hospitais, tratado com toda a indignidade, porque isso pode. Mas o banqueiro não pode deixar de ter um lucro exorbitante como tá tendo hoje. Pera um pouquinho! A economia toda indo pro vinagre e os bancos concentrados, 5 bancos dominam 85%. Esse é o busílis, esse é o busílis. Eu não quero ser presidente do Brasil se não for para equilibrar as coisas e proteger o nosso povo.

Poderia ser o Guilherme Boulos ou o Lula radical de 1989.

A bela traulitada no dogma mercadológico – “o pagamento da dívida é sagrado”, dizem eles – foi, entretanto, de Ciro Gomes, na sabatina de Folha, Uol e SBT, ontem.

O entrevistador quis saber de onde se tiraria dinheiro para a saúde e Ciro falou claramente que há que se colocar um limite nas despesas financeiras, ou seja, no pagamento da dívida pública. “Como é feito nos EUA”, arrematou.

Outra de Ciro na sabatina:

Nesse país, só quem paga imposto é classe média e pobre. Vamos ter clareza disso. No meu governo eu vou diminuir os impostos sobre a classe média e os pobres e vou aumentar sobre os ricos. Se eu ganhar a eleição com essa proposta, vocês vão ver acontecer.

Quando vejo declarações como essas de Ciro Gomes – que não são recentes, diga-se de passagem, já que há vídeos de mais de 10 anos atrás onde ele bate nessas mesmas teclas – fico profundamente encasquetado com a celeuma provocada pela possibilidade de a esquerda, inclusive o PT, se unir em torno de seu nome.

Lula foi o melhor presidente da história do Brasil, é o maior líder popular da nossa história e está preso sem que haja prova contra si, sendo que seu alijamento da eleição é parte do golpe anti-povo levado à cabo pela direita.

Dito isto e confirmada a impossibilidade de Lula concorrer, é evidente que Ciro é uma bela opção para a esquerda.

Se enfrentar os dogmas liberais, o rentismo e os bancos; falar em diminuir os impostos sobre a classe média e os pobres e aumentar sobre os ricos; propor a revogação da reforma trabalhista e da PEC do teto dos gastos não é ser de esquerda, na conjuntura atual, então estamos mais próximos da revolução do que imaginamos.

Alguns desses pontos, como o ataque frontal à questão da dívida, não apareceram mais nos discursos de Lula desde os anos 90, mais ou menos. Ciro está, queiram ou não, à esquerda do PT em diversas questões fulcrais.

A acusação, repetida à exaustão nas últimas semanas, de que Ciro “não é de esquerda”, não para em pé.

Sobre as trocas partidárias de Ciro, vale a pena ler o histórico feito pelo editor do Cafezinho, Miguel do Rosário, neste post, demonstrando que as trocas apontam, na verdade, para a coerência e o compromisso de Ciro com a agenda da esquerda.

Os ataques atabalhoados a Ciro simplesmente não se sustentam. São inclusive bastante irresponsáveis, dado o momento gravíssimo e as duras batalhas que as forças populares têm pela frente.

Faz todo o sentido do mundo a esquerda – excetuado o PSOL, que não abrirá mão da sua candidatura – unir-se em torno de um candidato para garantir a sua ida ao segundo turno e, então, ter todas as possibilidades de derrotar a direita. O risco de termos dois candidatos submissos ao mercado no segundo turno é real e deve ser levado muito a sério.

A questão do momento dessa união é mais delicada.

Há algumas vantagens táticas na ação de manter a candidatura de Lula. Sua presença na lista de candidatos acaba sendo uma denúncia permanente do golpe e, a cada pesquisa em que ele aparece como líder, uma desmoralização para a narrativa lavajateira. Existem bons argumentos no sentido contrário também, mas creio que, ao menos por enquanto, deve ser mantida a estratégia de levar a candidatura Lula até o limite.

Depois que for consumada sua exclusão absurda da eleição – o que fatalmente acontecerá -, não vejo melhor maneira de impor uma derrota eleitoral ao golpismo do que o PT e o PCdoB apoiarem Ciro Gomes. Já no primeiro turno.

Encerro este post deixando minha solidariedade ao Miguel do Rosário, que sofreu uma espécie de linchamento virtual de parte da militância petista apenas por divergir estrategicamente de Lula.

Como diz o Guilherme Boulos, é bom que haja diversidade na esquerda. Deixemos essa história autoritária de verdade única para o outro lado.

É uma honra, para mim, ser um soldado nesta trincheira de lutas pela liberdade e contra o arbítrio chamada O Cafezinho.

Sigamos.

 

 

Pedro Breier: Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve sobre política n'O Cafezinho desde 2016.
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