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Ciro X Haddad: a política não é lugar do consenso

Por Miguel do Rosário

24 de setembro de 2018 : 08h07

Ciro X Haddad

Numas das leituras que tenho feito, outro dia li que a política, ao contrário do que comumente ouvimos, não é o lugar do consenso, do acordo, da conciliação. Não há como conciliar a carência extrema de um lado com a opulência pornográfica de outro. Ao contrário, então, a política é o espaço da colisão, do dissenso de/entre modos de vida distintos.

Quem não se lembra da famosa imagem de um condomínio de luxo no Morumbi fazendo fronteira com alguns barracos de Paraisópolis? Abaixo a imagem para a recordação:

https://bit.ly/2I8SAGr

A imagem dispensa qualquer tipo de análise. A não ser a ironia (ou não) de, do lado esquerdo, ser possível constatar a vida como ela é. E, à direita, o mundo de Alice construído pelos endinheirados e do qual jamais, repito, jamais abrirão mão por ideais de consenso, bem maior, partilha da riqueza entre outros ideais alimentados, no geral, por quem se alinha ao espectro progressista da política.

O atual cenário brasileiro à corrida presidencial pode ser condensado na imagem acima. Como, por exemplo, fazer dialogar Amoêdo e Boulos? Talvez as pontas mais opostas dessa corrida com intenções mínimas de votação para os dois. E o Meirelles? O ChicagOLDboy endinheiro com claros problemas de dicção. E a Marina? A candidata verde com tons azuis preocupada com a sustentabilidade… dos bancos?

E aí voltamos (não falarei de todos), de novo, à imagem acima: Na figura do candidato que: fazendo apologia à justiça com as próprias mãos (armadas, tá ok?), fazendo apologia ao estupro (às mulheres bonitas, tá ok?), fazendo apologia à tortura, fazendo apologia à ditadura, apresentando como proposta de país a privatização irrestrita, temos o lado direito da imagem acima. E como cirurgicamente definiu o Breno Altman, esse candidato representa a cara real das elites brasileiras: “Não tem maquiagem ou perfume, bons modos ou trejeitos. O capitão reformado é o retrato mais verdadeiro de uma classe dominante escravagista, misógina, homofóbica, antidemocrática.”. Classe essa inteiramente maquiada e perfumada na ficcional figura de Alckmin, cuja diferença, entre ele e o outro é que um sabe pegar os talheres. E o outro sabe fincar esses mesmos talheres.

Já como alternativas autodeclaradas como centro-esquerda, temos Haddad e Ciro. Haddad é sensato nas suas colocações, representa um programa de governo com alguns pontos que certamente entrarão em rota de colisão com os donos do lado direito da imagem acima. Além disso, Haddad tem a força de Lula (para mim, o maior estadista desde a assim chamada redemocratização), mas cujo modelo de fazer política não mais funciona. De novo: como conciliar a galera à esquerda da imagem com a galera à direita da mesma imagem, que, tecnicamente estão (?) no mesmo espaço?

Além de ser indicação de Lula, Haddad tem o estofo intelectual formado em sua carreira como professor na USP, tem falas muito bem equilibradas, não se perde em seus raciocínios durante as entrevistas, consegue ser uma espécie de James Stevens (o irritante e perfeito mordomo no filme Vestígios do dia, interpretado pelo impecável Anthony Hopkins). Isso sem contar na sua carreira política com programas muito bem sucedidos. O anônimo autor que vos escreve, hoje cursando doutorado em Letras, foi bolsista cotista do PROUNI, bolsista no mestrado e, agora, bolsista no doutorado.

Ao lado de Haddad, igualmente preparado, temos Ciro Gomes: Ministro, prefeito, deputado, governador, secretário, etc, etc, etc. À semelhança de Haddad, com boa formação intelectual, conhecedor de economia e homem público há quarenta anos. Também apresenta um plano de governo, para o atual momento pós-golpe, ousado e desenvolvimentista pensando, como ele mesmo diz, na conciliação dos interesses de quem produz com quem trabalha. Aqui não consigo conter a talvez ingênua pergunta: quem produz e quem trabalha não são os calejados e estropiados trabalhadores e trabalhadoras? Há sintomas nessa declaração…

No frigir dos ovos, Haddad e Ciro têm (quase) o mesmo projeto. Ambos, por exemplo, são favoráveis ao que chamam honrar juridicamente os contratos. Ainda que esses contratos tenham sido forjados no seio de um governo fruto de um golpe. Frise-se que Tanto Ciro quanto Haddad andaram declarando que chamariam referendos para desfazer algumas medidas entreguistas dos golpistas.

Fora isso, vamos caminhando: sem exumar nossos cadáveres da ditadura, sem enfrentar nosso fantasma escravagista de 350 anos, sem discutir estupro, sem discutir racismo, sem discutir misoginia, sem discutir comunicação de verdade e sem discutir nossa forma de organização do trabalho nos esquecendo, frequentemente, da famigerada mais-valia.

Ao fim e ao cabo (grande Machado…), voltemos à imagem do início. O que temos é: Um candidato declaradamente disposto a fuzilar tudo e todos que ousam se perguntar por que à esquerda (da imagem) há a miséria quase absoluta enquanto à direita moram os senhores feudais do século XXI. Para mim, a pergunta é: por que e como se sustentam as relações implicadas nessa imagem? E mais: quem tem o que a perder e a conservar nessa imagem?

Definitivamente, a política não pode mesmo ser o lugar do consenso cristianizado. O candidato que representa o lado direito da imagem tem um projeto claro: conservar o seu lado contando, ainda, com aplausos e votos do outro lado.

Já Haddad e Ciro, os dois candidatos do lado esquerdo (próximos ao centro, é bom não esquecer), não somente nada têm o que conservarem do lado esquerdo da imagem, como também, estão dispostos a respeitarem o que, pomposamente, chamam “ato jurídico perfeito”. Olhando para a imagem acima, não consigo não lembrar nosso genial Machado de Assis: “tão certo é que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão.”

Na nossa pedagógica imagem não restam dúvidas de quem tem o cabo à mão.

Vinícius Lourenço Linhares.
Sou professor de Português e Literaturas. Atualmente, doutorando em Literaturas de Língua Portuguesa, na PUC Minas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Chauke Stephan Filho

30 de setembro de 2018 às 14h22

Pena de morte para os estupradores !
Bolsonaro vive. VIVA BOLSONARO !!

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