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Exclusivo! Relatos inéditos da histórica greve de Volta Redonda de 1988

Por Denise Assis

13 de novembro de 2018 : 11h41

Na sexta-feira,  dia 9, a cidade de Volta Redonda lembrou os 30 anos da histórica greve de 1988. Nossa colunista, Denise Assis, aproveitou a data para publicar dados inéditos com relatos sobre o episódio. Leia o texto e assista ao documentário. Os fatos passam, a histórica fica!

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Informe produzido pela área de espionagem de dentro da CSN narra a greve de 1988

Por Denise Assis

[Baixe aqui o Relatório da ASI – Assessoria de Segurança e Informações da CSN endereçado à DSI Divisão de Segurança e Informações, sobre a greve de Volta Redonda 1988]

Trinta anos depois, O Cafezinho revela os relatos da Assessoria de Segurança e Informação da Companhia Siderúrgica Nacional (ASI-CSN- áreas de espionagem implantadas no interior dos órgãos públicos) da ditadura, durante a greve e a invasão, pelo Exército, em 1988,  da companhia – na época uma estatal classificada como área de segurança nacional. A ação dos militares resultou na morte de  três operários: William Fernandes Leite, 23 anos, morto com um tiro na nuca; Valmir Freitas Monteiro, 27, baleado com um tiro no peito; e Carlos Alberto Barroso, 19, com o crânio esmagado a coronhadas de fuzil.

Um informe (nº 0776/88), produzido pela ASI-CSN e endereçado à Divisão de Segurança e Informação do Ministério da Indústria e do Comércio, datado de 9 de novembro de 1988,  localizado no Arquivo Nacional, descreve, do ponto de vista da repressão, os fatos ocorridos na data,  durante a invasão das dependências da CSN.

Em 9 de novembro daquele ano, a Constituição Federal tinha apenas um mês e quatro dias de nascida. Promulgada no dia 5 de outubro, continha em seu artigo 9º as novas regras sobre o direito de greve, que passou a ser admitido de forma ampla, para os trabalhadores em geral, sendo proibida apenas aos militares. Valia também para o serviço público, desde que não fossem suspensos os “serviços e atividades essenciais”, com restrições consistentes “no atendimento das necessidades inadiáveis da população”.

Em meio a uma inflação que bateu a casa de 21,91% no mês de junho, e no acumulado do ano chegou a atingir 554,19%, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional sentiram-se estimulados a fazer alguns ajustes com a direção, relativos a perdas salariais, motivo de uma ação movida em junho.

O Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense reivindicavam à CSN, que os empregados recebessem o valor da URP (Unidade de Referência de Preços), um índice que havia sido criado para que os salários fossem reajustados automaticamente a cada três meses, numa época em que a inflação subia desembestada. Com o endurecimento por parte da direção, após uma assembleia geral realizada no dia 4 de novembro, os trabalhadores decidiram pela paralização a ser iniciada no dia 7 daquele mês. As informações transmitidas à DSI, pela ASI pormenoriza os acontecimentos que se seguiram.

“Às 15 horas JOSÉ JUAREZ ANTUNES, LUIZ ANTONIO VIFRA ALBANO, o presidente da COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL (CSN), Economista JUVENAL OSÓRIO, o General JOSÊ LUIZ. Comandante da 1? BRIGADA DE INFANTARIA MOTORIZADA (BDA. INF. MTZ), e o Coronel ORLANDO MOTA, Comandante do 229 BIMTZ, sentaram-se à mesa para conversar. JUVENAL OSÓRIO explicou que a decisão de conceder a UNIDADE DE REFERÊNCIA DE PREÇOS (URP) congelada e os 26% do “Plano BRESSER” só poderia ser concedida pelo governo. O único item que poderia ser negociado pela empresa são os 100% de bonificação nas duas horas extras que excedem às 6 horas, para o pessoal de turno. JOSÉ JUAREZ deixou o ESCRITÓRIO CENTRAL (AC) e realizou duas assembleias. A primeira com os grevistas que se encontravam fora da USINA PRESIDENTE VARGAS (UPV) e estavam concentrados em frente à passagem superior, principal entrada da UPV, a segunda, no interior da UPV. Em ambas as assembleias foi votada a continuidade da greve e a proposta da CSN de pagar sessenta horas extras mensais para o pessoal de turno foi recusada.

A descrição do informante responsável pelo texto segue detalhando a verdadeira batalha que se seguiu à recusa em repor a URP:

“Aproximadamente às 19hl5min as tropas de choque da Polícia Militar e tropas do Exército chegaram com a finalidade de retirar os grevistas que se encontravam em frente a passagem superior e ao Escritório Central e foram recebidas a pedradas. Os grevistas reagiram enquanto puderam. Durante esta operação, foram lançadas diversas bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio. Em seguida, as tropas do Exército entraram na UPV e novamente foram recebidos com violência sendo obrigados a reagir com tiros e bombas. Um grande número de trabalhadores evadiu-se para a Aciaria e juntaram-se aos grevistas que ali encontravam-se. Durante o conflito foram queimados um reboque e uma caminhonete veraneio do Exército e três trabalhadores morreram.

Os grevistas que se encontravam no interior dos galpões da Aciaria e da corrida contínua resistiram durante muito tempo.”

Durante toda a noite o Exército permaneceu no interior da Usina em estado de alerta. Em frente ao Escritório Central, bem como em seu interior, também encontravam-se (SIC) tropas de choque e do Exército.”

A esta altura o informe é suspenso, para ser retomado no dia seguinte, 10/11, quando descreve a saída dos trabalhadores que ficaram detidos no interior da siderúrgica:

10 NOV – zero horas às 12 horas

“Hoje, dia 10 NOV 83, JOSÉ JUAREZ teve permissão de entrar na UPV para retirar os grevistas que ainda resistiram. Às 8hl0min, sob a liderança de JOSÉ JUAREZ, cerca de duas mil pessoas saíram da Usina seguindo o epigrafado. Esses trabalhadores foram recebidos com aplausos por um grupo de cerca de três mil pessoas que estavam do lado de fora da UPV na expectativa. Os dois grupos reuniram-se e JOSÉ JUAREZ realizou uma assembleia do lado do Escritório Central. Como o carro de som do Sindicato estava avariado, JOSÉ JUAREZ falava e o restante dos presentes repetiam em coro.

O trecho abaixo transcreve “o resumo do que foi dito na assembleia”, depois de constatadas as mortes de três operários:

“Atenção. A greve continua. Esta greve só vai terminar no que que nossas reivindicações forem atendidas. Atenção. O operário sabe a força que tem. Desmascarou o governo, a ditadura.

Atenção. Ontem, aquela polícia baixou o “pau” em crianças e senhoras. Uma verdadeira orgia aqui no centro da cidade. Atenção. Vimos companheiros nossos serem assassinados pelo Exército e pela Polícia. Agora não existe ninguém que faça essa Usina funcionar. Nós falamos com o Coronel do Exército que se aparecer algum equipamento quebrado é culpa do Exército e da Polícia Militar, que vieram aqui quebrar a Usina e o centro da cidade”.

Atenção. Vimos companheiros nossos serem assassinados pelo Exército e pela Polícia. Agora não existe ninguém que faça essa Usina funcionar. Nos falamos com o Coronel do

Exército que se aparecer algum equipamento quebrado é culpa do Exército e da Polícia Militar, que vieram aqui quebrar a Usina e o centro da cidade.

JOSÊ JUAREZ pediu um minuto de silêncio pelos “companheiros” mortos no interior da Usina e, em seguida, pediu a todos que se dirigissem e em passeata até a Praça Brasil localizada em frente à PREFEITURA MUNICIPAL DE VOLTA REDONDA/RJ. Os trabalhadores mantêm-se concentrados na referida praça. O Deputado Federal WLADIMIR PALMEIRAS discursou durante a assembleia apoiando os grevistas. Convém ressaltar que o prefeito da cidade de VOLTA REDONDA/RJ decretou três dias de luto em homenagem aos mortos no interior da UPV.” * * * DIFUSÃO A C / S N I.

A ASI trabalhou intensamente naqueles dias, na “arapongagem”, emitindo informes e telegramas, que resumiam o clima na cidade e dentro da CSN. Passada a invasão, no dia 11 de novembro, a CSN chamou os líderes do movimento grevista para uma conversa, visando negociar os impasses e a invasão que terminou com três operários mortos.

A companhia apresentou como proposta, de acordo com o relato do informante: o turno de seis horas a ser implantado em 90 dias. Enquanto isto, a CSN prometeu pagar uma bonificação de 90 horas sem a incorporação nos salários. Prometeu estudar, no prazo de 30 dias os casos dos demitidos por greve. Aos que tinham pego empréstimos à caixa beneficente dos empregados, com juros a 25% ao mês, a siderúrgica prometeu que seriam isentados dos juros e correção monetária. Os dias parados seriam compensados através de horas extras e para os punidos pela greve, prometeu o perdão, desde que não respondessem a inquéritos policiais.

A proposta foi levada à categoria, às 19h daquele dia 11, pelos líderes sindicalistas Joseh Juarez Antunes e Marcílio Felício. Ao final da assembleia, de acordo com a descrição do telegrama da ASI para a DSI, a categoria rejeitou as propostas e optou pela continuidade da greve, até a realização de uma assembleia marcada para o dia seguinte, às 9h.

No dia 13 de novembro, sob forte chuva a Praça Brasil, a principal de Volta Redonda, recebeu cerca de 30 mil pessoas para a missa em homenagem aos três operários mortos. A cerimônia foi celebrada pelo bispo, D. Waldyr Calheiros, com a presença de D. Mauro Morelli, bispo de Caxias; D. Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, D. Vital, bispo de Itaguaí e D. Amaury, bispo da cidade de Valença. Caravanas de todas as partes do estado levaram trabalhadores e políticos para a celebração. A cidade parou e foi decretado luto oficial.

Assista a um documentário sobre a greve:

Denise Assis

Denise Assis é jornalista e autora dos livros: "Propaganda e cinema a Serviço do Golpe" e "Imaculada". É colunista do blog O Cafezinho desde 2015.

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6 comentários

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Alan Cepile

13 de novembro de 2018 às 14h49

A direita, ao ler um artigo como esse, morre de dar risada, acha a esquerda um grupo de sonhadores, iludidos e fracotes, pois a preocupação deles com assuntos como este é simplesmente ZERO.

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    CAR-POA

    14 de novembro de 2018 às 11h40

    É justamente o que eles temem ,A ETERNA LEMBRANÇA DOS CRÍMES.
    Essa deveria ser uma data sempre lembrada ,para que os que não o viveram saibam da classe de fardados que temos neste país.
    Por causa da ignorância das maiorias ,é que eles estão de volta,os ASSASSINOS DO POVO BRASILEIRO.

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Nostradamus ( poltrona & livros )

13 de novembro de 2018 às 14h34

Obrigado ao blog por oportunizar mais instrumentos para rememorarmos a história. De lá para cá nunca cessou a ira contra os trabalhadores. De formas que o atual neofascismo ou neonazismo semelhante ao da primeira guerra mundial que reaparece no Brasil e no mundo apenas guardou o canhão e colocou o partido da justiça em ação. Alguns nem lembram mais ou sabem disso. Muito obrigado. É muito oportuno.

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Roberta

12 de novembro de 2018 às 11h38

Preciso de um serviço

Responder

    Joel do Nascimento Côrtes fiscal

    13 de novembro de 2018 às 12h06

    achar um serviço hoje é como achar uma agulha no palheiro

    Responder

      Joel do Nascimento Côrtes fiscal

      13 de novembro de 2018 às 12h11

      e, não é nem um emprego; é um serviço mesmo, onde o cidadão se sustentar e sustentar sua família com dignidade.

      Responder

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