Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

A perigosa maluquice ideológica de Bolsonaro

Por Pedro Breier

13 de novembro de 2018 : 15h12

(Na imagem, Bolsonaro presta continência à bandeira dos EUA)

Uma das definições de ideologia no dicionário Michaelis é: “maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.” Decorre daí que cada indivíduo, grupo ou etc., por ter sua própria maneira de pensar, tem sua ideologia.

Pois a direita brasileira passou, faz algum tempo, a usar o termo ideologia como palavrão. Os porta-vozes do conservadorismo costumam definir tudo que não se alinha ao seu modo de pensar como “ideológico”.

Esse truque argumentativo tem como pressuposto lógico a existência de indivíduos ou grupos que não possuem ideologia alguma.

Isso é, além de obviamente falso, extremamente autoritário.

Se somente os adversários são motivados por sua ideologia, enquanto o nosso lado atua apenas tecnicamente, a “verdade” – vinda sabe-se lá de onde – só pode estar ao nosso lado, o lado onde não há interesses ideológicos por trás das ideias e ações.

Parece uma estratégia um tanto quanto rudimentar, mas, nesse período de trevas, acaba funcionando.

O tal “Escola Sem Partido” é um belo exemplo do forte “viés ideológico” que anima as movimentações da direita. A pretexto de impedir uma delirante doutrinação esquerdista nas escolas, busca-se, na verdade, criar um clima de censura, dedurismo e medo em sala de aula, para que professores sintam-se intimidados e, assim submetam-se à ideologia (tcharam!) dominante.

A história de nomear apenas “técnicos” para os ministérios, tão propalada pela campanha de Bolsonaro, é outro exemplo. Sérgio Moro não é filiado a nenhum partido, mas é evidente que sua escolha é, além de uma indecorosa paga pelos serviços prestados à candidatura Bolsonaro, resultado do alinhamento ideológico de Moro com o projeto de extrema-direita que venceu as eleições. Punitivismo medieval, desprezo pelos direitos humanos, processo penal do inimigo e do espetáculo, além de uma patente ojeriza à esquerda, são todos elementos que unem, umbilical e ideologicamente, Moro a Bolsonaro.

É evidente, dessa forma, que não há indivíduo ou grupo que não tenha suas ações influenciadas pela própria ideologia.

É claro, contudo, que há casos em que a ideologia faz mais do que apenas influenciar as ações e acaba atropelando tudo que encontra pela frente. Inclusive a lógica e o bom senso.

O programa de Bolsonaro pode ser caracterizado, seguramente, como de extrema-direita, como comprova o alinhamento com a direita do partido de direita (perdoem a repetição, é para realçar) dos EUA, o republicano. É a ala de Donald Trump.

Pois Bolsonaro nem bem foi eleito e já conseguiu a proeza de provocar estragos nada desprezíveis na política externa, colocando a ideologia do seu grupo bem à frente dos interesses do país, como veremos.

Antes, analisemos brevemente a política externa dos governos do PT, acusada recorrentemente por Bolsonaro e seu nightmare team de ter “viés ideológico”. O presidente eleito falou, inclusive, que busca um chanceler “sem viés ideológico, nem de direita nem de esquerda”.

A política externa dos governos petistas foi marcada pelo multilateralismo: fortalecimento do Mercosul, aprofundamento das relações com países da África e Ásia, instituição do BRICS como mecanismo internacional. Tudo isso sem, de forma alguma, cortar relações com os EUA ou a União Europeia.

Tratou-se de um movimento bastante inteligente. A ideia de um mundo multilateral é, por óbvio, benéfica para todos que não sejam, atualmente, grandes potências, como é o nosso caso.

O BRICS, por exemplo, tem potencial para ser um bloco de países que faça frente ao poderio econômico dos EUA e da UE. O Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS, nasceu para ser uma audaciosa alternativa de financiamento para os países em desenvolvimento, considerando que quem domina o FMI e o Banco Mundial são os países já desenvolvidos.

O Brasil, fundador do bloco e um dos chamados “cinco grandes”, alçou-se a respeitável player do jogo da geopolítica mundial ao juntar forças com os demais países dos BRICS.

Não se trata, portanto, de “viés ideológico” esquerdista aqui: qualquer análise minimamente sensata concluirá, seguramente, que a política externa foi um dos acertos do período petista na presidência.

O governo Temer deu uma guinada nessa bem-sucedida estratégia, passando a alinhar-se caninamente aos EUA e a ser escanteado dentro dos BRICS.

Bolsonaro não precisou nem ser empossado para demonstrar que o vira-latismo clássico da direita na política externa alcançará, em seu governo, níveis astronômicos – além de potencialmente catastróficos para a economia do país. Senão, vejamos.

Paulo Guedes afirmou recentemente, a uma correspondente do jornal argentino Clarín, o seguinte:

O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar.

As reações à grosseria – travestida de sinceridade – proferida por Guedes não foram nada boas.

O presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Mercosul, deputado Francisco Assis, manifestou preocupação: “Há uma enorme incógnita sobre qual será o futuro do Mercosul e, portanto, sobre como ocorrerá essa relação de negociação com a União Europeia”. O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, em negociação há quase 20 anos e agora na reta final, corre riscos com a chegada de Bolsonaro ao poder.

Juan Pablo Lohlé, ex-embaixador da Argentina no Brasil, disse que as declarações geraram “preocupação e surpresa”.

A justificativa de Paulo Guedes para essa postura é tão furada quanto caricata: o Brasil teria ficado “prisioneiro de alianças ideológicas”. “Você só negocia com quem tiver inclinações bolivarianas. O Mercosul foi feito totalmente ideológico. É uma prisão cognitiva”, disse ele.

A argumentação de Guedes faz tanto sentido quanto a expressão “prisão cognitiva” nesse contexto. Ou seja, nenhum. O embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, foi didático ao comentar a celeuma:

O Brasil tem posição mais forte para negociar tratados de livre comércio, com EUA, UE e outros, a partir do Mercosul. Não é um bom negócio para um país como o Brasil negociar sozinho, sobretudo com a China, o Japão e EUA. Nunca terão pé de igualdade.O mesmo vale para a Alemanha, como membro da UE, ela se encontra em pé de igualdade com a China ou os EUA. Não faz sentido buscar algo de maneira solitária, mas sim unir-se.

Será que a equipe de Bolsonaro não percebe essa obviedade? Tudo indica que sim, percebe, pois é, perdoem a redundância, óbvio demais que, para negociar com gigantes econômicos, faz muito mais sentido unir-se a outros países e formar blocos, como faz a UE.

O que temos aqui é pura maluquice ideológica. Em nome de uma luta quixotesca contra moinhos de vento – comunismo, bolivarianismo, etc. – e do alinhamento com os malucos do partido republicano dos EUA, Bolsonaro aparentemente implodirá bons acordos comerciais alinhavados pelo Brasil.

Bolsonaro conseguiu também a proeza de irritar, com suas declarações e sua visita a Taiwan, a China, apenas o maior parceiro comercial do Brasil. Um editorial publicado no China Daily, jornal que é uma espécie de porta-voz do governo chinês, alertou: as críticas de Bolsonaro a Pequim “podem servir para algum objetivo político específico, mas o custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão da história”.

O plano de transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é outra patacoada bolsonarista com potencial explosivo. A questão é delicadíssima, envolvendo uma guerra religiosa histórica entre árabes e israelenses.

A absoluta maioria dos países mantêm suas embaixadas em Tel Aviv, ao menos até que se resolva a questão da divisão de Jerusalém entre judeus e palestinos. Apenas os EUA, sob Trump, seguido pela Guatemala, transferiram suas embaixadas para Jersualém.

Pois o tresloucado furor ideológico de Bolsonaro fez com que ele corresse a anunciar, poucos dias após sua vitória na eleição, que pretende transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. A vantagem dessa medida para o Brasil é exatamente nenhuma, a não ser agradar, de graça, Donald Trump.

O estrago, por sua vez, pode ser enorme.

Pouco tempo depois de Bolsonaro anunciar seu plano, o Egito cancelou uma visita oficial que faria o ministro das Relações Exteriores do Brasil. O cancelamento foi feito em cima da hora e sem sugestão de uma nova data, o que não é comum nas relações diplomáticas. Foi uma evidente retaliação às intenções de Bolsonaro.

O mercado árabe é o segundo maior mercado de exportação de alimentos do Brasil, sendo que nosso país acumulou um superávit de US$ 7,1 bilhões com as 22 nações da Liga Árabe em 2017. Tratou-se de 10% do superávit comercial total do Brasil, enquanto que com Israel foi registrado um déficit comercial de US$ 419 milhões.

Ou seja, a atitude de Bolsonaro não faz sentido algum, seja na área econômica, seja na diplomática. Trata-se, apenas, de maluquice ideológica com potencial explosivo para o país.

Não esqueçamos que todas essas lunáticas movimentações de Bolsonaro ocorreram antes do início do seu mandato. Se já provocaram consideráveis estragos nas nossas relações diplomáticas, imaginem o pontecial de dano a partir de 1° de janeiro de 2019, quando o presidente eleito assume de vez o comando do país.

Assustador, não?

É um padrão no comportamento humano apontar defeitos nos outros os quais o indivíduo carrega em si mesmo.

Bolsonaro e sua trupe extrapolam esse padrão para níveis inimagináveis, tanto na intensidade quanto na escala.

Enquanto gritam que vão acabar com o “viés ideológico”, ameaçam transformar o Brasil num pária econômico e diplomático ao colocar sua estúpida, cega e subserviente ideologia à frente dos interesses nacionais.

Pedro Breier

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

12 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

carlos

14 de novembro de 2018 às 16h28

Esse tal bolsonaro passa um verdadeiro atestado de ladrão e começa mal , quem nomeia um larapio como onyx lorenzoni réu confesso de roubo é porque não tem a minima credibilidade, imaginar que uma instituição seria como o exército marinha e aeronáutica, possam compactuar com esse estado corrupção , outro que tem de passar de julgador a julgado pelos crimes que tem cometido é Sergio moro, está provado que legislou em causa propria.

Responder

Praxedes

14 de novembro de 2018 às 09h24

O ódio é a cola maluca que agrega tanta gente em torno de Bolsonaro

O Prazer do Ódio, por Roberto Tardelli
O Jornal de todos Brasis

O Prazer do Ódio, por Roberto Tardelli
07:15

ATUALIZADO EM 13/11/2018 – 07:15

O Prazer do Ódio

por Roberto Tardelli

Em uma postagem que corre nas redes sociais, em excelente matéria feita pelo UOL, foram trazidas imagens de uma certa guarda rural indígena, uma das mais nefastas passagens do regime militar, que recrutou, sabe-se lá por qual critério, índios de diversas etnias, dando-lhes treinamento militar e a missão de enfrentar os outros índios que fossem sendo encontrados na abertura da Amazônia, feita por mega-obras, como Transamazônica, Perimetral Norte e outros delírios. As imagens são fortíssimas e chocantes, pelo que contém de naturalidade, pelo que contém de aceitação: no desfile de apresentação dessa tropa, para milhares de pessoas comuns, em Belo Horizonte, traziam os índios um outro índio, exibindo-o, pendurado em um pau de arara. Estão lá as imagens inacreditáveis e reais.

Quando Bolsonaro defendeu a tortura, desabridamente, ele o fez sem nenhum receio de perder apoios. Ele fez sem nenhum receio, repito; quando ele defendeu a pena de morte, estava seguro. Foi com orgulho que ele dedicou um seu voto, o mais importante voto de sua medíocre carreira parlamentar, a um torturador abjeto e infame. Dedicou a ele, como se antevisse que seu prestígio aumentaria, se o fizesse. Esteve nadando em águas tépidas quando afirmou que vai relativizar a legítima defesa e vai proteger o policial que mata “bandidos”. Manteve um apartamento funcional, pago pelo contribuinte, para, segundo ele mesmo, “comer gente”.

O erro da ditadura militar, disse em altos brados, foi ter apenas torturado e não assassinado os presos políticos. Acredita que a violência diminuirá, na medida em que todos cidadãos “de bem” pudessem andar armados e ter armas estocadas em suas casas.

Afirmou e jamais desmentiu que educou seus filhos para que não viessem a se casar com negras. A filha que possui, justificou-a como uma fraquejada e disse que não estupraria uma sua colega parlamentar porque ela é feia e por isso sequer mereceria o estupro. Ao referir-se a uma visita a um quilombo, mencionou ter visto quilombolas que sequer para reprodutor serviriam, uma vez que pesavam sete arrobas (unidade de medida destinada ao gado de corte).

Alguém que o fizesse, que dissesse as coisas horrorosas que ele disse ao longo dos anos, jamais poderia sonhar com qualquer cargo eletivo que fosse. Afinal, não conhecemos pessoa alguma que seja capaz de dizer ao filho que a tortura é um meio válido de castigo e que consideraria pendurar seu filho no pau de arara doméstico se ele reprovasse em química, por exemplo.

Todos os nossos amigos e conhecidos que votaram nele abominariam a idéia de estuprar quem quer que fosse, por qualquer motivo que fosse. Muitos possuem verdadeira aversão a armas de fogo. Conheço pessoas a que acompanho há mais de quarenta anos e que sei se tratar de gente pacata, civilizada e solidária.

São pessoas comuns, que incorporaram um ódio incomum e repetem mecanicamente tudo o que ele diz. São pessoas que pagam seus impostos e lutam bravamente para educar seus filhos, para se abrigar sob um teto e para garantir que não se passem necessidades primárias. Amam seus filhos e são, todos, honestíssimos.

O que ocorreu? Por que motivos pessoas que sempre tivemos em alta consideração aderissem, aos milhões, a esse discurso e passassem a compartilhar o ódio e passassem a justificar todas as opressões?

Freud, sempre ele, mata a charada: “Do nosso ponto de vista não é preciso atribuir muita importância ao aparecimento de novas características. Para nós bastaria dizer que, em meio a um grupo, o indivíduo é submetido a condições que lhe permitem desembaraçar das repressões impostas aos seus instintos inconscientes” (Psicologia de Grupo e Análise de egos), sendo certo que aqueles que se perdem nas massas não são homens primitivos mas, antes, homens que demonstram atitudes primitivas, opostas a seu comportamento racional normal.

Bolsonaro conseguiu, à maneira do discurso fascista, criar um maniqueísmo que foi irresistivelmente sedutor, em que as soluções parecem simples e mágicas e desenvolveu magnificamente a criação de um inimigo interno comum. A criação de um inimigo imediatamente forma um time, uma turma, uma massa, que opõe o nós contra eles, sendo que eles, muito mais do que adversários, se tornam inimigos que devem ser abatidos e/ou proscritos. Por isso, as ideias de tortura, aprisionamentos em massa, retirada de direitos, combate a direitos humanos, começam a fazer sentido, com um dado a mais: a liberação desse ódio acabou se revelando profundamente prazerosa.

Odiar um inimigo é licenciado pela moral maniqueísta do fascismo. Trump colocou os imigrantes – frágeis e pobres – na rota da criminalidade americana e Bolsonaro trouxe os bandidos e a necessidade de se ter uma arma para matá-los no centro de política pública de combate à violência.

A liberação do ódio, da pulsão de morte, nos torna ignóbeis e violentos. Faz de nós uma massa de assassinos e faz de qualquer possibilidade de pacificação uma afronta. Ao preconizar que os direitos são os da maioria, Bolsonaro acertou em cheio e revolveu o que havia de mais profundo e pronto para agir, nosso ódio. A minoria desafiadora há de se calar ou de ir embora. Movimentos sociais são células terroristas e quem diz isso são seus filhos (um dos motes do discurso fascista é o enaltecimento da família em potências de dez).

As forças policiais – nesse aspecto, muito mais efetivas do que as próprias Forças Armadas – serão o braço para garantia desse discurso e vão se dirigir aos bolsões de resistência da periferia. Uma religiosidade tacanha servirá para aplacar eventuais dramas de consciência, criando-se uma espécie de tropa de soldados, que colocariam a pátria acima de todos e Deus acima de tudo, um slogan patético, mas eficientíssimo.

A parte da sociedade que partirá para a depuração está formada e pronta para agir e é formada pelo nosso vizinho, nossos amigos, parentes, colegas de trabalho, gente comum, entorpecida pelo ódio, que jogaram para fora, que lançaram no ar. Podemos novamente ser machos, bravos, estúpidos, violentos, desde que sejamos honestos, do ponto de vista patrimonial, desde que sejamos escalados em nome do Pai Maior, Bolsonaro.

O prazer de ser cruel está livre e caminha pelas ruas. Ocorre que esse prazer, evidentemente sexualizado, irá cobrar seus tributos e as minorias eleitas, a comunidade LGBTI, os comunistas, seja lá o que for isso, os negros, os periféricos, enfim, estarão na alça de mira, literalmente.

Nesse quadro, que nos remete a 1937/1938, a pergunta que se há de fazer é qual será o papel exercido pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, na medida em que boa parte de seus integrantes adotaram o discurso bolsonariano, exatamente na concepção freudiana de pessoas indiscutivelmente honestas, perdidas e perplexas, dispostas a aceitarem o discurso maniqueísta como libertador.

No vídeo a que me referi no início desse texto, havia centenas ou milhares de pessoas, em um desfile macabro, em que índios aculturados se tornaram caçadores de outros índios e de povos da mata e nele há uma sensação aterrorizadora: a naturalização da violência, tudo se passando, sem que as pessoas se dessem conta de que o desfile era feito com alguém que estava em um pau de arara, como se isso fosse algo a exibir com orgulho à população. O que seria desvalor se tornou algo de se orgulhar. Havia autoridades, no tradicional palanque delas, e não se viu ninguém determinar prontamente para que aquela exibição horrorosa parasse ali. Não, seguiu-se o desfile dos índios convocados pelo exército e que traziam um outro índio, amarrado em um pau de arara.

Gilberto Gil disse que nos barracos da cidade, ninguém mais tem ilusão do Poder da autoridade. Morro de medo das autoridades dos palanques das autoridades. Esse é meu maior receio, uma vez que o Ministério Público, ao menos, na prática diária não se escandaliza com a superlotação carcerária e muitos de seus integrantes a negam, atribuindo-a a uma inércia de governantes que simplesmente deixaram de construir cadeias bastantes à demanda. Chego a pensar que existe um certo prazer em demonstrar inflexibilidade, em se demonstrar que qualquer que venha a ser a punição pelo crime, ela é em si mesma insuficiente e não me surpreenderia se a maioria fosse a favor da pena de morte.

Na visão freudiana, Bolsonaro conseguiu incorporar-se à figura de um grande pai, a ser temido e amado e ele liberou esse ódio, que tentávamos manter trancado porque sabemos todos de sua destrutividade. O ódio é um tsunami, que arrasta tudo e traz consigo uma enorme energia. De ódio se vive e o prazer que ele traz é de causar dependência.

Por isso, naturalizamos tão facilmente a violência, a miséria, a barbárie. Somente uma tragédia deterá esse ódio, uma tragédia tão grande que faça despertar as pessoas, que as faça ver que o ódio pode ser prazeroso, mas que destruirá o que estiver à nossa volta e exigirá energia muitas vezes maior para nossa reconstrução. Os alemães que o digam, até hoje recolhem os cacos históricos, com a enorme virtude de não terem se ocultado, se omitido e silenciado. Por enfrentar os erros históricos, eles tem menores chances de repetí-los.

Nossa atividade odienta nada construirá e nenhum motivo haverá para se ter o mais tênue otimismo, não se podendo transformar o futuro numa ola de estádio de futebol. O que temos à frente é o que de pior poderíamos ter: um governo regido pelo ódio.

Os que se arrependerem, que escrevam oportunamente as memórias desse arrependimento.

Roberto Tardelli é Advogado e Procurador de Justiça Aposentado.

Responder

vicente

14 de novembro de 2018 às 08h14

Muito bom o artigo. Traz estatísticas e dados confiáveis, coisa que o futuro governo acha desnecessário. Eles pensam que é só dar berros e intimidar as pessoas que tudo será resolvido. Mas, na prática, já viram que berrar com a China, com a Rússia e com o Oriente Médio só trouxe efeitos negativos. Aí deram uma maneirada. É o típico valentão de boteco, que grita com os outros, mas, quando encontra um mais forte, fica todo reverente, todo amigão. Triste país. Tomara que tenhamos força para brevemente superar esse pesadelo.

Responder

Tamosai

14 de novembro de 2018 às 05h52

Podem anotar: vai ser um festival de erros esse desgoverno dele. Vai superar até o do Temer. Para ofuscar os erros vai criar inimigos inexistentes, bodes expiatórios, forças do “mal”. Tudo para encobrir a incompetência dele.

Responder

    Nostra

    14 de novembro de 2018 às 17h22

    Exatamente!

    Responder

ORESTESS MAGA

13 de novembro de 2018 às 21h48

CERTO .. UM CAPITÃO AGULHA NEGRA PARAQUEDISTA É MENOS INTELIGENTE QUE O BANDIDO LUIZ INACIO QUARTA SERIE DA SILVA ??

FALA SERIO..
NA DITADURA PT MORREM QUASE HUM MILHÃO DE BRASILEIROS ???
HUUUMMM MILHAO DE BRASILEIROS MORRERAM NA DITADURA PT..
60 MILPOR ANO !!!… FORA OS INDIGENTES E CORPOS Q NUNCA APARECERAM ..

HUM MILHAO DE BRASILEIROS MORTOS..

O EXERCITO VOLTOU.
A ESQUERDA NAO TEM MORAL P NADA., NA VERDADE MERECIAM IR P CADEIA POR TEREM DILAPIDADO O PATRIMONIO PUBLICO INFLANDO MAQUINA PUBLICA.

A ESQUERDA NUNCA MAIS VOLTARÁ.
SABE POR Q ?? POR Q A DIREITA APRENDEU A ANIQUILA LA ..
ANULA LA .. A DIREITA APRENDEU Q COM BANDIDO SE AJE DIFERENTE..
E AGORA ENSINARAM MAIS UMA.. ESFAQUEAR POLITICOS ADVERSARIOS..

PAGARÃO..
AS UNIVERSIDADES ESCOLAS ORGAOS E REPARTIÇOES SERÃO TOTALMENTE DESMONTADA.
A BALAVAI COMER.

Responder

Paulo

13 de novembro de 2018 às 17h58

Não tenho o que acrescentar às palavras do colunista, no que toca à “política externa” do pré-Governo Bolsonaro: um desastre! Mas, por outro lado, qual a utilidade de um acordo “que se costura há 20 anos”? Será que já não está velho? Engraçadinha a UE, né, cozinhou o Mercosul em banho-maria essa vida toda e agora quer fechar acordo às vésperas da posse do novo Governo? Eu vi algo errado aí, e, com o Temerário no Governo, qualquer movimento é perigoso…

Responder

    Nostradamus ( poltrona & livros )

    13 de novembro de 2018 às 19h00

    O Temerário é unha e carne com o Bolsonaro. Este o mandará ara a Itália.

    Responder

      Paulo

      13 de novembro de 2018 às 20h12

      Quem vai pra Itália é o Battisti…

      Responder

        Carcará

        14 de novembro de 2018 às 08h26

        E vocês vão dar com os burros n´água bolsonarianos. Vão matar mosquito vão… olha o mosquitão corrupto que escolheram para a saúde! Olha o do gabinete civil que não vai chegar no Natal, corrupção para valer! Boçal, vocês estão perdidos.

        Responder

      Alan Cepile

      14 de novembro de 2018 às 10h58

      Como bem disse o Boulos, são 50 tons de Temer.
      SeLula era Haddad e Haddad era Lula, mais do que nunca Temer é bozo e bozo é Temer.

      Responder

Nostradamus ( poltrona & bacia )

13 de novembro de 2018 às 17h29

Ideologia que impregnou a Alemanha na Primeira Guerra Mundial e desencadeou a Segunda ! Nacionalismo ( no caso do nosso neonazista batendo continência a bandeira americana ). O antipetismo ( antissemitismo ) que precisa ser exterminado com os gestos de metralhadoras disparadas e com a elevação da Lava-jato ( Gestapo ) ao nível de Super Segurança ( SS – política de extermínio de opositores e judeus ). Economia de austeridade, de arrocho… perigosíssima! Propaganda direta com o povo através da rede de internet e dos sites citados pelo Bolsonaro + as TVs dos Estados Islâmicos Pentecostais da Prosperidade ! O Fürer pensa em governar sem o Congresso, pressionando-o por fora e por dentro, com ameaças de soltar os podres dos parlamentares. Informações do Brasil e da Cia.

Responder

Deixe uma resposta