Uma opinião sobre a série Trostky, da Netflix

NETFLIX ASSASSINA TROTSKY NOVAMENTE

Oito motivos para não perder tempo com oito episódios deturpados

Por Grijalbo Coutinho

Depois de receber recomendação em determinada lista de Whatssap, concentrei-me no final da noite do domingo, dia 16 de dezembro de 2018, para ver o primeiro episódio da série “Trotsky”, na Netflix, canal pago cada vez mais especialista em tornar personagens pequenos, medonhos, caricatos e laterais da atualidade, esses meros despachantes dos interesses do capital financeiro internacional, em heróis da corrompida moral burguesa, ao tempo no qual resgata líderes revolucionários comunistas do início do século XX na pele de terríveis assassinos ambiciosos por luxo, poder, privilégios e riqueza.

Embora se saiba que não há neutralidade ideológica quando o negócio da “arte” é voltado exclusivamente para o lucro e, principalmente, para a preservação dos seus interesses de classe, existem limites para zombar do público a partir de tantas atrocidades comprometidas exclusivamente com a deturpação histórica em nome da causa contrarrevolucionária.

Causa repulsa a grosseira deturpação histórica. É difícil encontrar algo sequer parecido em termos de escancarada inversão de fatos históricos. Nem Stálin durante seu auge persecutório, com “os Processos de Moscou” mais acesos a partir de meados dos anos 1930, seria capaz de produzir peça tão tosca e ridícula. Tirar o líder do Exército Vermelho das fotos da Revolução de 1917, como fez o “cozinheiro” Koba, é café pequeno frente à degeneração produzida a partir desse arremedo de arte, que poderia, em tese, ser salvo apenas pela riqueza da cenografia exibida. A única verdade relevante do filme parece ser o frio russo ali exposto com enorme pompa, temperaturas congeladas as quais assustaram, em momentos históricos anteriores e posteriores à Revolução de 1917, invasores franceses e alemães.

Como verdades fajutas demais, registre-se, a série da Netflix deixa as seguintes mensagens, em seu primeiro episódio:

1. Trotsky é produto de investidores capitalistas os quais pretendiam desestabilizar a velha Rússia, tendo ele topado assumir o papel de aventureiro que lhe fora sugerido por empresário ávido pelos bons e rentáveis negócios.

2. Lênin é descrito como outro farsante, pragmático, covarde, canastrão, cuja única preocupação era assumir o poder, sendo a revolução, portanto, um mero detalhe para os seus propósitos mais egoísticos. A classe operária, então, torna-se apenas joguete nas intenções confessadas dos dois maiores líderes da Revolução Russa. Dito de maneira direta, Trotsky é o assassino idealista amargurado, enquanto Lênin é o personagem frio, o sujeito calculista que almeja chegar ao poder a qualquer custo para a satisfação do seu exacerbado egoismo.

3. Na qualidade de julgador peremptório e assassino de indefesos soldados, inclusive na presença de companheiros e de crianças, Trotsky também quer chegar ao poder para praticar a sua vingança particular, acumular dezenas de luxuosos relógios, ter privilégios da casta burocrática, ser intolerante com a mais pálida crítica, embora estivesse sempre cercado de medo, insegurança e pesadelos. A inspiração para tanta maldade com o ser humano está em seu impiedoso carcereiro czarista.

4. De tão venal, depois de amargar anos de prisão na Sibéria, cercado de todo tipo de tortura, logo no início do século XX Trotsky foge para a França com a finalidade de vender o seu projeto de Revolução para quem der mais pela chance de sua viabilidade concreta, abandonando a primeira esposa e as crianças que clamam pela volta do pai desertor, do pai insensível, repugnante e nada humano.

5. A Revolução Russa é o resultado da trama perfeita de comunistas amargurados boêmios, ávidos pelo poder, inexistindo, assim, qualquer ligação de 1917 com o movimento operário e camponês, a fome, a miséria e o terror czarista, bem como o fracasso social-democrata da preservação capitalista empreendida poucos meses antes sob a liderança governamental de Kerensky.

6. Lênin e Trotsky foram impiedosos com os soldados russos em nome da manutenção da guerra imperialista travada desde 1914. Não, eles jamais abriram mão de fronteiras para preservar a paz interna e sair de uma guerra mundial essencialmente capitalista. Lênin e Trotsky deixaram morrer milhões no front de guerra e não o Czar Nicolau, além de fuzilarem os desertores.

7. A grande companheira de Trotsky, Natalia Sedova, surge na condição de mulher dada a envolvimento com homens ricos e poderosos. O interlocutor que os apresenta chega a dizer algo semelhante ao russo encantado com a beleza feminina da jovem compatriota: “não é para o seu bico”. Ela se movia, em seus relacionamentos, por outros interesses. Leia-se como quiser, tudo se aproximando, contudo, de evidente insinuação do exercício da prostituição. Natalia, depois de ignorar Trotsky, com cara de desprezo ou nojo, porque era ele um revolucionário largado em Paris, o aceita depois mesmo sem nenhum tipo de amor, consigo carregando, entretanto, uma certa repugnância para com o companheiro até o resto da vida do velho revolucionário no México. Para a película da Netflix, Natalia Sedova frequentava clube de revolucionários russos na França com a finalidade de fisgar os ricos e poderosos, sendo irrelevantes os seus escritos a respeito do marxismo cultural e a sua militância comunista. Trata-se de insulto à memória de Natalia Sedova, ao ser exposta como objeto, um insulto ao papel de destaque da alma destemida feminina nas grandes revoluções do mundo contemporâneo.

8. E para completar a relação de absurdos ou de falsificações, Frank Jackson, na verdade, Ramón Mercader, o assassino de Trotsky, é o herói leal, sincero, verdadeiro, um stalinista assumido que desafia do primeiro ao último dia o líder do Exército Vermelho, no México. É tão sincero a ponto de praticamente combinar com Trotsky o dia e horário que irá desferir a doída e terrível picareta sobre o cérebro de sua vítima. Os diálogos entre Trotsky e Ramon são risíveis porque ocorreram exatamente de modo oposto na vida real, mas exatamente com Mercader se declarando apaixonado simpatizante do trotskismo para ganhar simpatia do velho russo, ao exibir esboços de textos sistematicamente reprovados por Trotsky, que o tolerava em sua casa porque ali estava infiltrado o agente stalinista Ramón, na pele de Jackson, sob a condição de namorado de Sylvia, a secretária realmente de confiança de Léon. Nem Leonardo Padura, com o seu belo romance“O homem que amava os cachorros”, ao tentar humanizar o assassino espanhol stalinista, a partir do olhar psiquiátrico e psicológico de seus dramas familiares e pessoais, foi capaz de transformá-lo em mocinho como faz a Netflix, o mocinho que mata de maneira impiedosa o sujeito sem caráter, o mero revolucionário de ocasião.

Lamenta-se que alguém possa ver o seriado “Trotsky” exibido pela Netflix e a ele empreste o menor traço de credibilidade, porque apenas uma falsificação tosca e grosseira da vida revolucionária de Trotsky.

Gravado na Rússia e em russo, a película é declaradamente anticomunista, uma peça que não apenas distorce grosseiramente a história, como também insere os seus juízos morais de valor contrarrevolucionários, da primeira à última fala do ator intérprete de Trotsky.

Não deve ser descartada a hipótese de que parte do falseamento contido na película tenha sido retirada dos arquivos stalinistas. Quase tudo que se tem na Rússia sobre Trotsky, desde 1929 até os dias de hoje, em arquivos históricos bibliotecários, é fragmentado ou falseado, ou seja, são fragmentos falseados, fruto da guerra de comunicação de Stálin e dos stalinistas que o sucederam, contra os intitulados “traidores da Revolução”.

Trotsky cometeu seus erros, inúmeros, aliás. Nada porém que tenha a mais remota aproximação com o conteúdo da série ora exibida pela Netflix. Ele era o oposto do retrato político e pessoal ali apresentado.

Se o primeiro episódio é um terror, é possível imaginar como os outros sete potencializam a mentira, a desonra e o estupendo propósito de difamação da Revolução Russa e de seus dois maiores líderes.

Ninguém é obrigado a gostar ou odiar as revoluções sociais. Ninguém é obrigado vê-las, por outro lado, deturpadas de forma tão despudorada por projeto escancaradamente fraudulento de arte cênica.

A arte pode falsear a verdade em nome do sentimento anticomunista e contrarrevolucionário?

Digamos que a tela admite tudo e que é “proibido proibir” como sentimento anárquico das rebeliões artísticas, antes e depois de 1968 . Não será arte, contudo. Arte e Revolução, ao longo da história, têm andado juntas.

Para além da última constatação, a verdadeira arte, fiel às suas matizes mais genuínas, ironiza, dramatiza, ridiculariza e espetaculariza a realidade política; jamais falseia os fatos, muito menos falsifica a história de maneira torpe para impôr ao mundo a sua cultura excludente e etnocêntrica, como faz a série “Trotsky” ora em exibição na Netflix, nesse final de ano de 2018.

Sinteticamente, “Trotsky” da Netflix é o resumo dos tempos da ignorância, da má fé, do reacionarismo, do reinado do neoliberalismo e de suas crenças, no sentido de que o único modo de vida inteligente e viável é a sociedade capitalista do lucro e da miséria humana enaltecida.

Paro no episódio I. Vou utilizar o tempo cada vez mais escasso para reler, depois de mais de 30 anos do primeiro contato, a trilogia do fenomenal historiador polonês Isaac Deutscher, que descreve, sem paixões ou deturpações, com base em arquivos minunciosamente pesquisados fora da URSS, a saga de Leon Trotsky, em suas obras “O profeta armado”. “o ´profeta desarmado” e o “profeta exilado” ou o “profeta desterrado” para algumas traduções.
É a minha sucinta crítica contributiva para o debate.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.