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Análise: por que a classe média ainda sustenta o governo?

Por Redação

28 de junho de 2019 : 14h47

Segundo o Ibope, com base em pesquisa de campo feita entre os dias 20 e 23 de junho, 48% dos brasileiros não aprovam a maneira do presidente Bolsonaro governar, um aumento de 8 pontos sobre pesquisa feita em abril.

Mas 46% responderam que sim, que apoiam a maneira do presidente governar, queda de 5 pontos sobre abril.

Convertendo esses percentuais em população apta para votar, e considerando que, segundo os dados mais atualizados do TSE, temos 145 milhões de eleitores, podemos dizer que 67 milhões de brasileiros aprovam a maneira de Bolsonaro governar, mas 74,4 milhões não aprovam.

No total, Bolsonaro perdeu 7,2 milhões de apoiadores, e ganhou 11,6 milhões de críticos.

A vantagem para Bolsonaro é que a pirâmide social lhe favorece. Os brasileiros com renda familiar mais alta dão maior apoio ao governo do que os mais pobres.

Segundo o Ibope, entre os brasileiros com renda média familiar acima de 5 salários, ele tem apoio de 63% à sua maneira de governar, contra 34% que não apoiam. Esses 63% representam 9,5 milhões de brasileiros, com renda familiar acima de 5 salários, que apoiam Bolsonaro, contra outros 5,1 milhões, com a mesma renda, que não apoiam.

Entre brasileiros com renda entre 2 e 5 salários, o apoio a Bolsonaro é de 55%, contra 41% que não o apoiam. Esses brasileiros correspondem a uma população votante de 18,6 milhões que apoia Bolsonaro, contra 13,8 milhões que não apoiam.

Somando as duas categorias de renda mais altas, a que recebe mais de 5 salários e a que ganha entre 2 e 5 salários, temos um total de 49 milhões de eleitores, ou 33% do eleitorado total brasileiro.

Se considerarmos apenas os eleitores com renda acima de 5 salários, temos 15 milhões de pessoas, ou 10,3% do total dos eleitores.

Descendo a pirâmide, temos mais duas categorias de renda examinadas pela pesquisa. Entre os brasileiros com renda entre 1 e 2 salários, temos um eleitorado total de 44 milhões de eleitores; entre os que recebem até 1 salário, temos mais 42 milhões.

Junto a esse eleitorado mais pobre é que Bolsonaro está perdendo apoio.

No grupo que recebe de 1 a 2 salários, a situação de Bolsonaro ainda não é tão dramática: ele tem 44% de aprovação e 50% de desaprovação. Isso significa que temos 19 milhões de brasileiros que ganham renda familiar de 1 a 2 salários que aprovam a maneira do presidente governar e 22,8 milhões que não aprovam. Houve uma mudança profunda nesse grupo. Em abril, o presidente era apoiado, nessa faixa de renda, por 52%, e tinha apenas 39% de rejeição. Quase 5 milhões de brasileiros com renda média dentre 1 e 2 salários, que apoiavam o presidente em abril, mudaram de ideia e declararam que não mais aprovam a maneira dele governar o país.

No grupo situado na base da pirâmide, com renda familiar até 1 salário, a aprovação de Bolsonaro, que era de 45% em abril, caiu para 34% em junho, o que significa que 5,6 milhões de brasileiros muito pobres deixaram de apoiar o presidente.

Análise

Esse apoio ainda forte, e mesmo crescente, entre os grupos de renda mais alta precisa ser contextualizado.

Não seria sociologicamente correto, por exemplo, tratar 33% do eleitorado brasileiro, ou 49 milhões de eleitores, como uma “elite”. Para se ter uma ideia, Emmanuel Macro, o atual presidente da França, uma das maiores democracias do mundo, foi eleito com 20 milhões de votos.

Não é elite nenhuma.

Também é preciso afastar os exageros da interpretação de um Jessé de Souza, para quem a classe média brasileira é um caso perdido. Não acho que o conservadorismo da classe média nasce do ódio do “pobre no aeroporto”. Essa explicação é simplista demais. Sem entender adequadamente a cultura da classe média (coisa que Jessé ainda não conseguiu fazer, inclusive em seu último livro, a Classe Média no Espelho), não conseguiremos reconquistá-la, condição essencial para conter o avanço da direita política.

Apenas nessa “classe média” (famílias com renda acima de 2 salários), Bolsonaro tem 28 milhões de apoiadores, contra 19 milhões que não o apoiam.

Há ainda um perigo no ar, que é o aumento da polarização. Setores de maior renda, com mais acesso à informação e, portanto, com muito mais “armas” na luta política, vem ampliando seu apoio ao governo, contra a parte mais pobre, mais vulnerável, sem acesso pleno à internet, configurando uma batalha assimétrica.

O processo eleitoral de 2018 já demonstrou que essa dinâmica não é boa para as forças políticas dependentes do voto do mais pobre, porque este segmento não tem muita atuação nas redes sociais.

A continuar este cenário, a esquerda pode sofrer outra humilhante derrota em 2022.

Causas

A razão pela qual Bolsonaro ainda mantém apoio nessas camadas de renda média provavelmente permanece a mesma que garantiu a sua eleição: rejeição à esquerda e a seus valores, especialmente ao petismo e ao identitarismo e o desejo de mudança. A crise econômica ainda não é atribuída ao governo atual e sim à herança “maldita” de erros passados.

Solução

Não vejo outra saída a não ser acreditar e apostar na inteligência do povo, em especial de suas franjas mais instruídas, que formam a vanguarda intelectual da população. É preciso fazer campanhas de esclarecimento para desconstruir a rejeição à esquerda, mostrando que o mundo desenvolvido sempre adotou políticas públicas fortemente progressistas.

O tema da corrupção, fundamental para conquistar o apoio desses setores, precisa ser debatido com seriedade.

Não concordo com aqueles que acham que a esquerda deveria combater a direita populista com o seu próprio populismo de direita. Isso não dará certo aqui no Brasil, porque a nossa direita não é propriamente populista. Muito pelo contrário. A mensagem econômica de Bolsonaro é, em muitos sentidos, antipopulista, e se aproveita do cansaço do povo com promessas vazias.

Em relação à “união das esquerdas”, é preciso tomar cuidado, porque se a união se der em torno dos mesmos símbolos que são rejeitados pelas classes médias (que dão o “tom” da campanha e das ruas), isso vai levar o campo todo para o buraco.

A união poderia até ser interessante, mas somente após um movimento de renovação e autocrítica, com mudanças profundas na comunicação, no discurso e na postura (concomitantemente ao fortalecimento e resgate dos grandes ideais políticos), oferecendo ao eleitorado uma coisa realmente nova, embalada num projeto sólido, coerente, que inspire confiança no povo.


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17 comentários

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Liberal

01 de julho de 2019 às 03h42

Resposta facil pro titulo: medo do PT voltar. A classe media sentiu no lombo o peso de carregar um governo corrupto e socialista nas costas.

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    Jorge

    20 de outubro de 2020 às 12h09

    Disse tudo Liberal. Ninguém aguenta mais o populismo e incompetência. Pareciam carrapatos, moeram e destruiram o país inteiro. Onde tinha dedo, tinha estrago, tinha concluio. Sem contar a burrice dos seguidores. Em um certo departamento público, acompanhei um partidário ser removido de 3 funções de chefia que ele tinha ganhado devido a ficar distribuindo panfletos e adesivos, dando 10% do salário para o partido e dando bandeiradas em semáforos. Tiraram ele de tão incompetente e esconderam num canto, para parar de fazer asneira, além da incompetência, era arrogante e prepotente. E é ISSO que ninguém aguenta mais na esquerda… IMBECIS que querem mandar e não conseguem nem escrever o nome direito.

    Responder

Norma

29 de junho de 2019 às 16h45

O que ajudou Bolsonaro ganhar foi a farsa jato,a classe média já estava retada com a política das minorías,a crise que foi nesse último governo Dilma,a pesar que em outros governos tivemos crises piores e o povo não conseguiu tirar presidente do poder,a mídia 24 h falando mal do PT,os políticos já estavam há muito tempo tirar o PT do governo ,os empresários e o Supremo com Tudo.

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José Carlos de Oliveira

29 de junho de 2019 às 12h38

Sou seu apoiador assinante e gosto de suas análises independentes; mas desta vez foi muito superficial e crítico, não propriamente analítico.
Capriche mais e aprofunde mais.
Espero que entenda. Grande abraço.

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Tamosai

29 de junho de 2019 às 11h51

Mais uma boa análise.
A construção da imagem de corrupção da esquerda foi longa e começou lá atrás com o energúmeno do Joaquim Barbosa, na época do mensalão, alavancado pela mídia hegemônica. A desconstrução dessa imagem provavelmente vai demorar um pouco, mas vai ter a ajuda inestimável do Bozo, seus asseclas e do inacreditável Moro, que a cada semana mostra-se um farsante cada vez pior.

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    Tamosai

    29 de junho de 2019 às 12h18

    Só para acrescentar o seguinte:
    No momento a luta principal nem é a da esquerda x direita. Acho que no momento a luta é mais pelos valores da racionalidade, de uma mídia mais honesta e mais pluralista, menos influência da religião no estado e na política, e por mais democracia e mais humanismo. Pode parecer pouco, mas está fazendo falta no momento.

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Kall sant'ana

29 de junho de 2019 às 08h04

Esses sites de esquerda não aprende nunca . No ano passado começaram com essa ladainha de rejeição , perdia pro sardinha , Santo merendeiro , etc .
Foi eleito . Agora já começaram a fazer campanha . Que bom ! Vou dar uma dica , antes de escrever sobre o capitão coloquem , #BOLSONARO2022

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Alan C

28 de junho de 2019 às 15h21

Calma, ainda tem 3 anos e meio de derretimento…

Rejeição a governo Bolsonaro vai a 36%; aprovação é de 34%
https://www.poder360.com.br/pesquisas/rejeicao-a-governo-bolsonaro-vai-a-36-aprovacao-e-de-34/

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    Burro encantado por Lula

    28 de junho de 2019 às 16h39

    Calma militonto cumpanheiro . Ainda falta muito para Bolsonaro chegar aos 70% de rejeição que tinha nossa querida Anta Dilma Rousseff, antes de ser chutada do governo !

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CarlosH

28 de junho de 2019 às 15h18

Sempre considerei os trabalhos do Jessé de Souza, como uma passada de pano nas ações da classe média (vide o Radiografia onde já coloca no título “”manipulados'”), isentando-os de seus erros e os tratando como “”massa de manobra””. Agora, depois deste texto, além de redimir o autor (irei ver esse livro que o texto critica), a pagina aqui conseguiu superar na ideia de passar pano na classe media.
Porque o que texto propões não é um dialogo entre os grupos, mas sim uma tremenda subjugação a um grupo que não é tão confiável assim. É muita ilusão achar que a classe média seja na essência progressista. Isso o que foi proposto é literalmente anistiar todos os erros da classe média sem que haja uma “autocritica”, e fingindo que ele não erraram e ainda deixar eles darem as ordens. Não é assim que o dialogo funciona. Então, como eles não gostam de um simbolo, vamos excluir isso sumariamente? Vamos fazer isso com tudo que não os agrade (ex: se eles não gostarem de nacionalismo, algo que a pagina curte?)? Além disso não adianta cobrar autocritica da esquerda e depois passar pano pro erros da classe media, literalmente omitir os erros deles, como se não tivessem feito nada de mais. Isso só vai se repetir eternamente. Enquanto eles não forem criticados pelos erros de suas ações, só vai chover no molhado.
Mas pra uma pagina que já sugeriu anistia aos coxinhas, apagando todos os seus erros sem nenhuma critica, isso é café pequeno.

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    Redação

    28 de junho de 2019 às 15h39

    Classe média não é um “grupo”. São dezenas de milhões de pessoas. É massa também. Uma coisa é cobrar autocrítica de uma elite partidária. Outra de uma massa de gente repleta de contradições internas.

    Responder

Somos Todos Tontos

28 de junho de 2019 às 15h11

A classe média , apesar de ter crescido bastante , não é suficiente para sustentar Bolsonaro.
O PSDB sempre teve apoio da classe média e isso não foi suficiente para vencer o PT.
Bolsonaro venceu pois atraiu um eleitorado pobre também , que era de Lula apesar de ser conservador nos costumes.
Esse eleitorado vai voltar para a esquerda quando faltar comida na mesa.
Devemos buscar a classe média mas não é essa a prioridade.
E a nova pesquisa , do Paraná pesquisas , feita após o bolsococa , teve um resultado bem diferente.
E o Paraná pesquisas sempre costumava dar resultados mais favoráveis ao Bolsonaro do que Ibope e Datafolha.
É reconhecidamente um instituto pró-direita , quem não se lembra da pesquisa deles em que Aécio vencia Dilma por 20 pontos.
Esse fato pode ter afetado justamente esse eleitor pobre e conservador.

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    Ricardo

    28 de junho de 2019 às 15h32

    Vcs petistas nao podem ctiticar nenhum instituto de pesquisas…pq chega a ser vergonhoso o que aquele braco do pt vox populi faz!! 50 a 50 % dois dias antes da eleicao!! Dava ate do de ver comentarios no brasil 247 no dia q publicaram esse absurdo!! O parana psquisa acertou em qse tudo!! Enquanto vcs nao sairem da bolha e aprenderem sobre o adversario…vao continuar sendo derrotados e manipulados!!

    Responder

      Somos Todos Tontos

      28 de junho de 2019 às 17h28

      Não sou petista e concordo com suas críticas ao Vox Populi.
      Se confia no Paraná pesquisas saiba que eles deram que 51% dos brasileiros desaprovam Bolsonaro contra 43% que aprovam.
      Deu que Bolsonaro tem 40% de ruim ou péssimo e desaprovação de 48% no Sudeste.

      Responder

      Rodrigo Roal

      30 de junho de 2019 às 18h01

      Menos, Ricardo, não se esqueça de que o PT perdeu uma eleição na qual seu maior líder foi apeado da disputa por meio de uma fraude jurídica, depois de ganhar quatro eleições seguidas.

      Responder

Ricardo

28 de junho de 2019 às 15h05

Eu sempre entro pra ver noticias e comentarios no estadao ..jovem pan e outros de direita.O que mais eles falam e q tao de saco cheio do t e principalme te das pautas do pt e psol e pc db que miram muito as minorias e sempre se esquecem de quem mais paga impostos..clsses c e b!! Grande parte nao apoia bolsonaro mas algumas das pautas dele e da direita!!
Isso serve para o ciro entender e se comunicar melhor c esse eleitorado…outra coisa o mundo inteiro ta de saco cheio do politicamente correto e o bolsonaro e exatamente oposto disso!!
Antes q petistas me critiquem, tb leio brasil 247 dcm e cafezinho…nao sou escravo da informacao de nenhum canal em particular!! Leio tudo e tiro minhas proprias conclusoes! Claro q da esquerda o que mais confio e nas noticias do cafezinho!!

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    Fábio Lima

    28 de junho de 2019 às 16h55

    É isso aí Ricardo; sou conservador e sua análise é bem por aí. Acho o Miguel meio bobão….mas , depois das sucessivas porradas que a esquerda tem tomado , ele é o menos “Maria vai com as outras” da esgotosfera. Pelo menos procura entender o porquê da guinada do brasileiro em direção ao conservadorismo/Bolsonaro e não fica de mimimi tentando se auto-enganar.

    Responder

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