Canal Revolução Industrial entrevista Luis Felipe Giesteira

Em entrevista à Folha, Rui Costa prega moderação e parceria com setor privado

Por Redação

14 de dezembro de 2019 : 15h32

O governador da Bahia, Rui Costa, deu entrevista à Folha, em que preconizou a moderação e a parceria com o setor privado em áreas estratégicas, como saúde e saneamento.

Ele disse ainda que teria votado a favor do novo marco de saneamento, aprovado há poucos dias na Câmara dos Deputados, contra qual a oposição, inclusive seu partido, o PT, votou.

Na Folha

‘Lula precisa pregar a pacificação do país, e PT deve ajustar discurso’, diz Rui Costa

Para o governador da Bahia, radicalização é um mal, e petistas ainda erram ao condenar investimento privado na área social

14.dez.2019 às 2h00

Igor Gielow

No confronto com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), o PT precisa deixar a polarização e buscar pregar a pacificação do país, além de fazer um “ajuste fino” no seu discurso econômico.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ter papel preponderante nesse processo, retomando o papel de conciliador de setores da sociedade que viveu quando governou, de 2003 a 2010.

A opinião é de Rui Costa, governador petista da Bahia e principal nome da sigla com cargo eletivo hoje. Seu estado, governado pela quarta vez seguida pelo partido, é o quarto maior colégio eleitoral do Brasil e termômetro comportamental do populoso Nordeste —principal ilha regional de rejeição a Bolsonaro.

Costa, 56, reelegeu-se no primeiro turno de 2018 com 75,5% dos votos válidos, um recorde percentual e nominal. Afilhado político do ex-governador Jaques Wagner (PT), ele tem seu nome ventilado para compor chapa presidencial em 2022 —e não nega.

“Estou à disposição”, disse ele após participar do leilão no qual um grupo chinês disputou sozinho a concessão, por 35 anos, da ponte (ainda não construída) que ligará Salvador a Itaparica, nesta sexta (13), na Bolsa de São Paulo.

Costa é um crítico da posição econômica do PT em relação à “realidade brasileira”.

Disse que é preciso refinar o discurso, ao ser confrontado com a dicotomia de sua busca por recursos privados e a rejeição da bancada federal do partido ao marco legal do saneamento que facilita isso no setor, aprovado na Câmara.

Como o sr. avalia esse primeiro ano do governo Bolsonaro, com a popularidade do presidente estabilizada e sinalizações de melhoria na economia que, se não chegaram na ponta, estão no ar? Ele está ganhando o primeiro round? Eu acho que tivemos um ano muito difícil, porque se arranhou muito a imagem do Brasil internacionalmente, fruto de declarações desastrosas de vários componentes do governo federal. Isso dificulta a atração de investimentos não só pela União, mas pelos estados.

O país, seja o setor empresarial ou os governadores, teve de trabalhar para tentar reverter imagens negativas que se formavam sobre essas declarações, por exemplo, de desprezo pelo meio ambiente.

Muitos fundos e agências de fomento condicionam aportes à preservação ambiental. Poderíamos estar melhor. É evidente que estamos vindo de cinco anos de recessão, e os sinais de retomada não são claros porque em todo final de ano há um aquecimento.

Antes da soltura do Lula, o sr. havia dito que ele não deveria ser foco na discussão em alianças. Mas o discurso dele agora solto segue centrado na própria figura. Isso não pode cansar o eleitor? Acho natural que quem ficou preso um ano injustamente faça declarações duras. Mas o Lula governou o país durante oito anos como um conciliador. Essa concertação, com empresários, trabalhadores, sociedade, fez com que o governo dele fosse de maior desenvolvimento nos últimos séculos.

Esse modelo que eu defendo. Acho que ele, independentemente de qualquer questão eleitoral, vai voltar ao leito de ser um conciliador nacional.

Na mais recente pesquisa do Datafolha, a ministra Damares Alves (Família) foi a segunda mais bem avaliada. Ela representa muito o que é criticado à esquerda no governo, em termos de agenda. Está faltando ao PT, à esquerda, entender melhor o que aconteceu em 2018? Não só a esquerda, todos nós precisamos ter um diagnóstico mais preciso. Porque hoje há teses que sempre foram amplamente rejeitadas, sem adesão no Brasil, de preconceito contra minorias ou opção sexual, de racismo, violência, armamentismo. Por que essas teses têm aderência, mesmo que de 25% da população? Precisamos refletir, partidos, universidades, imprensa.

As pessoas não querem conversar mais. As pessoas estranham quando dois políticos adversários conversam. Torcida única em estádio virou lugar-comum, é um retrocesso gigantesco. Isso é um mal.

O sr. não acha que quando Lula aposta na radicalização do discurso contra Bolsonaro [o ex-presidente tem dado declarações pedindo o confronto com o governo federal desde que deixou a cadeia, em novembro] ele alimenta esse ciclo? Temos de ser diferentes deles. Temos de pregar a pacificação do país, cortar a discriminação e o ódio. Antes, as pessoas tinham vergonha de manifestar preconceito. Agora parece que têm orgulho.

Certamente essas pessoas existiam, mas ficavam no armário. Precisamos que elas voltem para seus armários.

Como o sr. vê a influência desse debate nacional no pleito municipal de 2020? Em 70% das cidades, esse componente é irrisório. Nas grandes cidades, vai ser um termômetro maior do bom ou do mau humor do eleitorado.

O sr., que já defendeu alianças e mesmo o apoio a Ciro Gomes (PDT) em 2018, acha que são essenciais em 2020? E para 2022, já que o sr. é visto como presidenciável? Não pode ser só pela aliança, para ganhar a eleição. Uma vez pactuadas as prioridades, eu defendo que o PT dialogue para receber apoio onde seus candidatos estiverem bem posicionados e eventualmente dê seu apoio onde não estiverem.

É essa construção cotidiana que poderá levar à construção de uma aliança maior para 2022. É difícil ter a posição de não se aliar agora e esperar aliança em 2022.

O sr. continua considerando ser candidato a presidente em 2022? Quero contribuir para o Brasil. Tenho quatro filhos, o que quero para eles quero para os dos outros. Eles não merecem crescer num país com essa intolerância, essa pobreza. Não quero esse país.

Sou filiado a um partido e estou à disposição para qualquer papel que me for designado. Posso ser candidato a qualquer coisa em 2022, como posso ser candidato a nada. Eleição não é uma obsessão. Vamos discutir, mas acho que o cenário ainda está longe. Estou desapegado. O nome mais forte do PT é Lula.

Hoje ele é inelegível. Verdade. Mas é inegável a força. Por tudo que ele fez, Lula desperta paixões. Toda vez que você desperta paixões positivas, também desperta paixões negativas [risos].

Essa é uma lição de 2018, não? A força do antipetismo. Lula sempre foi maior que o PT. Isso não é único dele. Várias lideranças do PT são maiores eleitoralmente do que o partido. Se o eleitor confia, pode fazer ressalva ao partido, mas vota. Se encaixarmos um discurso de desenvolvimento, inclusão social, união do Brasil e diálogo temos boas chances de um excelente desempenho.

O PT pode não ser cabeça de chapa em 2022? É prematuro para falar. Mas acho pouco provável não ter candidato. Candidatura você não impõe em nenhum nível, você constrói, lidera.

O sr. ainda vê um certo “paulicentrismo” no partido? O ex-prefeito paulistano Fernando Haddad foi sacado candidato em 2018 e está em bolsas de apostas. Não sei se passa por isso. Pela força e carisma do Lula, se ele tiver condição de ser candidato, será. Em outro caso, o partido terá de fazer um projeto de discussão. Há várias pessoas que podem liderar esse processo.

E a dicotomia econômica do discurso? Há dez anos, o sr. seria chamado de entreguista [por conceder a um grupo chinês a ponte que ligará Salvador a Itaparica]. Ontem mesmo [quinta, 12] a bancada de seu partido estava votando contra o marco legal do saneamento. Vocês no Executivo não conseguem influenciar no discurso do partido? Eu acho que de fato é preciso aproximar as posições gerais do partido de desafios concretos da economia e da sociedade, da realidade brasileira. É preciso um ajuste fino, um refinamento das nossas posições.

Quem é governador se pergunta: onde vamos buscar recursos para tirar o pobre de viver sem esgoto, em lugares alagados ou ficar sem água? O governo e os estados não têm como ofertar.

É evidente que precisamos usar o instrumento da parceria público-privada, do capital privado, para levar água e esgoto à população. Isso não significa que os interesses públicos estarão subordinados aos privados. Podemos ter agências reguladoras fortes. Não abrirei mão do controle da minha empresa de saneamento, mas vou abrir seu capital.

O sr. teria votado pelo projeto? Evidentemente. Participei da negociação para equilibrar a redação do texto, para criar uma fase de transição.

Do mesmo jeito na saúde. Eu tenho um hospital público de subúrbio, gerido por empresa privada, com 90% de aprovação. Eles fazem a gestão melhor do que nós. O que conta para a população ao fim? Ter um serviço de qualidade, boas instalações, volume de atendimento. O que diz que você está conectado com o povo mais pobre: é garantir esse serviço ou ficar com posições ideológicas fixas?

Não é preciso colocar isso de forma mais objetiva em campanhas eleitorais? A gente sempre colocou na Bahia, nas nossas campanhas. Hoje, o grande desafio é renda e emprego. Quando há renda alta, mesmo com o desemprego, há mais solidariedade intrafamiliar, as pessoas se ajudam. Agora, o nível de renda rebaixado, a situação é crítica.

Infraestrutura é uma saída? Sim. A remuneração dos projetos coloca eles de pé. É a forma mais rápida de gerar emprego. É um pontapé inicial. Qualquer país do mundo investiu nisso, em educação e ciência. Temos uma grande oportunidade. Ao mesmo tempo, temos um problema grave que é o desprezo do governo federal pela educação e pela ciência, pelas declarações de seus integrantes.

Quem está na ponta no mundo é quem investe nisso, é a bola da vez. Se o Brasil não tiver isso claramente colocado, vai ficar para trás.

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13 comentários

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Tiago

16 de dezembro de 2019 às 07h22

*galgou

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Ivan

16 de dezembro de 2019 às 07h17

O PT sempre falou fino com os empresários, o governador da Bahia está chovendo no molhado, está tudo dentro da normalidade do partido.

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Nelsonz

16 de dezembro de 2019 às 05h52

Mas não foi a parceria do PT com os grandes players do Brasil qcfou criminalizada pelas elites e acaba jato?!

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Wellington

15 de dezembro de 2019 às 13h06

Deve ser certamente um fascista esse tal de Rui Costa para querer uma coisa dessa.

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Marcos Videira

15 de dezembro de 2019 às 08h31

O governador do PT da Bahia continua com a mesma posição defendida em 2018. Neste momento explicita sua reprovação à polarização Lula-Bolsonaro. Por apresentar suas posições políticas, já foi duramente atacado pela burocracia do PT. De modo semelhante, o governador do PT do Ceará está sendo atacado de modo infame (alguém acredita que o governador do PT do Ceará é conivente com tortura de presos ?). A burocracia nacional do PT não admite opiniões contrárias.
Penso que uma Frente Democrática, sem o protagonismo hegemônico do PT, é a saída pra enfrentar o fascismo que a cada dia amplia seu domínio sobre as instituições.

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Paulo

14 de dezembro de 2019 às 22h07

O que de fato resultou, até aqui, dessas tais parcerias público-privadas? Só perguntando, sem ideologia…

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    putin

    15 de dezembro de 2019 às 11h48

    resultou que a bahia é toda um canteiro de obras. em salvador a segunda linha de metró foi feita em apenas 3 anos. em poucos anos em salvador 5 novos hospitais e 20 upas.
    e as contas do estado estao em ordem.
    rui costa nao reajustou os salarios dos professores universitarios (15.000 por mes na media) e sim os dos funcionarios de renda menor e acho certo.
    na bahia funciona a ppp e tambem a colaboraçao entre PT (estado) e DEM (prefeitura salvador).
    otimo rui costa!!!

    Responder

      Wellington

      15 de dezembro de 2019 às 13h16

      Situação fiscal dos estados

      Péssima:
      Minas Gerais
      Rio de Janeiro
      Rio Grande do Sul
      Rio Grande do Norte

      Muito fraca:
      Pernambuco
      Bahia
      Sergipe
      Distrito Federal
      Goiás
      Mato Grosso
      São Paulo
      Santa Catarina

      Fraca:
      Marinhão
      Piauí
      Mato Grosso do Sul
      Paraná
      Alagoas
      Média:
      Ceará
      Pará
      Roraima
      Acre

      Boa:
      Amazonas
      Rondônia
      Tocantins
      Paraíba
      Espirito Santo
      Muito boa:
      Amapá

      Tá indo bem a Bahia…

      Responder

      Wellington

      15 de dezembro de 2019 às 16h53

      As contas do Estado da Bahia estão em condições péssimas infelizmente, como da grande maioria dos estados, perde só para Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Minas.

      Responder

      Sebastião

      16 de dezembro de 2019 às 01h05

      Isso mesmo, Putin. Aliás, as PPP na Bahia foi iniciada com Rui como secretário de Wagner(o queridinho de Lula, que terão que engolir calados Marta Suplicy), quando governador. Ainda tem VLT, a ponte Salvador-Itaparica…

      Responder

      Tiago

      16 de dezembro de 2019 às 07h21

      Apenas esclarecendo que na Bahia não existe cooperação entre PT e DEM de lado a lado… E isso mantém a coerência do PT em períodos eleitorais, inclusive surpreendendo em pesquisas – mesmo com todo o aparato econômico e midiático que ACM faltou desde a Ditadura Militar.

      Responder

    Matheus

    16 de dezembro de 2019 às 16h28

    Depende. “Parceria” é um termo amplo, e tem uma variedade dessas.
    As chamadas “Organizações Sociais” ou “OS’s” tem sido utilizadas para terceirizar a gestão de escolas, hospitais, prisões etc, e em geral tem sido um antro de corrupção, pois não estão previstas na Constituição e sua utilização tem sido no sentido de administrar recursos públicos sem seguir as regras de controle e transparência do Direito Administrativo – trocando em miúdo, as O.S. usam dinheiro público para comprar sem licitação e contratar sem concurso. Notoriamente na saúde as O.S. resultaram em aumento dos custos e da mortalidade nos hospitais terceirizados.
    Nas prisões, as O.S. ficam com os presos de melhor comportamento, maior orçamento e prisões sem superlotação, enquanto os gestores públicos precisam gerir prisões superlotadas e explosivas com orçamentos menores. Nas escolas o sentido tem sido semelhante, com o agravante de que em muitos casos a “O.S.” não é uma empresa ou ONG, e sim a PM, que junto com a roubalheira institui a chibata, o moralismo de fachada e o abuso sexual e moral dos alunos.
    As concessões de rodovias e pontes, os célebres “pedágios”, tem sido igualmente um antro de corrupção e cobranças abusivas.
    As parcerias de saneamento básico não tem nada de promissores, como mostra uma reportagem do Intercept Brasil. Caso clássico de socialização de custos/riscos/prejuízos e privatização do lucro. O “experimento” de Tocantins é escandaloso.
    Já o regime de partilha na exploração de petróleo foi um acerto de Lula/Dilma, e por isso tem sido sabotado por tucanos, Temer e Bozo. Acredito que na exploração de recursos do subsolo deveria ser “o” modelo geral: uma empresa pública em parceria com empresas privadas/estrangeiras em projetos específicos.
    Na pesquisa científica e inovação tecnológica, há excelentes parcerias entre universidades/institutos e empresas, mas as empresas que mais e melhor investem nas parcerias com as universidades são as empresas públicas e mistas.
    Na área de cultura as parcerias pontuais para realização de projetos específicos tem resultados mistos, algumas são ótimas, outras um fracasso.

    Responder

      Paulo

      18 de dezembro de 2019 às 22h39

      Ou seja, a proposta das ppp’s não se paga, de um modo geral. Mas obrigado pelos esclarecimentos de forma aparentemente isenta…

      Responder

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