Live do Cafezinho (18 h): Pós-verdade na política brasileira (uma conversa com Fabio Palacio)

Governo liquidou nossa empresa de semicondutores

Por Redação

01 de julho de 2020 : 16h24

Do site do Paulo Gala.

*escrito com um especialista que preferiu não ter seu nome divulgado

O governo brasileiro liquidou nossa empresa de semicondutores, os governos de China, Coreia e Taiwan seguem fortalecendo as deles!

Segundo o Secretário Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia, Salim Mattar, a empresa deu prejuízo de R$ 12 milhões em 2019 e, desde que foi criada em 2008, o governo teria investido R$ 907 milhões, sem retorno.

O setor de semicondutores é considerado estratégico em todo o mundo. Chips formam a base de praticamente todas as tecnologias cruciais do futuro, como inteligência artificial, robótica, carros autônomos e internet das coisas.

Está no centro da guerra tecnológica entre as duas maiores potências do mundo, China e Estados Unidos. Para atrasar e até bloquear o avanço da Huawei na tecnologia 5G, os EUA restringiram o acesso da empresa a insumos que contenham tecnologia americana.

O maior gargalo? Semicondutores. A TSMC, empresa taiwanesa que se tornou referência na fabricação de chips, é cobiçada pelos dois países. Na China, fala-se inclusive em invadir Taiwan para assegurar o fornecimento regular dos chips. Trump, por outro lado, aproveitando-se da rivalidade entre Taiwan e China, pressionou a TSMC para que ela construísse uma planta de chips no Arizona.

Produções do setor de pesquisa e desenvolvimento por tipo, onde semicondutores têm os mais altos índices. Fonte: McKinsey and Co.

O problema é que produzir semicondutores é muito difícil. A curva de aprendizado é longa. O setor é um dos mais intensivos em pesquisa e desenvolvimento e o montante de investimento requerido, sem retorno garantido, é muito elevado.

Nesse sentido, as pioneiras levam muita vantagem sobre as retardatárias. Pioneiras que, como Intel, Samsung e TSMC, beneficiaram-se enormemente do Estado, seja por meio de compras governamentais (especialmente a Intel, em decorrência da demanda dos complexos aeroespacial e militar americanos), seja pela concessão de empréstimos subsidiados (com destaque para a Samsung), seja pelo investimento público em pesquisa e desenvolvimento (TSMC é um spin-off do Industrial Technology Research Institute de Taiwan).

O quadro abaixo mostra como é difícil para empresas retardatárias reduzirem a distância em relação às pioneiras. Neste setor, quanto menor for o tamanho do nódulo, mais avançado ele é tecnologicamente.

Empresas por “tamanho do nódulo” do semicondutor. Observa-se no quadro que os da Intel, TSMC, Samsung são os menores do levantamento. Fonte: OCDE.

As duas últimas são empresas chinesas, estatais, mais antigas do que a brasileira CEITEC e que receberam investimentos muito maiores, mas que mesmo assim continuam atrasadas tecnologicamente em relação às líderes do setor.

Tipos de apoio governamental total para as empresas estudadas, contabilizado em mais de 50 bilhões de dólares no período de 2014-18. Fonte: OCDE.

Pelo menos desde 2011, com a Circular Nº 4 do Conselho de Estado (Several Policies for Further Encouraging the Development of the Software Industry and Integrated Circuit Industry), o setor é considerado estratégico para o futuro do país.

Em 2014 foi criado o China Integrated Circuit Industry Investment Fund Co., Ltd, com recursos da ordem de US$ 23 bilhões. O Plano Made in China 2025 estabeleceu como objetivo atingir 40% de autossuficiência em chips até 2020 e 70% até 2025. A real magnitude do apoio governamental chinês ao setor de semicondutores é difícil de mensurar, pois envolve uma série de instrumentos e não se caracteriza por ser transparente. Mesmo assim, a OCDE calculou estimativas para 21 empresas.  

Segundo a OCDE, todas as empresas de semicondutores analisadas receberam apoio governamental entre 2014 e 2018.

A chinesa Tsinghua foi a que mais recebeu, seguida da Samsung, da Intel e da TSMC.

Em relação à receita de cada uma, destacam-se as chinesas. SMIC e Tsinghua, por exemplo, receberam suporte equivalente a mais de 30% da sua receita no período. Hua Hong e JCET vieram na sequência. Aportes de capital do governo chinês de 2014 a 2018 aumentaram significativamente os ativos das empresas do país. Porém, as respectivas margens de lucro continuaram muito menores do que as das demais empresas da amostra, apesar do forte apoio governamental.

Segundo a OCDE, empresas chinesas se destacam entre aquelas que não conseguem gerar lucro suficiente para cobrir o custo do capital. Ademais, à esta altura já está claro que os objetivos do “Made in China” não serão atingidos.

Tais resultados abalaram a confiança dos chineses? Fizeram com que eles desistissem de desenvolver semicondutores? Os chineses liquidaram suas estatais porque “oneram o cidadão”? De forma nenhuma. No ano passado, a China criou um novo fundo, agora com US$ 29 bilhões (maior do que o de 2014), para o país ficar menos dependente dos EUA em semicondutores. No auge do rigoroso lockdown imposto sobre Wuhan devido ao COVID-19, a empresa Yangtze Memory Technologies, produtora de chips de memória, tinha vagões de trem reservados para funcionários da empresa e supervisionados pelo governo para poder continuar funcionando, enquanto o resto da cidade estava parado. Somente no mês passado, o governo chinês injetou US$ 2,2 bilhões na SMIC, muito mais do que a CEITEC recebeu do governo brasileiro em toda a sua existência.

O domínio desta tecnologia é considerado crucial ao desenvolvimento chinês. A elite do país considera que não há outra opção.

“Vermelho” indica períodos em que os rendimentos foram abaixo da média de mercado, sob os parâmetros da estimativa média do relatório. Fonte: OCDE.

Por mais custoso e frustrante que possa ser o desenvolvimento deste setor na China, não há outro caminho possível para o país se tornar uma potência. Tem país que tem ambição de se desenvolver. Outros se contentam em vender soja e minério de ferro e continuar sendo colônia para sempre.

O que é um semicondutor?
Relatório da OCDE.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

6 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

TONY SAAD

02 de julho de 2020 às 12h31

😷 Todos sabem que eu sou um árduo defensor da indústria brasileira, mas acredito, que neste caso, o giverno agiu corretamente. Me explico, toda nova tecnologia tem uma janela de oportunidade, uma época na qual o mundo inteiro está pesquisando sobre um determinado tema, como agora as vacinas, veículos elétricos e H2, ou, como no caso específico do artigo, hoje se pesquisam semicondutores baseados em luz. Criar uma empresa, para desenvolver tecnologias já consolidadas e players gigantes já estabelecidos é queimar dinheiro.

Dependendo da Ética de cada país, podemos citar o caso da indústria de semicondutores chinesa, que começou bem atrasada, mas começou copiando pura e simplesmente os chips americanos. Esta observação não é leviana, para quem acompanha há alguns anos atrás, investigando-se um chip processador chinês, equivalente a um Intel, descobriu-se na máscara microscópica do chip os dizeres “Bill Sux”, uma brincadeira da equipe de desenvolvimento da Intel satirizando a Microsoft, pois eles estavam certos que nunca ninguém veria isto, mas foi encontrado no chip chinês e veio a público.

O artigo está correto ao afirmar que a indústria de semicondutores é estratégica e que é Capital Intensive, mas precisa ser corretamente posicionada e direcionada à realidade atual, sob pena de se tornar outro Elefante Branco!!

Tony Saad

Responder

Paul Atreides

02 de julho de 2020 às 07h42

Que pena. Uma andorinha só não faz verão;

Responder

Paulo

01 de julho de 2020 às 19h56

O que é lamentável é que os militares sempre tiveram fama de nacionalistas e desenvolvimentistas…Hoje, renegam seu passado e entregam o país de bandeja. “Y love you, Trump”! Fico pensando o que o Trumpete pensou dessa cachorrice…

Responder

    euclides de oliveira pinto neto

    03 de julho de 2020 às 15h12

    O Trumpete deve ter ficado com vontade de chutar a bunda do vira-latas que fêz tal declaração… coisa de vassalo escroto, sem amor-próprio…

    Responder

Ulisses

01 de julho de 2020 às 17h54

Total subserviencia aos interesses do norte, destruição de nossa industria para sufocar nosso crescimento, evidente , em todos os sentidos . Governos progressistas sendo derrubados, enfim um momento de quebra total para o Brasil, que talvez demoremos muito para recuperar se nosso povo reagir com consciencia , independente dos ensandecidos .

Responder

Deixe uma resposta