Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

Foto: Ricardo Stuckert

Consequências de um Lula realmente livre

Por Pedro Breier

09 de março de 2021 : 23h23

Se alguém dissesse no dia 18 de março de 2016, quando o ministro do STF Gilmar Mendes suspendeu a posse de Lula como ministro do governo de Dilma Rousseff, selando assim o destino do ex-presidente de ser julgado por Sergio Moro, se alguém dissesse naquele dia que, quase exatos 5 anos depois, neste 9 de março de 2021, Gilmar Mendes proferiria um voto histórico a favor da suspeição de Moro, destroçando o ex-juiz por sua flagrante parcialidade para julgar Lula, essa pessoa seria considerada uma péssima analista de conjuntura.

Pois, quase 5 anos depois, foi exatamente isso que aconteceu.

Os argumentos de Gilmar Mendes, ou os que o ministro Edson Fachin usou para anular todos – todos! – os processos da Lava Jato que condenaram Lula, não são novos. Os blogs que eram chamados de blogs sujos, dentre eles este Cafezinho, batiam nessas teclas como um pianista em surto. Eram flagrantes as ilegalidades e as medidas de exceção cometidas por Moro e seus parceiros do Ministério Público. Contudo, o conluio da mídia então hegemônica com os integrantes da Lava Jato e outros atores do sistema de justiça fabricou um consenso nacional segundo o qual Moro era o herói e Lula o bandido. No embalo da Lava Jato o PT foi apeado do poder sob argumentos ridículos e Lula foi preso. E na prisão permaneceu por 580 dias.

E este é um primeiro ponto: o tempo que Lula e outros tantos acusados passaram na cadeia por conta da sanha persecutória totalitária de Sergio Moro, Dallagnol e cia. é irreparável. É impossível restituí-lo. Por isso as garantias constitucionais, como a da prisão somente após o trânsito em julgado. Quem quer tratorar as garantias não é um herói do combate à corrupção, mas um agente medieval que não tem lugar em um país civilizado.

O fato de o Judiciário reconhecer o óbvio mais de 5 anos depois do início da persecução penal, depois de um golpe, da eleição de um fascista, da prisão sem provas de um ex-presidente da República, só pode significar uma coisa, como reconheceu o próprio ministro Gilmar Mendes: é presciso uma reforma profunda do sistema de persecução penal. Juiz não pode ser investigador. Juiz não pode ser parceiro da acusação. “Não se combate o crime cometendo crimes”, como disse Gilmar. O projeto messiânico da Lava Jato de “moralizar” (ou morolizar) a política com mudanças legais draconianas tem que sair pela culatra: precisamos aprofundar as garantias legais contra os abusos e arbitrariedades que o aparelho repressor estatal pode infligir aos cidadãos.

Os governos petistas, aliás, deram uma colaboração generosa para o golpe contra Dilma e a perseguição judicial aos quadros do próprio PT, com a aprovação de leis que ampliaram os poderes repressivos do Ministério Público e da polícia. Com seus direitos políticos restabelecidos e candidatíssimo à presidência em 2022, Lula precisa fazer, sim, a famigerada autocrítica para que possa identificar os erros passados e, assim, apresentar um projeto avançado para a área jurídica.

Assim como para tantas outras áreas, como a da comunicação. Os grandes veículos – Globo, Folha, Estadão, Veja etc. – foram os principais atores, os verdadeiros responsáveis pelo apoio massivo que a Lava Jato angariou. Lula e Dilma jamais fizeram o debate sobre a democratização dos meios de comunicação e o país paga até hoje um preço altíssimo. Só que agora o campo da comunicação está em outro patamar, com os algoritmos das Big Techs estrangeiras como Facebook e Google influenciando de forma brutal o processo democrático. Um eventual novo governo progressista precisa se armar para a guerra contra as novas e velhas potências da comunicação se não quisermos viver novos golpes pela frente.

Faço essas breves análises de passados e possíveis futuros governos petistas porque é inegável que Lula se torna, com a anulação de suas condenações, o grande antagonista de Bolsonaro. Todas as pesquisas que incluem seu nome já indicam que ele vai para o segundo turno contra o atual presidente e a esta altura arrisco dizer que, caso este cenário se confirme, Lula é favorito: o contraste entre as memórias dos tempos de crescimento econômico e melhora nas condições de vida com a realidade atual de morte e destruição será, me parece, decisivo.

As coisas se complicaram para Bolsonaro. Enfrentar Haddad é uma coisa: caso fosse para o segundo turno, seria basicamente um replay do antipetismo x antibolsonarismo de 2018, com resultado imprevisível. Já Lula, apesar de ainda ter o antipetismo como um obstáculo considerável, tem luz própria e ativos eleitorais pesados, como seu carisma e seus governos muito bem avaliados.

As coisas também ficaram complicadas para os candidatos da direita tradicional – que, fora o rei das platitutes Luciano Huck, já andavam claudicantes. E também para Ciro Gomes. A disputa do pedetista com Fernando Haddad pela vaga no segundo turno prometia ser bem mais acirrada que em 2018, e Ciro tinha chances reais de furar seu teto de votos e ir para a disputa com Bolsonaro (na qual também seria favorito). Não que não tenha mais chances, mas a entrada de Lula no páreo é definitivamente um baque para a campanha de Ciro.

Contudo, o pedetista tem sido nos últimos anos (ou décadas) uma voz muito mais incisiva do que a do petismo contra o mercado financeiro, a especulação, as injustiças tributárias, o modelo econômico ortodoxo e a desindustrialização do país. É claro que estar no governo é mais complexo do que estar na oposição, mas Lula tem orgulho de dizer que “os bancos nunca ganharam tanto quanto nos seus governos”. É evidente a diferença de projetos e de disposição para o enfrentamento entre Lula e Ciro; só que o tipo de conciliação ilusória do qual Lula tem orgulho, com os bancos, os especuladores, os empresários e os trabalhadores todos vivendo felizes e abraçados, não tem mais lugar em um país conflagrado e brutalmente desigual como o nosso.

É preciso um projeto de país mais ousado e disposição para fazer os duros enfrentamentos que serão necessários para colocá-lo em prática.

Lula teve uma oportunidade de ouro para fazer reformas estruturantes no país, com tempos de bonança econômica e uma popularidade só comparável a de Getúlio Vargas, mas, apesar dos tantos avanços, as desperdiçou. A história, que em tempos de alta conectividade parece ter acelerado suas reviravoltas apoteóticas, pode lhe dar mais uma chance. A lembrança dos seus governos, a história pessoal de Lula e a mística em torno da sua jornada de redenção – retirante, metalúrgico, presidente, preso, libertado – o tornam um candidato forte, fortíssimo. Ainda mais quando seu antagonista é um psicopata que está cometendo um assassinato em massa da população que o elegeu.

Virou clichê, mas é impossível não pensar na série House of Cards ao observar o turbilhão estonteante de acontecimentos brutalmente caóticos que se tornou a política brasileira. House of Cards é ótimo, mas o roteirista da novela política brasileira está em outro nível. Que ao menos os filmes sobre esse período insano sejam feitos pelo nosso cinema nacional.

E viva a liberdade política de Luiz Inácio Lula da Silva.


Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

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24 comentários

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ricardo leyraud

10 de março de 2021 às 13h43

Estou aguardando postagem do meu comentário.

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AcAguiar

10 de março de 2021 às 11h08

Tenho muita vergonha do STF do Brasil. Tornando o crime lucrativo ao liberar traficantes, pedófilos, etc, e o ex-presidente (condenado unanimemente por outros tribunais). Não estou nem julgando o saber jurídico dos integrantes desse tribunal, que é incompatível com o cargo estou referindo a atuação política dos seus membros, beijando a mão do ex presidiário que os colocou lá.

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    Brown

    10 de março de 2021 às 11h49

    Malditos hackers, né?

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Geraldo Magela Melo

10 de março de 2021 às 10h51

Deve-se ressaltar:
1) a justiça no Brasil, morosa e inócua, tem os olhos vendados para não enxergar o povo.
Contudo, para os os poderosos, é célere e opera em regime de plantão, mesmo na pandemia;
2) deverá sobrar para o povo o prejuízo de indenizar o Lula, o impune, pelos dias de prisão,
e a devolução aos demais componentes do bando da fortuna indevidamente recuperada pela Lava jato;
3) outrora anônimos e desconhecidos, a “junta dos 11” é quem comanda o Brasil atualmente;
4) em 2022, há o risco de voltarmos ao clube dos “cumpades” da Argentina e da Venezuela.

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    Laércio Lemos Guimarães

    10 de março de 2021 às 11h36

    Lula não é diferente. Os grandes líderes que fizeram a diferença na história da humanidade foram odiados, Jesus, Ghandi, Mandela, e vários outros. Apesar de estarmos no século 21 ainda não evoluímos do ponto de vista moral. Conseguimos avanços incríveis na ciência e na tecnologia, mas não conseguimos amar uns aos outros como Jesus ensinou, será que a vinda Dele aqui foi em vão?

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    Jose de Anchieta Delgado

    10 de março de 2021 às 12h10

    Hoje já nos igualamos a Venezuela, a diferença é que há alguns que gostam, mas das suas canetas sai a condenação

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      Nelson

      10 de março de 2021 às 14h18

      Os venezuelanos seguem lutando, bravamente, pelo caminho pelo qual decidiram trilhar quando elegeram Hugo Chávez presidente em dezembro de 1998. Um caminho altivo, soberano, autônomo e independente. Todo povo deveria ter resguardado o seu direito a trilhar um caminho assim.

      O projeto imposto ao Brasil com o golpe de 2016, que tem sequência com o desgoverno de Bolsonaro, é o de tornar nosso país uma mera colônia das megacorporações capitalistas mundiais e capacho dos Estados Unidos.

      Eu, prefiro o escolhido pelos venezuelanos. Já tu, meu chapa, ao que parece, preferes o papel de capacho do Império. É isto?

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    Nelson

    10 de março de 2021 às 13h15

    “deverá sobrar para o povo o prejuízo de indenizar o Lula, o impune, pelos dias de prisão”

    Disso eu já falava há cinco anos, quando Moro, Dallagnol e a LJ conspurcavam a seu bel prazer a Constituição Federal. Que tal se repassássemos essa conta para eles e os juízes que condenaram Lula sem provas?

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    Nelson

    10 de março de 2021 às 14h38

    Por quase 600 dias, o “Barbudo” ficou preso, fruto de uma condenação sem provas, e tu ainda tens coragem de chamá-lo de “impune”?

    Lula foi condenado e linchado moralmente por 11 entre 10 órgãos da mídia hegemônica, mesmo que soubessem que não havia provas, mesmo que todos eles estivessem sabendo das inúmeras vezes em que os doutos julgadores pisaram na Constituição para concretizarem seu desejo de verem o “Barbudo” atrás das grades. E você vem dizer que ele é “o impune”.

    Lula foi condenado e linchado moralmente por quase todos os comentaristas dessa mídia, que costumam posar de defensores ardentes da democracia e dos direitos humanos, ainda que também soubessem que não havia provas para tanto e que os condutores da Lava Jato estavam patrolando a Constituição. E você quer nos convencer de que ele é “o impune”.

    Meu caro. Para evitar de aparecer por aqui a “dar bola fora”, a fazer fiasco, sugiro que faças duas coisas:
    1 – Abstraia-te, prescinda desse ódio visceral que tens do Lula.
    2 – Deixes de lado a mídia hegemônica e seus comentaristas e também as fakes news da direita e busque informações confiáveis em outros meios. Tu verás o quanto foste enganado por gente que não tem compromisso algum contigo e com o país; gente que tem compromisso apenas com o grande capital, com o topo da pirâmide.

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SINVAL FERREIRA LIMA

10 de março de 2021 às 10h50

Acho que tem um erro de digitação no primeiro parágrafo. Creio que o correto seria “flagrante parcialidade”, ou então não forma sentido com o contexto.
É isso mesmo? Acho que ninguém percebeu esse detalhezinho.

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    Pedro Breier

    10 de março de 2021 às 15h31

    Corrigido Sinval, valeu!

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Nilo Queiroz

10 de março de 2021 às 10h04

“Os frequentes indultos anunciam que em breve os crimes não terão mais necessidade deles. e todos perceberão aonde isso leva” (Rousseau, J.J. – O Contrato Social, p.52; L&PM POCKET, 2012)

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    EdsonLuiz.

    10 de março de 2021 às 16h21

    Nilo,
    Só como sugestão, não é nada por provocação, e também sem associar com nada deste Fla X Flu, que eu acho bobo. Estou indicando apenas porque você citou o Rousseal. De repente, você até já leu.

    Leia a autobiografia do Rousseal, se você conseguir encontrar. Afora bom filósofo, dentro da sua visão, Rousseal é muito bom escritor, muito bom romancista. Muito mesmo!

    Você vai ler na autobiografia – e dito com muita coragem, embora até onde sei ele deixou para publicarem só após sua morte – a confissão do que o homem que pregava a justiça social e foi o grande pregador da educação como prioridade política ( junto com o maravilhoso sociólogo de direita Condorset ) e inspirador dos movimentos utópicos por igualdade, teve coragem de fazer com uma humildíssima serviçal.

    Leia. Vai ver como nós humanos somos contraditórios e podemos ser muito covardes.

    Responder

dudu

10 de março de 2021 às 09h58

Teremos que devolver a Lula e Cia o dinheiro que levaram dos cofres das estatais…?

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João A. Ferreira

10 de março de 2021 às 09h47

A baderna só interessa ao baderneiro.

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Alan C

10 de março de 2021 às 09h46

No texto estão todas as inconsistências dos governos petistas, tudo o que deixou de fazer (ex: a citada reforma do judiciário), a falta de comunicação com o povo (o sincericidio do Mano Brown), nomeações de ministros do supremo desalinhados com a vontade popular, as leis usadas contra Lula, a farra dos bancos, etc, etc, etc…. Tudo dentro do pacote do projeto de perpetuação de poder, agradando a Neverland elite brasileira e escaneando o povo. Sem as commodities altas, desnudou-se a trama…
E essa análise de Lula nós braços do povo é muito teórica. Como disse, se não me engano, Ulisses Guimarães, voto vc não tem, voto vc teve… E teve a 15 anos atrás.

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Ricardo Mutschaewski

10 de março de 2021 às 08h12

Mais uma vez ficou provado ao brasileiro que o roubo e o trafico compensam.

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Ricardo Mutschaewski

10 de março de 2021 às 07h41

O STF provou mais uma vez ao povo brasileiro, que o roubo e o trafico de drogas compensam.

Responder

Cesar

10 de março de 2021 às 07h40

Quando um misnistro, em decisão monocrática, diz que, além da Primeira Instância, um TRF e um STJ, são ignorantes diante da lei, são incompetentes para julgar provas e não tem capacidade nem moral para exercerem os cargos que ocupam, ou as Leis do país não mais existem ou esse ministro está se achando que é o proprio imperador da nação.
Fatos e provas são reais e não coisas abstratas. Os processos possuem provas reais e concistentes para que as decisões tomadas fossem embasadas e não suposições.
Jugaram nossos códigos jurídicos, a moral do judiciário e a confiança do povo no lixo, e isso não tem preço.

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    carlos

    10 de março de 2021 às 09h08

    O César ao invés de tocar o dedo na ferida, parece que recebe algum da justiça, a verdade é uma só o corporativismo no judiciário campeia e nossos direitos são vilipendiados, enquanto o presidente da República seja ele qual for, que tem tantos problemas pra resolver, ficar nomeando ministro, reitor de universidades vai acontecer isso aí, por isso já venho pregando há muito tempo não é de hoje comissão de notáveis pra reformar o judiciário, depois reformar o executivo e o legislativo, qual é o presidente que tem a coragem até hoje nenhum, por isso que o atual presidente chama o exército Brasileiro de meu exército, o exército é dele. Agora doa a quem doer.

    Responder

DANILO MIRANDA CAETANO

10 de março de 2021 às 01h20

Direto, assertivo, carinhoso (sim, carinhoso com o ex-presidente)… E tudo isso sem esconder o posicionamento editorial pró Ciro deste Cafezinho.
Curti.

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    Pedro Breier

    10 de março de 2021 às 15h32

    Valeu, Danilo!

    Responder

Alexandre Neres

09 de março de 2021 às 23h57

Muito boa a análise, Pedro. Assino embaixo quase tudo, inclusive o assim chamado “petismo jurídico”. As nomeações indicadas pelo PT para a procuradoria-geral (exceto o Fonteles) e para os tribunais superiores foram na maior parte bisonhas. E o que dizer da passividade do Ministro da Justiça Zé Cardoso? Que que é aquilo? Só não é pior do que o marreco de Maringá, que até o lixo da história quer recusar.

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    Pedro Breier

    10 de março de 2021 às 15h33

    Valeu, Alexandre! Bisonhas é uma palavra boa pra definir…

    Responder

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