Inteligência, generais e controle econômico formam o verdadeiro eixo de comando que Washington não conseguiu desmontar com uma operação militar
A captura de Nicolás Maduro pelas forças dos Estados Unidos — um ato classificado pelo presidente Donald Trump como “impressionante e poderoso” — lançou a Venezuela em um labirinto de incertezas. Embora o rosto mais visível do governo tenha sido retirado de cena, a engrenagem que sustenta o Estado venezuelano parece longe de um colapso imediato. O cenário atual revela que a estrutura de poder é muito mais profunda e ramificada do que a figura de um único homem.
No centro da disputa institucional, a Constituição venezuelana estabelece que a vice-presidente Delcy Rodríguez deve assumir a presidência interina na ausência de Maduro. Seguindo esse rito, o Supremo Tribunal do país formalizou a ordem para que ela tome posse. Trump chegou a sugerir que Rodríguez já estaria no comando e mencionou diálogos entre ela e o secretário de Estado, Marco Rubio, alimentando rumores de uma possível transição coordenada por Washington.
A união do círculo íntimo e a resistência em Caracas
Contudo, qualquer expectativa de uma rendição imediata foi freada pela imagem transmitida na televisão estatal venezuelana. Delcy Rodríguez surgiu ladeada pelas figuras mais poderosas do regime: seu irmão, Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional); o ministro do Interior, Diosdado Cabello; e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.
A mensagem foi inequívoca: “A Venezuela só tem um presidente: Nicolás Maduro”, declarou Delcy, classificando a detenção como um sequestro. Essa demonstração de unidade sugere que o grupo que compartilha o poder há anos permanece coeso, frustrando, por ora, os planos de uma mudança rápida de regime.
Enquanto isso, Trump fechou as portas para a oposição tradicional. O presidente americano descartou colaborar com Maria Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz e figura central da resistência interna, afirmando que ela “não tem apoio” dentro do país. A decisão ignora o fato de que, após Machado ser impedida de concorrer em 2024, observadores internacionais apontaram que seu candidato substituto venceu as eleições por ampla margem, apesar da contestação do governo Maduro.
O poder real: entre a inteligência e o controle militar
Para entender por que a remoção de Maduro não significa o fim do atual sistema, é preciso olhar para a rede de inteligência e segurança. Analistas e ex-funcionários apontam que o verdadeiro poder reside nas agências que monitoram a dissidência. Relatos colhidos pelas Nações Unidas detalham que órgãos como o SEBIN (civil) e a DGCIM (militar) cometeram crimes contra a humanidade, incluindo tortura e abusos sistemáticos para sufocar qualquer oposição.
“Eles querem que você se sinta como uma barata em uma jaula de elefantes, que eles sejam maiores”, relatou um ex-agente da DGCIM, descrevendo o terror psicológico e físico imposto nos centros de detenção.
Nesse tabuleiro, o nome de Diosdado Cabello ganha contornos dramáticos. Considerado o elemento mais ideológico e imprevisível, Cabello controla agências de contraespionagem e possui ligações estreitas com os colectivos — grupos civis armados. Recentemente, ele foi visto em trajes de combate, ordenando que as forças de segurança “fossem atrás dos terroristas”.
Generais e o controle da economia ilícita
Outro pilar de sustentação é a cúpula militar. A Venezuela conta com cerca de 2.000 generais e almirantes, um número que supera o dobro do contingente dos Estados Unidos. Mais do que soldados, esses oficiais são gestores econômicos: controlam a petroleira estatal PDVSA, a distribuição de alimentos e matérias-primas.
A lealdade dessa classe militar é cimentada por benefícios que vão além dos salários. Segundo investigadores e desertores, muitos oficiais lucram com o comércio ilícito e rotas de contrabando em brigadas estrategicamente posicionadas nas fronteiras e polos industriais. “Há entre 20 e 50 oficiais das Forças Armadas da Venezuela que precisam ser afastados, provavelmente até mais, para que esse regime seja completamente removido”, alertou um advogado que representa ex-membros da cúpula.
Embora alguns generais e funcionários já tenham procurado as autoridades americanas em busca de acordos de imunidade após a queda de Maduro, figuras centrais como Cabello parecem não ter interesse em negociar. O destino da Venezuela permanece suspenso entre a intervenção externa de Washington e a resistência interna de uma estrutura que aprendeu a sobreviver sem o seu líder principal.


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