A posse interina de Delcy Rodríguez pelo Tribunal Supremo de Justiça busca preservar a legalidade diante de uma agressão externa
O mundo assistiu, neste último sábado (3), a um dos episódios mais sombrios da história recente das relações internacionais no Hemisfério Ocidental. A operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Caracas, que resultou no bombardeio da capital venezuelana e na captura de Nicolás Maduro, não representa apenas uma ação contra um governo específico, mas um ataque direto ao conceito de autodeterminação dos povos e à legalidade internacional.
A decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela de empossar Delcy Rodríguez como presidente interina é a resposta institucional possível de um Estado que tenta manter sua estrutura mínima de funcionamento sob o fogo cruzado. Enquanto Washington ignora fronteiras e leis internacionais, Caracas busca na sua Constituição o amparo para garantir a continuidade administrativa em meio ao caos provocado por uma intervenção estrangeira.
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O sequestro de um presidente e a afronta democrática
A narrativa apresentada pela Casa Branca tenta revestir de “libertação” o que, na prática, configura-se como um sequestro de Estado. Ao capturar Maduro e sua esposa e levá-los a Nova York em um navio de guerra, os Estados Unidos atropelam séculos de diplomacia e protocolos de imunidade. Independentemente das críticas que se possa fazer à gestão de Maduro, a remoção de um líder político por meio de bombardeios e operações militares externas é um retrocesso que nos remete aos períodos mais obscuros das ditaduras latino-americanas financiadas pelo Norte.
Delcy Rodríguez, ao assumir o cargo, foi enfática: a Venezuela não é, e não aceitará ser, uma colônia. Sua convocação à resistência não é apenas um grito partidário, mas um apelo à preservação da soberania nacional face a uma potência que, mais uma vez, utiliza a força bruta para moldar o destino de seus vizinhos ao sul.
A ressurreição da Doutrina Monroe no século 21
O pronunciamento de Donald Trump em Mar-a-Lago não deixou margens para dúvidas sobre as reais intenções por trás da operação. Ao invocar explicitamente a Doutrina Monroe — uma política de dois séculos atrás criada para consolidar a hegemonia norte-americana na região —, o governo dos EUA removeu a máscara da “ajuda humanitária”. A afirmação de que o domínio americano no Ocidente “nunca mais será questionado” é um aviso ameaçador a todos os países da América Latina.
O plano de Washington de designar um “grupo” de alto escalão para administrar a Venezuela é o ápice do desrespeito institucional. A ideia de que uma nação estrangeira pode simplesmente “assumir o governo” de outra até que decida o momento de uma transição é a negação absoluta de qualquer princípio democrático. É uma tutela colonial imposta sob o pretexto da liberdade.
O pragmatismo cínico e o desprezo pela oposição interna
Surpreende, mas não choca, a forma como Trump descartou figuras da oposição venezuelana que há anos serviam aos interesses de Washington. Ao afirmar que María Corina Machado — laureada com o Nobel da Paz — não possui respeito ou apoio interno para governar, Trump revela que a intervenção nunca foi sobre restaurar a vontade popular venezuelana, mas sobre conveniência geopolítica.
A indicação de que o secretário de Estado, Marco Rubio, já mantém diálogos com a própria Delcy Rodríguez demonstra um pragmatismo cínico. Os Estados Unidos parecem dispostos a negociar com qualquer peça do tabuleiro, desde que o controle final sobre os recursos e a política da região permaneça em suas mãos.
A defesa da soberania como única via
A resistência convocada por Rodríguez, apoiada pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e por ministros das pastas estratégicas, coloca o povo venezuelano diante de um desafio hercúleo: defender o território e a dignidade nacional contra o maior poder militar do planeta.
O que está em jogo na Venezuela hoje não é apenas o futuro de um partido ou de um líder, mas a própria existência da soberania na América Latina. Se o mundo aceitar passivamente que bombardeios e sequestros de governantes são ferramentas legítimas para a “transição de poder”, nenhuma nação do Sul Global estará verdadeiramente segura. A história cobrará daqueles que, sob o silêncio ou o aplauso, permitiram que a barbárie imperialista voltasse a ditar as regras em nosso continente.


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