Cerca de 60 condenados estão foragidos na Argentina
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro de 2025, foi um veredicto que ecoou globalmente e selou a responsabilização do núcleo político da trama golpista. A decisão, que considerou Bolsonaro culpado por crimes como tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, foi amplamente noticiada como histórica pela imprensa internacional, mas também expôs as tensões geopolíticas em torno do caso.
Uma decisão histórica
Para veículos internacionais, a condenação representou um ponto de inflexão. A agência Reuters destacou que Bolsonaro se tornou “o primeiro ex-presidente na história do país a ser condenado por atentado à democracia”. Já o jornal britânico The Guardian afirmou que o ex-presidente foi condenado por “planejar um golpe militar e tentar ‘aniquilar’ a democracia brasileira”. A análise publicada na revista The Economist foi enfática ao lembrar uma fala de Bolsonaro em 2022, na qual ele garantia que não seria preso se perdesse a eleição: “O julgamento no STF mostrou que ele estava errado”. Para o jornal espanhol El País, o Brasil deu “um passo importante contra a impunidade”.
Pressão internacional e repercussão política
A condenação, no entanto, não ocorreu em um vácuo. O julgamento se tornou palco de uma disputa geopolítica de alto nível. O The New York Times e o Wall Street Journal relataram que a decisão do STF aumentou as tensões entre Brasil e Donald Trump. A Casa Branca, segundo as reportagens, tentou pressionar o Brasil a abandonar o caso, impondo sobretaxas de 50% sobre produtos brasileiros e aplicando sanções (Lei Magnitsky) contra o ministro Alexandre de Moraes e outras autoridades. “Vários juízes brasileiros criticaram as tentativas dos EUA de intervir ao votarem pela condenação”, destacou o The New York Times. O Wall Street Journal avaliou que a condenação “sela a queda dramática de Bolsonaro e seus aliados de direita”.
Os desafios do julgamento
O voto não foi unânime. O ministro Luiz Fux votou pela absolvição, um posicionamento que trouxe alívio aos apoiadores de Bolsonaro e pode abrir caminho para futuras contestações legais. Internamente, a condenação do núcleo político – que incluiu, além de Bolsonaro, nomes como o general Braga Netto e o ex-ministro Anderson Torres – representa o ápice de uma ampla operação judicial. Dados consolidados pelo STF até agosto de 2025 mostram que 1.190 pessoas haviam sido responsabilizadas criminalmente pelos atos de 8 de janeiro, sendo 638 condenadas e outras 552 firmando acordos de não persecução penal.
Quem são os condenados
Núcleo 1 – Data da condenação: 11 de setembro de 2025
- Jair Bolsonaro, ex-presidente da República: 27 anos e três meses
- Walter Braga Netto, ex-ministro e candidato à vice na chapa de 2022: 26 anos;
- Almir Garnier, ex-comandante da Marinha: 24 anos;
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de segurança do Distrito Federal: 24 anos;
- Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI): 21 anos;
- Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa: 19 anos;
- Alexandre Ramagem, deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin): 16 anos, um mês e 15 dias;
- Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro: 2 anos em regime aberto e garantia de liberdade pela delação premiada.
Núcleo 2 – Data da condenação: 16 de dezembro de 2025
- Mário Fernandes, general da reserva do Exército: 26 anos e seis meses de prisão;
- Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF): 24 anos e seis meses de prisão;
- Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro: 21 anos de prisão;
- Filipe Martins, ex-assessor de Assuntos Internacionais do ex- presidente Jair Bolsonaro: 21 anos de prisão;
- Marília de Alencar, ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça: 8 anos e seis meses de prisão.
Núcleo 3 – Data da condenação: 18 de dezembro de 2025
- Hélio Ferreira Lima, tenente-coronel: 24 anos de prisão;
- Rafael Martins de Oliveira, tenente-coronel: 21 anos de prisão;
- Rodrigo Bezerra de Azevedo, tenente-coronel: 21 anos de prisão;
- Wladimir Matos Soares, policial federal: 21 anos de prisão;
- Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros , tenente-coronel: 17 anos de prisão;
- Bernardo Romão Correa Netto, coronel: 17 anos de prisão;
- Fabrício Moreira de Bastos, coronel: 16 anos de prisão;
- Márcio Nunes de Resende Júnior, coronel: 3 anos e cinco meses de prisão;
- Ronald Ferreira de Araújo Júnior, tenente-coronel: um ano e onze meses de prisão.
Núcleo 4 – Data da condenação: 21 de outubro de 2025
- Ângelo Martins Denicoli, major da reserva do Exército: 17 anos de prisão;
- Reginaldo Vieira de Abreu, coronel do Exército: 15 anos e seis meses de prisão;
- Marcelo Araújo Bormevet, policial federal: 14 anos e seis meses de prisão;
- Giancarlo Gomes Rodrigues, subtenente do Exército: 14 anos de prisão;
- Ailton Gonçalves Moraes Barros, major da reserva do Exército: 13 anos de prisão;
- Guilherme Marques de Almeida, tenente-coronel do Exército: 13 anos e seis meses;
- Carlos Cesar Moretzsohn Rocha, presidente do Instituto Voto Legal: 7 anos e seis meses de prisão.
Foragidos
Ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão na ação penal da trama golpista e fugiu para os Estados Unidos para não cumprir a pena.
O pedido de extradição já está em tramitação. Em função da condenação, Ramagem perdeu o mandato de parlamentar.
Ainda estão foragidos na Argentina cerca de 60 condenados pelos atos golpistas. Eles romperem a tornozeleira eletrônica e também são alvo de pedidos de extradição.
Contudo, o veredicto do STF não encerrou o capítulo: Bolsonaro segue sendo um “ator político poderoso no Brasil” e parlamentares aliados seguem buscando, no Congresso, uma forma de anistia. Essa tensão entre o Judiciário e o Legislativo, com o Congresso aprovando o “PL da Dosimetria” que podem reduzir drasticamente as penas, mostra que a batalha pela memória e pelas consequências do 8 de janeiro ainda está em curso.
Com informações da Agência Brasil em 08/01/2026


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