Inflação de alimentos fecha 2025 em 1,4% (mas energia elétrica preocupa)

A energia elétrica subiu 12,31% no ano e foi o subitem com maior impacto (0,48 p.p.) sobre a inflação de 2025 - Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

O grande vilão da inflação neste início de 2026 será a energia elétrica residencial. Com uma alta acumulada de 12,31% nos últimos doze meses, o custo para iluminar a casa e manter os eletrodomésticos funcionando segue como um peso significativo para as famílias brasileiras, muito acima da inflação geral de 4,26% registrada no período.

O uso maior de ar-condicionado e ventiladores, em virtude das temperaturas elevadíssimas do verão brasileiro, deve fazer as contas de luz explodirem nesses primeiros três meses do ano. De maneira geral, no entanto, a inflação brasileira está sob controle. Lembremos que, ao final de 2021, sob o governo de Jair Bolsonaro, a mesma conta de luz acumulava uma alta de 21,21%. A comparação com 2021 é pertinente porque ambos são anos anteriores à eleição presidencial.

A energia elétrica se consolida como um dos principais desafios do governo atual. A solução para isso, naturalmente, seria o lançamento de um grande programa nacional de painéis solares, a maneira mais objetiva e racional de permitir a redução na conta de luz, especialmente para famílias de renda média que consomem energia acima do nível que permite algum tipo de subsídio social do governo.

Entretanto, se a energia ainda assusta, um alívio substancial vem do prato de comida. É nesse ponto que se sustenta uma tese cada vez mais evidente: existe uma forte correlação entre o preço dos alimentos e a aprovação do governo.

A queda nos preços da comida comprada no supermercado, a chamada “alimentação no domicílio”, gera um impacto direto e positivo na percepção popular sobre a economia. A inflação da alimentação no domicílio foi de apenas 1,43% em 2025, uma desaceleração drástica em relação aos 8,24% de 2021. O grupo completo de “Alimentação e bebidas” viu sua alta anual despencar de 7,94% em 2021 para 2,95% em 2025.

No raio-x do carrinho de compras, os heróis do churrasco e da mesa do dia a dia são notáveis. A picanha, símbolo do poder de compra do brasileiro, viu sua inflação cair de 17,36% em 2021 para apenas 2,82% em 2025. Esse dado é emblemático porque a picanha virou meme político durante o governo Bolsonaro, quando seu preço disparou e houve quem sugerisse que a população comprasse osso em vez de carne.

As carnes, de forma geral, saíram de um aumento de 8,45% em 2021 para 1,22% em 2025. O frango inteiro, proteína essencial na mesa das famílias, desacelerou de 19,89% em 2021 para 1,61% em 2025. O ovo de galinha seguiu o mesmo caminho, saindo de 13,24% para 3,99%. Itens básicos como arroz e feijão preto registraram deflação expressiva em 2025, com quedas de 26,56% e 32,38%, respectivamente.

A tilápia, que subia 3,92% em 2021, agora apresenta queda de 5,18% em 2025. O gás de botijão, outro item de altíssimo impacto social e também símbolo do custo de vida no governo anterior, despencou de uma alta de 36,99% em 2021 para apenas 2,55% em 2025. Assim como a picanha, o botijão virou símbolo da crise durante o governo Bolsonaro, quando famílias passaram a cozinhar com lenha por não conseguirem arcar com o preço do gás.

Até a cerveja tomada no bar ficou mais barata em termos relativos. A inflação da cerveja fora de casa caiu de 4,82% em 2021 para 3,13% em 2025.

A inflação de serviços, porém, continua pressionando o orçamento. O transporte por aplicativo disparou e acumulou alta de 56,08% em 2025. Custos com plano de saúde (6,42%), creche (5,95%) e pré-escola (7,65%) também mostram que o custo de vida para além da comida permanece elevado.

Os dados revelam uma clara troca de vilões na comparação entre os governos. Se em 2021 os combustíveis assustavam, com a gasolina subindo 47,49% e o etanol 62,23%, o cenário em 2025 é de alívio. A fotografia do momento econômico revela, portanto, uma dualidade. De um lado, um alívio significativo vindo da comida e dos combustíveis, que impulsiona a sensação de melhora no poder de compra. Do outro, uma pressão persistente vinda do custo da energia elétrica e dos serviços, que freia um otimismo maior.

Olhando para 2026, as projeções do Boletim Focus do Banco Central indicam uma inflação ainda menor, o que pode ser impulsionado por uma safra agrícola recorde e um dólar mais comportado. Se essa tendência se confirmar, a tese da “inflação dos alimentos” como um dos principais cabos eleitorais da popularidade do governo ganhará ainda mais força no último ano do mandato.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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