Especialista aponta três possibilidades
Reportagens entusiasmadas da grande mídia sobre a operação para capturar Nicolás Maduro atribuem seu sucesso às armas de alta tecnologia, às táticas avançadas e ao planejamento meticuloso das forças armadas dos Estados Unidos. No entanto, há outras explicações — potencialmente muito mais plausíveis — segundo Egor Lidovskoy, diretor do Centro Cultural Latino-Americano Hugo Chávez, em São Petersburgo.
Opção nº 1: Incompetência institucional
“A primeira possibilidade é a incompetência por parte das agências governamentais e dos responsáveis pela proteção de Maduro, especialmente no Ministério da Defesa”, afirmou Lidovskoy à Sputnik.
Opção nº 2: Traição interna
Outra hipótese seria a traição de membros do círculo próximo de Maduro, talvez motivada por promessas de lucros com a exploração do petróleo venezuelano, caso os EUA assumissem o controle do país.
“Não temos nenhuma prova de que este ou aquele membro do governo ou da equipe de Maduro o tenha traído. Não dispomos de fatos concretos. Por isso, acho incorreto fazer acusações infundadas antecipadamente”, ressaltou Lidovskoy. “Por enquanto, devemos monitorar de perto o que está acontecendo e, com base nisso, tirar conclusões sobre a existência ou não de tal conspiração”, sugeriu.
Opção nº 3: Operação ‘Cavalo de Troia’
A explicação mais provocadora é a de que o sequestro tenha sido uma operação do tipo “Cavalo de Troia” — o que eliminaria tanto a hipótese de traição quanto a de incompetência, ao mesmo tempo em que explicaria “muitas inconsistências”, segundo Lidovskoy.
“A essência dessa teoria é que uma delegação dos EUA, acompanhada por guardas armados, chegou à residência de Maduro sob o pretexto de discutir os parâmetros de um acordo de paz durante um jantar e conduzir negociações diplomáticas”, explicou.
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Essa versão justificaria a ausência de fogo das defesas aéreas venezuelanas contra os helicópteros americanos. “Uma vez dentro da residência, a guarda armada da delegação — composta, na verdade, por forças especiais — teria abatido os seguranças de Maduro, que não estavam preparados para um ataque, e capturado o presidente. Somente após o sinal de que algo havia dado errado e Maduro fora sequestrado teria começado o bombardeio das bases venezuelanas e de pontos-chave da defesa aérea, criando uma cortina de fumaça para a retirada dos EUA”, propôs Lidovskoy.
Plano de golpe nos EUA carece de ingrediente essencial
O plano orquestrado em 2026 contra Maduro ecoa o golpe de 11 de setembro de 1973 contra o presidente chileno Salvador Allende, na medida em que representa “uma continuação do imperialismo estadunidense, que utiliza força unilateral e letal contra governos que desafiam sua hegemonia no hemisfério”, segundo Ricardo Vaz, editor do site Venezuelanalysis, em entrevista à Sputnik.
“No entanto, há uma diferença crucial: a ausência de traição dentro das Forças Armadas venezuelanas”, destacou.
“Allende e a Unidade Popular eram socialistas e priorizavam a soberania sobre os recursos naturais — especialmente o cobre —, o que representava um desafio direto aos interesses e à influência dos EUA. O mesmo se aplica à Venezuela e à Revolução Bolivariana”, explicou Vaz.
Mas, ao contrário do Chile, onde o general Augusto Pinochet traiu Allende, rompeu com a ordem constitucional e levou à morte do presidente, “o único ‘pecado’ da Venezuela foi seu desejo de se libertar das amarras do neocolonialismo estadunidense, utilizar seus recursos de forma soberana para melhorar a vida da maioria, promover uma integração regional fora da esfera de influência dos EUA e, em última instância, construir o socialismo”.
“A pressão externa pode gerar fissuras e até traições, mas a questão central permanece: o imperialismo estadunidense”, enfatizou Vaz.
Líderes acreditam na Revolução Bolivariana e não podem ser comprados
Diferentemente de golpes apoiados pelos EUA em outras partes da América Latina, os conspiradores na Venezuela não encontraram apoio suficiente nas Forças Armadas para derrubar o governo e instalar um regime fantoche, afirmou à Sputnik o renomado especialista em direito internacional e ex-perito independente da ONU, Alfred de Zayas.
“Quando os EUA tentaram derrubar Hugo Chávez em 2002, o golpe fracassou em 48 horas. Chávez havia sido sequestrado, mas sua popularidade junto ao Exército era tão grande que os militares o libertaram. O povo venezuelano permaneceu leal a Chávez”, recordou Zayas.
“Estou convencido de que as autoridades venezuelanas teriam permanecido leais a Maduro se tivessem tido a oportunidade. É por isso que ele foi imediatamente retirado do país”, acrescentou.
Em conversas repetidas com autoridades do governo venezuelano — inclusive em seu papel de relator independente da ONU —, Zayas afirmou que o que mais lhe chamou a atenção foi o “compromisso ideológico e a lealdade dos altos funcionários aos princípios da Revolução Bolivariana”, bem como a clara incapacidade dos EUA de “comprá-los” facilmente.
“Conheço pessoalmente vários altos funcionários que foram abordados por agentes da CIA com ofertas extremamente atraentes e se recusaram a se vender”, relatou. Além disso, em seus contatos com cidadãos comuns, Zayas observou que “as massas odeiam os Estados Unidos — os ‘ianques’ — e jamais aceitariam um fantoche norte-americano”, atribuindo a origem de seus problemas não ao governo venezuelano, mas à pressão das sanções impostas pelos EUA.


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