Não acredite tão facilmente na narrativa da mídia ocidental.
O que acontece no Irã é a enésima tentativa de mudança de regime através das táticas mais espúrias e criminosas que se possa imaginar.
Na segunda-feira, 12 de janeiro, milhões de iranianos saíram às ruas de Teerã e de pelo menos treze cidades do país para defender a constituição, a soberania nacional e rechaçar o uso de terrorismo e violência como forma de atuação política.
Segundo o Professor Seyed Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã e ex-assessor da equipe de negociação nuclear do Irã, em entrevista ao podcast “The Greater Eurasia”, do professor Glenn Diesen, foi provavelmente o maior ajuntamento de pessoas que o país já teve, com bem mais de um milhão de pessoas apenas na capital. O professor enfatiza que essas multidões não eram compostas apenas por apoiadores do governo atual, mas por cidadãos de diversas visões políticas unidos em defesa da legitimidade do Estado contra a ingerência estrangeira.
Em uma cidade com os problemas de transporte que Teerã enfrenta, o esforço dessas pessoas para chegar às ruas demonstra a profundidade do sentimento nacional. A operação de desestabilização seguiu um roteiro já conhecido: ataque especulativo à moeda iraniana, orquestrado com apoio de Israel e Estados Unidos.
O Ocidente tenta isso há muito tempo, mas desta vez conseguiu derrubar a moeda em uma queda estimada entre 30% e 50% em curtíssimo período.
Marandi afirma que essa queda foi gerenciada do exterior, com os Estados Unidos e aliados ocidentais pressionando as bases de câmbio iranianas.
A desestabilização econômica é sempre o primeiro passo para gerar o caos social necessário às operações de mudança de regime. Os protestos começaram em Teerã e outras cidades com alguns milhares de pessoas, majoritariamente pequenos comerciantes e lojistas preocupados com a falência diante da instabilidade cambial.
No primeiro dia, as manifestações foram pacíficas, sem intervenção policial ou prisões.
A situação mudou drasticamente no segundo dia.
Grupos pequenos, muito bem disciplinados e organizados, começaram a se infiltrar nos protestos e a promover atos de extrema violência. Marandi relata que mais de cem oficiais da lei foram assassinados em poucos dias, alguns deles decapitados, queimados vivos ou com rostos e cabeças esmagados.
Entre as vítimas estavam uma enfermeira morta quando uma clínica foi incendiada e um membro do Crescente Vermelho. Médicos locais relataram que muitas pessoas foram baleadas com revólveres e pistolas à curta distância, de dentro da própria multidão.
A tática lembra os eventos de Maidan, na Ucrânia, onde em 2014 foi forjado o golpe de estado contra o presidente eleito.
Aquela operação, articulada pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos, colocou no governo ucraniano um títere aliado americano num processo de ataque à Rússia que acabou levando à guerra.
O objetivo era provocar a Rússia e criar instabilidade na região. Em Maidan, atiradores dispararam contra policiais e civis para inflar o número de mortos e culpar o governo.
A destruição de propriedade pública foi massiva: ônibus públicos, ambulâncias, carros de bombeiros, bancos e casas particulares foram incendiados.
As organizações envolvidas nessa escalada de violência incluíam o ISIS, os Mujahideen, organização terrorista baseada na Europa, os monarquistas e o Komoleh, um grupo terrorista curdo.
A decisão do governo iraniano de suspender o acesso à internet foi justificada pela necessidade de desarticular a coordenação desses grupos violentos. Quando a internet foi cortada, a rede de manifestantes violentos de repente entrou em colapso porque não eram mais capazes de se coordenar com seus financiadores no exterior.
Marandi descreve a existência de um império midiático em persa financiado pelo Ocidente com bilhões de dólares, que inclui canais de TV, exércitos de bots e canais de Telegram dedicados à guerra psicológica contra o Irã.
Trata-se de uma guerra profundamente assimétrica.
De um lado, o Ocidente mobiliza dezenas, centenas, até milhares de sites e contas em redes sociais, todos financiados com recursos praticamente ilimitados para tentar desestabilizar o regime iraniano. Do outro, um país que resiste há décadas às sanções e pressões imperialistas, mas que enfrenta dificuldades crescentes para furar o bloqueio informacional imposto pela grande mídia ocidental.
Figuras como Mike Pompeo e agências como o Mossad não esconderam seu envolvimento, com postagens que indicavam a presença de agentes em solo iraniano.
A Voice of America, braço de propaganda do governo dos Estados Unidos, também publicou mensagens incitando a violência contra o governo do Irã.
O ex-presidente Donald Trump chegou a afirmar, incorretamente, que uma grande cidade iraniana teria caído nas mãos dos combatentes da liberdade. Marandi foi categórico ao desmentir: nem uma cidade, nem uma aldeia foi tomada por ninguém.
Para o professor, Trump é totalmente ignorante sobre fatos básicos, e suas políticas são fundamentadas em informações incorretas que inevitavelmente falham.
A análise de Marandi vai além da situação imediata no Irã.
Ele argumenta que o objetivo dos Estados Unidos e seus aliados é o que o regime israelense deseja: uma Ásia Ocidental e Norte da África fragmentadas, com a destruição dos Estados-nação. Segundo ele, se o governo israelense tivesse oportunidade, faria com a Arábia Saudita, o Egito e a Turquia o mesmo que fez com a Síria.
O professor critica duramente líderes regionais como Erdogan, que colaborou com a destruição da Síria sob a influência das políticas de Obama, acreditando criar um mini Império Otomano. Erdogan não previu que seus aliados em Washington sempre escolheriam Israel em vez da Turquia.
O padrão é recorrente.
Primeiro, desestabiliza-se a sociedade com sanções e guerra de informação.
Depois, exploram-se as queixas legítimas do público para instigar protestos violentos. A retórica internacional reduz tudo a uma escolha binária: ou você apoia os manifestantes corajosos ou é conivente com a ditadura.
Historicamente, desde a Primavera Árabe, o resultado de tais intervenções não é a libertação, mas a destruição dos países enquanto potências estrangeiras perseguem interesses geopolíticos de soma zero.
Marandi reitera que o Estado iraniano possui apoio popular e que as previsões ocidentais sobre um colapso iminente do regime são baseadas em wishful thinking, repetindo-se em ciclos a cada poucos anos.
Ele encoraja observadores internacionais a analisarem as filmagens das multidões pró-constituição para avaliarem por si mesmos se manifestações daquele porte acontecem em seus próprios países. A resposta, certamente, revelará muito sobre onde reside a verdadeira legitimidade popular.


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