O Banco Central do Brasil estimou em cerca de R$ 20 bilhões o ajuste necessário no patrimônio de referência do Banco Master para que a instituição pudesse superar a situação de insolvência em que se encontrava antes de ter a liquidação extrajudicial decretada, em novembro do ano passado. A informação consta de um documento encaminhado pelo BC ao Ministério Público Federal, obtido pelo Valor Econômico, que detalha fragilidades estruturais e indícios de fraudes identificados na instituição controlada por Daniel Vorcaro.
Segundo o documento, a estimativa foi calculada com base em dados de maio de 2025, cerca de seis meses antes da intervenção. O Banco Central ressalta que não é possível determinar com precisão qual era a real situação patrimonial no momento da decretação da liquidação, uma vez que, naquele estágio, o banco já havia praticamente interrompido as atividades de captação e concessão de crédito.
Trata-se da primeira projeção tornada pública pela autoridade monetária indicando que, além de um problema severo de liquidez, o Banco Master apresentava deficiências patrimoniais relevantes. Esse tipo de desequilíbrio, segundo a legislação prudencial, pode justificar medidas como intervenção ou liquidação extrajudicial, que foi oficialmente decretada em 18 de novembro.
Liquidez pressionada e risco estrutural
Até então, o diagnóstico divulgado indicava principalmente um problema agudo de liquidez. O banco enfrentava dificuldades para renovar captações, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), e não dispunha de ativos líquidos suficientes para honrar compromissos de curto prazo. Nesse contexto, chegou a anunciar a venda de parte de suas operações ao Banco Regional de Brasília (BRB), transação que acabou negada pelo Banco Central meses depois, em meio a suspeitas de irregularidades.
O número de R$ 20 bilhões evidencia a magnitude do esforço que um eventual investidor teria de realizar para reequilibrar o balanço da instituição. Além de recuperar a confiança do mercado para restabelecer fontes de funding, o desequilíbrio patrimonial apontado exigiria capacidade significativa de aporte de capital. Para efeito de comparação, dados do próprio BC indicam que bancos médios relevantes tinham patrimônio de referência entre R$ 15 bilhões e R$ 23 bilhões no fim de setembro do último ano.
Pelo último balanço conhecido, referente a dezembro de 2024, o patrimônio líquido do Banco Master era de R$ 4,7 bilhões. O patrimônio de referência, no entanto, difere desse indicador, pois reflete uma visão prudencial após ajustes feitos pela supervisão para mensurar o valor efetivo de ativos e passivos.
Captação frustrada e gestão de riscos
Na comunicação ao MPF, o Banco Central afirma que realizava acompanhamento contínuo do risco de liquidez do Master, dada a concentração de funding em operações de longo prazo, o que comprometia a geração de caixa necessária para obrigações imediatas. A situação se deteriorou ao longo da segunda metade de 2024, quando a instituição não conseguiu captar recursos institucionais na escala planejada.
A meta de captação para o ano era de R$ 15 bilhões, mas apenas R$ 2 bilhões foram efetivamente obtidos. Para o regulador, a frustração do funding ocorreu em paralelo a um gerenciamento inadequado do risco de crédito, combinação que tornou o colapso praticamente inevitável.
Em um dos trechos mais incisivos do documento, o BC registra “irregularidades relacionadas à insuficiência de capital”, após a constatação de que informações incorretas teriam sido prestadas ao regulador. O texto menciona ainda a inexistência de ativos líquidos no fundo de liquidez que amparava operações estruturadas de longo prazo e o descumprimento de normas de gerenciamento do risco de crédito, inclusive pela dependência de dados fornecidos por terceiros.
Escalada da crise e medidas de contenção
A partir de novembro de 2024, mesmo com um plano de contingência em curso, o Banco Master passou a não conseguir rolar integralmente vencimentos de CDBs distribuídos por plataformas de investimento. Simultaneamente, deixou de cumprir integralmente o recolhimento de depósitos compulsórios. Segundo o BC, dirigentes do grupo foram alertados de que o quadro poderia resultar na adoção de medidas prudenciais preventivas.
Na tentativa de conter a crise, a instituição iniciou a cessão de carteiras de crédito ao BRB, operações que, posteriormente, passaram a ser investigadas como supostamente fraudulentas. O banco também interrompeu a oferta de crédito corporativo, buscou compradores para ativos e tentou prorrogar uma linha assistencial junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Em paralelo, o controlador negociou a venda de ativos pessoais e de uma seguradora do grupo.
Impacto de suspeitas de fraude
O documento do Banco Central não esclarece se a estimativa de maio de 2025 já incorporava os impactos de supostas fraudes ocorridas entre 2023 e 2024. Investigações apontam dois esquemas principais: um envolvendo empréstimos simulados, com desvio estimado em R$ 11,5 bilhões, e outro relacionado à venda de carteiras sem lastro ao BRB, calculada em cerca de R$ 12,2 bilhões.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro negou a existência de insolvência estrutural e afirmou que o Banco Central auditava o banco diariamente, com ajustes e aportes realizados conforme solicitado. Em nota, a defesa sustenta que “não faz sentido um ajuste de R$ 20 bilhões” e atribui a retração de liquidez a uma queda abrupta do funding nas plataformas de varejo, decorrente de mudanças regulatórias e do que classificou como ataques de mídia.


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