Com poder bruto e “Doutrina Donroe”, Trump remodela a ordem global em semanas
Em semanas, o presidente Donald Trump depôs o presidente da Venezuela, prometeu controlar suas vastas reservas de petróleo e ameaçou ataques militares na América Latina. Falou em anexar a Groenlândia, inclusive pela força e prometeu novos ataques ao Irã.
Seu início de ano agressivo, poucos dias antes do primeiro aniversário de sua posse, demoliu pilares da ordem internacional pós-Segunda Guerra, que os EUA ajudaram a construir. Aliados e adversários lutam para se adaptar à nova realidade.
A velocidade das mudanças deixou o mundo atordoado. Especialistas questionam se as transformações serão duradouras ou reversíveis.
A volta das esferas de influência
Trump ressuscitou uma visão de mundo baseada no poder bruto e em esferas de influência. A inspiração é a Doutrina Monroe do século XIX, agora rebatizada de “Doutrina Donroe”.
O ataque militar à Venezuela em 3 de janeiro exemplifica essa abordagem. Trump justificou a ação citando o controle das vastas reservas de petróleo do país e o fluxo de drogas para os EUA.
E ele sinalizou que poderá intervir novamente, especialmente no Hemisfério Ocidental, onde prometeu restaurar a hegemonia dos EUA, apesar de ter feito campanha com uma agenda “América Primeiro” que visava evitar novos envolvimentos militares.
No cenário global, Trump está ressuscitando o que grande parte da comunidade internacional há muito rejeitava como uma visão de mundo ultrapassada: as esferas de influência definidas pelas grandes potências.
“Todos esperavam fanfarronice, mas esta demolição dos pilares da estabilidade ocorre em ritmo alarmante”, disse Brett Bruen, ex-conselheiro de Obama.
Aliados apreensivos, rivais atentos
A estratégia gera desconforto entre aliados tradicionais. Europeus criticam a fixação pela Groenlândia e o “colapso de valores”.
A Dinamarca alertou que uma anexação significaria o fim da aliança transatlântica. Alguns líderes europeus sugerem enviar tropas da OTAN ao Ártico para conter as ambições de Trump.
No Japão, a retórica belicista fez parlamentares reconsiderarem o desenvolvimento de armas nucleares próprias. Na Coreia do Sul, há temor de que as ações abram “uma caixa de Pandora” para o uso da força pelos fortes contra os fracos.
Parceiros preferem a discrição. Um funcionário britânico resumiu: “Repreender Trump publicamente não ajuda”.
Uma nova definição de poder
Na Casa Branca, conselheiros como Stephen Miller defendem abertamente essa visão. “Vivemos em um mundo governado pela força”, disse Miller à CNN.
Um funcionário anônimo da administração afirmou que Trump está “restaurando a influência americana”, exatamente o que ele foi eleito para fazer, incluindo o foco intenso nas Américas, a demonstração de poderio militar, o endurecimento das fronteiras e o uso generalizado de tarifas, e que os adversários “indubitavelmente notaram sua força”.
Críticos acusam o presidente de praticar um novo imperialismo. Seus defensores argumentam que a ação na América Latina era necessária para conter a influência chinesa.
O apetite por intervenções militares parece insaciável. Mesmo durante a crise venezuelana, Trump ameaçou intervir no Irã, onde manifestantes desafiam o regime teocrático.
“Talvez tenhamos que agir”, disse o presidente a jornalistas, deixando claro que, em seu mundo, a força precede a diplomacia.
O sistema global construído em oito décadas está sendo desmontado. A pergunta que resta é quanto da antiga ordem sobreviverá ao furacão Trump.
Com informações da Reuters em 13/01/2026