Exportações batem recorde mesmo com tarifaço de Trump, apesar da queda no volume exportado, impulsionadas pela disparada dos preços internacionais.
O Brasil exportou US$ 16 bilhões em café em 2025, um recorde histórico. O dado impressiona ainda mais quando se observa que esse crescimento ocorreu apesar da queda na quantidade exportada. Em volume físico, o país embarcou cerca de 41,5 milhões de sacas de 60 quilos, somando café verde e café solúvel em equivalente grão — uma retração de aproximadamente 17% em relação a 2024. O recorde, portanto, não veio do aumento de volume, mas da forte valorização dos preços internacionais.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior, o valor exportado cresceu 31% em relação ao ano anterior e 168% em comparação com uma década atrás.
O desempenho ocorreu apesar do tarifaço imposto por Donald Trump, que entre agosto e novembro de 2025 aplicou uma sobretaxa de 50% sobre o café brasileiro na entrada dos Estados Unidos. A tarifa só foi zerada após negociação direta entre Lula e Trump, evitando impactos mais severos sobre o segundo maior mercado consumidor do produto.
Desse total exportado, 93% corresponderam ao café verde — o grão cru, ainda não industrializado —, 7% ao café solúvel e menos de 1% ao café torrado.
A participação do café nas exportações brasileiras atingiu 4,3% em 2025, contra 3,4% no ano anterior. Em 2003 e 2004, esse indicador havia despencado para 1,8%, o piso da série histórica. A recuperação ao longo de duas décadas mais que dobrou o peso do café na pauta exportadora.
Os mercados tradicionais ainda dominam as compras do café brasileiro. A Alemanha lidera com US$ 2,3 bilhões, alta de 27% no ano e de 118% na década; os Estados Unidos vêm em segundo, com US$ 1,9 bilhão, estáveis no ano, mas 62% acima de dez anos atrás; Itália, Japão e Bélgica completam os cinco maiores compradores. Todos os números deste parágrafo referem-se exclusivamente às exportações brasileiras de café verde.
Os países do chamado Norte Global — Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Austrália — responderam por 77,5% das exportações brasileiras de café verde em 2025, uma fatia ainda robusta, mas em declínio: em 2015, esse grupo representava 87%. São mercados maduros, onde o consumo per capita já é elevado e o espaço para expansão é limitado.
No café solúvel, o Brasil exportou cerca de US$ 1,12 bilhão em 2025. Os Estados Unidos lideraram as compras, com US$ 190 milhões, o equivalente a 17,1% do total, alta de 10% em relação a 2024. A Rússia veio em seguida, com US$ 78,6 milhões (7,0% do total), crescimento expressivo de 46,5% no ano. Polônia (US$ 56,9 milhões) e Japão (US$ 48,4 milhões) também registraram avanços superiores a 35%.

O café chegou ao Brasil em 1727, trazido da Guiana Francesa por Francisco de Melo Palheta. As primeiras lavouras comerciais se estabeleceram no Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro e São Paulo, sob o regime da escravidão. A partir da década de 1870, a produção explodiu no oeste paulista — dessa vez com trabalho livre e forte participação de imigrantes italianos — e tornou-se o primeiro grande produto de exportação do Brasil sob regime assalariado. Os lucros do café financiaram ferrovias, modernizaram o porto de Santos e lançaram as bases da industrialização paulista.
As perspectivas de crescimento do consumo global de café se concentram hoje principalmente no Sul Global. China, Rússia, Turquia e outros países emergentes responderam por 22,5% das exportações brasileiras de café em 2025, contra apenas 13% em 2015. O crescimento foi de 42% em um único ano e de 363% na década — ritmo quase três vezes superior ao dos mercados tradicionais.
Os números individuais impressionam. Em relação a dez anos antes, as exportações brasileiras cresceram 3.430% para a China, 1.189% para a Arábia Saudita, 767% para os Emirados Árabes, 588% para a Rússia, 546% para a Malásia, 497% para Taiwan e 403% para a Turquia. São mercados que estão descobrindo o café agora.
Há um dado revelador: em 2025, Colômbia, México e Vietnã registraram aumentos explosivos nas importações de café brasileiro. O movimento sugere triangulação comercial — diante das tarifas elevadas impostas pelos Estados Unidos, importadores americanos passaram a comprar café brasileiro via terceiros países, que adquirem o grão do Brasil e o reexportam, contornando o tarifaço insano de Donald Trump.
A China é o grande prêmio. O consumo per capita chinês é de apenas 0,26 kg por ano — 24 vezes menor que os 6,26 kg do Brasil. Se os chineses bebessem café na mesma proporção, a demanda chegaria a 144 milhões de sacas anuais, quase a produção mundial inteira.
O país já dá sinais claros de despertar. Xangai tornou-se a cidade com mais cafeterias no mundo, com 9.115 estabelecimentos em 2024, superando Londres, Nova York e Tóquio. A rede chinesa Luckin Coffee encerrou o ano com mais de 30 mil lojas, ultrapassando a Starbucks. O café deixou de ser curiosidade de expatriados para virar hábito urbano.
Segundo dados da alfândega chinesa, as suas importações de café verde somaram US$ 1,46 bilhão no acumulado de 12 meses até novembro de 2025, alta de 72% em relação ao período anterior.

A Etiópia tornou-se o principal fornecedor da China, com 32,1% do total importado, ligeiramente à frente do Brasil, com 31,1%. As vendas etíopes cresceram 328% em um ano, enquanto as brasileiras avançaram 48,6%. Há, porém, um limite físico para esse avanço: a Etiópia produz cerca de 8 milhões de sacas por ano, contra 63 milhões do Brasil. Se o consumo chinês acelerar de forma consistente, o crescimento exigirá necessariamente o grão brasileiro.
O café possui uma característica singular: funciona como produto-âncora, capaz de abrir mercados urbanos muito mais amplos. Cafeterias não vendem apenas café. Vendem alimentos, bebidas, espaço, tempo, conforto, sociabilidade e serviços — mesas, cadeiras, banheiros, Wi-Fi, ambientes climatizados. O café é a porta de entrada desse ecossistema.
O mercado global de café movimenta entre US$ 270 bilhões e US$ 486 bilhões por ano, dependendo da metodologia. As exportações mundiais de café verde, torrado e solúvel somaram US$ 51 bilhões em 2024. A diferença não indica perda, mas a existência de cadeias de serviços e consumo que se organizam em torno da bebida.
A Luckin Coffee assinou contratos de US$ 2,5 bilhões para comprar café brasileiro até 2029. Em dezembro de 2025, a marca “Café do Brasil” estampou 400 milhões de copos vendidos nas lojas da rede — cerca de 14 milhões por dia.
A produção mundial de café na safra 2024/25 foi de 175 milhões de sacas, segundo o USDA. O Brasil domina os dois principais segmentos — 44% do arábica mundial e 28% do robusta — e respondeu por 37% da produção global. Além de maior produtor e exportador, é o segundo maior consumidor mundial em volume, com mercado interno de 22 milhões de sacas por ano. Em consumo per capita, porém, o Brasil supera o tio Sam: 6,26 kg por habitante, contra 4,9 kg nos Estados Unidos.
Do ponto de vista social, o café distribui renda como poucas culturas. No Brasil, são 287 mil produtores em 1.900 municípios, numa área de 1,9 milhão de hectares. Cerca de 78% são agricultores familiares. No mundo, 25 milhões de famílias vivem do café — quase todas em pequenas propriedades.
Por trás desses números há mais de um século de ciência aplicada ao campo. A agricultura moderna não é atraso: é indústria a céu aberto. O café brasileiro carrega décadas de pesquisa, conhecimento e tecnologia. E, à medida que o Sul Global passa a beber mais café, o setor tende a gerar ainda mais renda, emprego e estabilidade social, sobretudo nas áreas rurais do país.


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