A morte do enfermeiro Alex Pretti durante uma ação de agentes federais de imigração em Minneapolis levou o governo do presidente Donald Trump a abandonar, em poucas horas, a estratégia de confronto direto que costuma adotar diante de crises políticas. O recuo ocorreu à medida que imagens do episódio passaram a circular amplamente nas redes sociais, enfraquecendo a versão inicial apresentada por autoridades federais e ampliando o desgaste público da ofensiva migratória conduzida pela Casa Branca.
Logo após o tiroteio, ocorrido na manhã de sábado (24), integrantes do governo classificaram Pretti, de 37 anos, como uma ameaça violenta. Autoridades do Departamento de Segurança Interna, da Patrulha da Fronteira e assessores próximos ao presidente afirmaram que o enfermeiro pretendia causar danos e chegou a ser descrito como um “terrorista doméstico” e um “aspirante a assassino”. Essas declarações, no entanto, começaram a perder sustentação menos de 24 horas depois, quando vídeos gravados por testemunhas mostraram Pretti desarmado, filmando a ação dos agentes e tentando ajudar uma mulher que havia sido derrubada durante a abordagem.
Diante da repercussão das imagens e da reação negativa da opinião pública, o discurso oficial foi gradualmente alterado. A Casa Branca passou a falar em investigação completa do caso, reduziu o foco sobre a conduta da vítima e deslocou a responsabilidade política para o Partido Democrata. O próprio presidente passou a tratar o episódio como “trágico” e atribuiu o ambiente de tensão ao que chamou de caos provocado por administrações democratas.
A mudança de tom contrastou com a postura adotada semanas antes, quando outra moradora de Minneapolis, Renee Good, também cidadã americana, foi morta a tiros por um agente federal durante uma operação do ICE. Na ocasião, o governo sustentou que ela teria usado o veículo como arma contra os agentes, versão igualmente contestada por vídeos, autoridades locais e familiares.
No caso de Pretti, a contestação foi ainda mais imediata. Análises realizadas por jornalistas e por equipes independentes de verificação indicaram que ele não segurava nenhuma arma no momento em que foi imobilizado. Embora o Departamento de Segurança Interna afirme que o enfermeiro possuía uma pistola e carregadores, imagens disponíveis não mostram o objeto durante a ação. Pela legislação de Minnesota, o porte oculto de arma é permitido mediante autorização, o que adicionou mais complexidade ao debate público.
A reação das autoridades locais e de parte do próprio Partido Republicano contribuiu para o isolamento inicial do governo. O chefe da polícia de Minneapolis afirmou que o episódio não é sustentável do ponto de vista da segurança pública, enquanto governadores e parlamentares republicanos classificaram a condução federal como falha, precipitada ou excessivamente agressiva. Parlamentares no Congresso anunciaram a intenção de abrir audiências para apurar o ocorrido.
Nesse contexto, Trump anunciou o envio de Tom Homan, conhecido como o “czar da fronteira”, para coordenar a atuação federal em Minnesota. Considerado mais experiente e menos retórico do que outros integrantes do governo envolvidos na crise, Homan foi apresentado pelo presidente como alguém “duro, mas justo”, em uma tentativa de transmitir maior controle político da situação. A nomeação foi interpretada por autoridades estaduais como um possível canal de diálogo, ainda que sem sinalização clara de mudança na política migratória.
A inflexão discursiva ocorre em um momento de deterioração dos índices de apoio à política de imigração do governo. Pesquisas recentes indicam que a maioria dos americanos considera que o ICE tem sido excessivamente rigoroso em suas operações e desaprova a forma como Trump conduz o tema, um dos pilares de sua campanha vitoriosa em 2024.
Enquanto isso, democratas no Congresso ameaçam bloquear recursos para o Departamento de Segurança Interna até que haja maior controle sobre as ações do ICE, o que pode levar a uma nova paralisação parcial do governo. A estratégia, porém, envolve riscos políticos, já que imigração e segurança pública são áreas em que o partido costuma registrar desempenho mais fraco junto ao eleitorado.
Entre pressões populares, críticas bipartidárias e a proximidade de impasses legislativos, o governo Trump tenta recalibrar sua resposta ao episódio de Minneapolis. Em jogo está não apenas a condução imediata da crise, mas a percepção pública de uma política migratória que se tornou central para o presidente — e que agora enfrenta resistência crescente mesmo entre aliados.


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