Inflação de alimentos cai para 1% em 12 meses

Helio Montferre/Ipea

Tenho defendido a tese de que a inflação de alimentos funciona, na prática, como um termômetro da aprovação do governo.

Quando o preço da comida cai, o humor social melhora. Quando sobe, a rejeição aparece rápido. Os dados mais recentes nos ajudam a observar esses movimentos, que poderão ser testados mais uma vez quando saírem as próximas pesquisas de aprovação.

O IPCA-15 divulgado pelo IBGE em 27 de janeiro mostrou que a inflação geral em doze meses ficou em 4,5%, exatamente no teto da meta. Trata-se de um patamar controlado. No dado mensal, a inflação foi de 0,20% em janeiro, abaixo dos 0,25% registrados em dezembro. É uma inflação baixa. Se esse ritmo mensal de 0,20% fosse mantido ao longo de um ano, a inflação acumulada em doze meses ficaria em torno de 2,4%.

É nesse contexto de inflação geral sob controle que ganha relevância o comportamento dos preços dos alimentos.

Em janeiro, a inflação de alimentos em domicílio fechou em 1% no acumulado de doze meses, o menor nível em muitos anos. Alimentos em domicílio são os produtos comprados no supermercado e consumidos em casa, em contraposição à alimentação fora do domicílio, que inclui refeições feitas em restaurantes, bares e lanchonetes.

Tão importante quanto o nível é a trajetória. A inflação de alimentos em domicílio vem caindo de forma contínua desde agosto de 2025, mês após mês, sem interrupção. No fim de 2024, esse indicador ainda estava em 8,7%. Ao longo de 2025, a queda foi lenta no início, mas se acelerou a partir do segundo semestre. O resultado atual não decorre de um item isolado, mas de uma desaceleração disseminada nos alimentos consumidos pelas famílias.

Esse movimento contrasta com o período anterior. Entre 2021 e 2023, a inflação de alimentos permaneceu elevada por quase dois anos, oscilando entre 10% e 20%, com pico de 18% em janeiro de 2021 e encerrando 2022 ainda em torno de 15%. Houve um breve alívio no fim de 2023, mas o processo atual é distinto pela duração e pela consistência.

A desaceleração também aparece em outros preços relevantes. Combustíveis contribuíram para o alívio inflacionário. A gasolina acumula inflação baixa em doze meses, e o óleo diesel registra variação negativa. A decisão recente do governo de reduzir preços na Petrobras tende a reforçar esse movimento nos próximos meses.

Há, contudo, um ponto de atenção importante: a energia elétrica residencial. Embora o preço tenha recuado nos últimos meses, o acumulado em doze meses segue elevado, acima de 28%, em razão de reajustes concentrados em poucos meses de 2025. No verão, o uso de ar-condicionado e ventiladores eleva significativamente o consumo de energia, aumentando a pressão sobre o orçamento das famílias.

Por isso, considero que o governo deveria ser mais ousado em relação à energia solar. O Brasil tem alto potencial de geração, mas os painéis fotovoltaicos seguem onerados por tarifas de importação que chegaram a 25%, o que encarece o acesso a essa tecnologia. Reduzir essas tarifas e estruturar um programa de financiamento, em parceria com os bancos públicos, permitiria que famílias instalassem os sistemas e os pagassem com a própria economia gerada na conta de luz.

Um programa desse tipo seria especialmente bem-vindo à classe média, que não se beneficia dos descontos tarifários concedidos a famílias de muito baixo consumo e, ao mesmo tempo, apresenta gasto maior com eletricidade em função do seu padrão de vida. A difusão desses sistemas ajudaria a reduzir a carga sobre o sistema elétrico, liberando energia para atividades produtivas e para o desenvolvimento do país.

Para que a política seja eficaz, é importante também investir no desenvolvimento de baterias, permitindo que a energia gerada durante o dia possa ser utilizada à noite, quando não há sol.

No detalhamento dos alimentos, a desaceleração é clara. O azeite de oliva, que havia registrado forte alta, apresenta inflação negativa superior a 20%. O arroz segue em queda, com inflação negativa próxima de 30% em doze meses. Ovos, frango inteiro, tilápia e cortes bovinos populares operam próximos da estabilidade ou em terreno negativo. Produtos que haviam pressionado fortemente o orçamento das famílias voltaram a patamares mais baixos.

O efeito econômico é direto. Famílias de baixa renda destinam parcela maior do orçamento à alimentação. Quando a inflação da comida cai, o poder de compra melhora imediatamente. Programas sociais e o salário mínimo, corrigidos pela inflação geral, passam a render mais no supermercado quando os alimentos sobem menos que o índice agregado.

Há também fatores estruturais reforçando esse cenário. As estimativas de safra do IBGE e da Conab apontam novo recorde de produção agrícola, o que tende a manter a inflação de alimentos sob controle. O recuo do dólar, para a faixa de 5,18 reais, reduz pressões sobre preços dolarizados, como commodities e energia.

Com a inflação sob controle, abre-se espaço para a redução dos juros. A queda dos juros é condição necessária para enfrentar o elevado endividamento das famílias e sustentar a recuperação do consumo.

Confira os gráficos.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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