Irã vê avanço inicial em negociações indiretas com os EUA mediadas por Omã
As negociações indiretas entre Irã e Estados Unidos, realizadas nesta sexta-feira em Omã, marcaram um raro momento de distensão em um cenário internacional dominado por conflitos, sanções e ameaças militares. Para Teerã, o saldo inicial foi positivo. O principal diplomata iraniano classificou o encontro como um “bom começo”, indicando que, apesar das profundas divergências entre os dois países, ainda existe espaço para a diplomacia.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, falou diretamente de Mascate em uma entrevista ao vivo à televisão estatal iraniana. Segundo ele, as conversas ocorreram em várias rodadas e se concentraram, sobretudo, na construção de uma base para negociações futuras. O diplomata ressaltou, no entanto, que agora será necessário levar os resultados aos respectivos líderes políticos antes de qualquer avanço concreto.
Omã volta a atuar como ponte diplomática
Omã desempenhou novamente o papel de mediador entre Washington e Teerã, função que o sultanato vem assumindo há anos em momentos de crise. Nesta sexta-feira, o país facilitou negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano, em um esforço claro para reduzir tensões que se agravaram após ataques militares e repressões internas no Irã.
O contexto é delicado. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares iranianas durante a guerra de 12 dias travada entre Israel e Irã, em junho. Ao mesmo tempo, o governo iraniano respondeu com uma repressão violenta a protestos em várias regiões do país, aprofundando o isolamento internacional da República Islâmica.
A diplomacia discreta de Omã ganhou visibilidade quando jornalistas da Associated Press observaram autoridades iranianas e americanas visitando separadamente um palácio nos arredores de Mascate. Ambos os lados se reuniram com o ministro das Relações Exteriores do sultanato, Badr al-Busaidi, em encontros distintos, mas coordenados.
Palácio próximo ao aeroporto concentra encontros sensíveis
O local escolhido para as negociações não foi aleatório. O palácio, situado perto do aeroporto internacional de Mascate, já havia sediado encontros semelhantes em 2025. Na sexta-feira, jornalistas testemunharam a chegada de autoridades iranianas ao local e, posteriormente, o retorno do grupo ao hotel onde estavam hospedadas.
Somente após a saída do comboio iraniano, veículos americanos entraram no recinto. Entre eles, um SUV com a bandeira dos Estados Unidos chamou atenção. O grupo permaneceu no palácio por cerca de uma hora e meia. Em seguida, o espaço ficou vazio, levantando dúvidas sobre se aquela rodada de conversas havia sido concluída ou apenas suspensa.
Mais tarde, o Ministério das Relações Exteriores de Omã divulgou um comunicado oficial confirmando as reuniões separadas de al-Busaidi com Araghchi, com o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e com Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump.
Presença militar americana chama atenção
Um detalhe incomum marcou essa rodada de negociações. Imagens divulgadas pela agência estatal de notícias de Omã mostraram que o almirante da Marinha dos EUA, Brad Cooper, chefe do Comando Central das Forças Armadas americanas, também participou das reuniões. A presença de uma autoridade militar de alto escalão não havia ocorrido em encontros anteriores e sinaliza o peso do fator militar nas discussões.
No comunicado oficial, Omã afirmou que “as consultas se concentraram em preparar as circunstâncias adequadas para a retomada das negociações diplomáticas e técnicas, assegurando a importância dessas negociações, tendo em vista a determinação das partes em garantir o sucesso na conquista de segurança e estabilidade sustentáveis”.
Apesar disso, nem Washington nem Teerã divulgaram relatos próprios sobre o conteúdo das conversas, mantendo o tradicional clima de sigilo que envolve esse tipo de negociação.
Escalada recente pressiona por diálogo
As conversas em Omã ocorrem meses depois de uma interrupção abrupta do diálogo, causada pela guerra de junho entre Israel e Irã. Durante o conflito, ataques americanos atingiram instalações nucleares iranianas, possivelmente destruindo centrífugas usadas para enriquecer urânio em níveis próximos ao necessário para armas nucleares. Além disso, bombardeios israelenses enfraqueceram as defesas aéreas do Irã e atingiram seu arsenal de mísseis balísticos.
Autoridades americanas avaliam que o Irã atravessa um momento de fragilidade inédita desde a Revolução Islâmica de 1979. Para o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, os protestos em massa do mês passado representaram o maior desafio ao governo do aiatolá Ali Khamenei, hoje com 86 anos.
A resposta do regime foi dura. A repressão deixou milhares de mortos e, segundo relatos, levou à prisão de dezenas de milhares de pessoas. Esse cenário, por sua vez, provocou novas ameaças militares do presidente americano Donald Trump, ampliando o risco de um confronto direto.
Risco regional preocupa países do Golfo
Mesmo com a demonstração de força militar dos Estados Unidos na região — que inclui o porta-aviões USS Abraham Lincoln, navios de guerra e caças —, especialistas e governos regionais temem as consequências de um novo ataque. As monarquias árabes do Golfo avaliam que uma ofensiva poderia desencadear uma guerra regional de grandes proporções.
O temor não é abstrato. Recentemente, forças americanas abateram um drone iraniano próximo ao USS Lincoln. Além disso, o Irã tentou interceptar um navio com bandeira americana no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo.
Bastidores revelam cautela e desconfiança
Mesmo antes do início das negociações, os sinais de tensão eram visíveis. Na quinta-feira, autoridades de fronteira de Omã demonstraram preocupação especial com a entrada de pessoas portando câmeras no país. O clima era de vigilância e discrição absoluta.
Do lado iraniano, Araghchi deixou clara a postura cautelosa de Teerã ao escrever no X que “o Irã entra na diplomacia de olhos abertos e com uma memória sólida do ano passado”. Ele reforçou: “Os compromissos precisam ser honrados. Igualdade de condições, respeito mútuo e interesse mútuo não são retórica — são imprescindíveis e os pilares de um acordo duradouro.”
Ali Shamkhani, um dos principais assessores do líder supremo, também manifestou apoio ao chanceler. Para ele, Araghchi “é um negociador habilidoso, estratégico e confiável nos mais altos níveis de tomada de decisão e inteligência militar”.
Programa nuclear segue no centro do impasse
Ainda não está claro até onde o Irã está disposto a ceder. Teerã insiste que as conversas se limitem ao seu programa nuclear. No entanto, segundo a Al Jazeera, diplomatas do Egito, da Turquia e do Catar apresentaram uma proposta que incluiria a suspensão do enriquecimento de urânio por três anos, o envio do material altamente enriquecido para fora do país e o compromisso de “não iniciar o uso de mísseis balísticos”.
A Rússia teria sinalizado disposição para receber o urânio. Mesmo assim, Shamkhani afirmou que encerrar o programa nuclear ou enviar o material para fora do Irã está fora de questão.
Do lado americano, Rubio defende uma abordagem mais ampla. Para ele, as negociações precisam incluir todas essas questões. “Não tenho certeza se você conseguirá chegar a um acordo com esses caras, mas vamos tentar descobrir”, afirmou.