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Humanoides dançarinos da China chamam atenção do mundo

Na noite de 4 de fevereiro, diante de 79% da audiência televisiva da China, robôs humanoides brandiram espadas, executaram sequências de kungfu e dançaram em sincronia com crianças — e nenhum caiu sem se levantar sozinho. O palco era o Gala de Ano Novo Lunar da CCTV, o programa mais assistido da China, comparável ao […]

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Na noite de 4 de fevereiro, diante de 79% da audiência televisiva da China, robôs humanoides brandiram espadas, executaram sequências de kungfu e dançaram em sincronia com crianças — e nenhum caiu sem se levantar sozinho.

O palco era o Gala de Ano Novo Lunar da CCTV, o programa mais assistido da China, comparável ao Super Bowl americano em audiência e impacto cultural.

O espetáculo, desta vez, não foi apenas entretenimento: foi a declaração mais eloquente que Pequim já fez sobre onde pretende estar na próxima rodada da disputa tecnológica global.

Quatro startups de robótica humanoides — Unitree Robotics, Galbot, Noetix e MagicLab — apresentaram seus produtos nos três primeiros esquetes do programa. O ápice foi uma demonstração de artes marciais em que mais de uma dúzia de robôs Unitree executaram sequências coreografadas de boxe bêbado, um estilo caracterizado por movimentos cambaleantes e quedas voluntárias — exigindo dos sistemas um nível sofisticado de coordenação múltipla e recuperação autônoma de falhas.

O setor não vive apenas de holofotes: as maiores empresas do segmento, incluindo AgiBot e Unitree, preparam ofertas públicas iniciais para este ano, enquanto startups de inteligência artificial lançam novos modelos durante o feriado de nove dias do Ano Novo Lunar. O analista Georg Stieler, diretor-gerente para a Ásia da consultoria de tecnologia homônima, resumiu a lógica do evento com precisão cirúrgica: “O que distingue o Gala de eventos comparáveis em outros países é a diretividade do pipeline — da política industrial ao espetáculo em horário nobre.”

Não é retórica vazia. Empresas que aparecem no palco do Gala recebem recompensas tangíveis: contratos governamentais, atenção de investidores e acesso a mercados.

O fundador da Unitree se reuniu com o presidente Xi Jinping semanas após o Gala do ano passado, num simpósio tecnológico de alto nível — o primeiro do gênero desde 2018. Xi encontrou cinco fundadores de startups de robótica nos últimos doze meses, número comparável ao de empresários de veículos elétricos e semicondutores recebidos no mesmo período — visibilidade incomum para um setor ainda nascente.

Os números do mercado confirmam que a China não está apenas exibindo músculo: respondeu por 90% dos cerca de 13.000 robôs humanoides embarcados globalmente no ano passado, segundo a firma de pesquisa Omdia, muito à frente de rivais americanos como o Optimus, da Tesla. O Morgan Stanley projeta que as vendas chinesas de humanoides mais que dobrarão este ano, chegando a 28.000 unidades.

Elon Musk, que pivotou a Tesla em direção à IA incorporada e ao seu humanoide carro-chefe, reconheceu o adversário sem rodeios: “As pessoas fora da China subestimam a China, mas a China chuta traseiros em outro nível”, declarou no mês passado.

Por trás da espetacularização — robôs correndo maratonas, executando backflips e dançando ao som de “We Are Made in China” — há uma aposta estratégica precisa: a China identificou na robótica e na inteligência artificial o eixo da sua política de manufatura de próxima geração, calculando que os ganhos de produtividade da automação compensarão as pressões de uma força de trabalho em acelerado envelhecimento.

“Os humanoides condensam muitos dos pontos fortes da China numa única narrativa: capacidade de IA, cadeia de suprimentos de hardware e ambição manufatureira”, disse o analista de tecnologia Poe Zhao, baseado em Pequim. “Num mercado ainda em formação, a atenção se torna um recurso.”

E a China, como ficou evidente na noite do Gala, sabe exatamente como capturá-la.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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