Trump quer guerra!

Vista aérea do Grupo de Ataque do Porta-Aviões USS Abraham Lincoln em operação no Mar Arábico, escoltado por dois navios de reabastecimento militar e duas embarcações da Guarda Costeira dos EUA, enquanto caças da Ala Aérea Embarcada Nove realizavam operações de voo sobre o Mar Arábico, em 6 de fevereiro de 2026. (Foto: US CENTCOM/Divulgação/Anadolu via Getty Images)

Segundo reportagem do site independente Drop Site, assinada por Jeremy Scahill e Murtaza Hussain, Washington conduz um reposicionamento militar de grande escala no Oriente Médio — um acúmulo de aeronaves e navios de guerra colocado a distância de ataque do Irã — ao mesmo tempo em que mantém, em paralelo, conversas diplomáticas que parecem operar sob a sombra de um ultimato. O movimento ocorre às vésperas do Ramadã e é descrito como o maior reforço de poder de fogo na região desde a campanha de bombardeio de 12 dias autorizada por Donald Trump em junho do ano anterior, que deixou mais de mil mortos, segundo estimativas citadas pelos repórteres.

A engrenagem diplomática continua girando, mas as mensagens públicas e os relatos de bastidores apontam para outra direção. Após a rodada de negociações indiretas em Genebra, o vice-presidente JD Vance afirmou que “o presidente estabeleceu algumas linhas vermelhas” que Teerã “ainda não está disposto a reconhecer e negociar”. Ao mesmo tempo, Vance sinalizou que Trump diz preferir a via diplomática, mas que “reserva-se o direito” de decretar quando ela chegou ao fim. No relato do Drop Site, um ex-alto funcionário da inteligência dos EUA — hoje atuando como conselheiro informal do governo — estimou, com base em conversas com autoridades em exercício, uma probabilidade de 80% a 90% de ataques americanos “dentro de algumas semanas”.

Os elementos do reforço descrito na reportagem não sugerem apenas “dissuasão” ou um gesto simbólico. O texto detalha o estacionamento de dezenas de aeronaves numa base na Jordânia, incluindo F-15, F-35, aviões de guerra eletrônica EA-18G Growler e aeronaves de ataque ao solo A-10C — apesar de declarações recentes do governo jordaniano de que seu território não serviria de plataforma para atacar o Irã. Paralelamente, rastreadores independentes de voo observaram o trânsito de mais caças para a região — F-35, F-22 e F-16 — além de um fluxo expressivo de aeronaves de reabastecimento aéreo partindo do território continental dos EUA. Na avaliação de fontes ouvidas, o pacote logístico e ofensivo se assemelha à arquitetura necessária para uma campanha prolongada, não a um único ataque pontual.

No mar, o Drop Site descreve a formação de dois grupos de ataque de porta-aviões, cada um composto por um porta-aviões, destróieres com mísseis guiados (incluindo capacidade de disparo de Tomahawk) e ao menos um submarino, além de unidades adicionais posicionadas para defesa contra mísseis balísticos. O texto menciona ainda mais de 30 mil militares dos EUA na região e a presença de baterias antimísseis Patriot e THAAD distribuídas em bases regionais. O USS Abraham Lincoln opera na área desde o fim de janeiro com uma ala aérea estimada entre 60 e 70 aeronaves. E o USS Gerald R. Ford, descrito como o maior e mais avançado porta-aviões do mundo, foi redirecionado da Venezuela para o Oriente Médio — um deslocamento que, para a ex-funcionária do Pentágono Jasmine El-Gamal, não combina com uma exibição rotineira: “não se trata apenas de uma demonstração de força”, disse ela, argumentando que o segundo porta-aviões indica intenção de ir além do teatro político.

Trump, por sua vez, procurou enquadrar o envio dessa “armada” como instrumento de pressão direta nas negociações. Em declarações citadas na reportagem, o presidente resumiu o recado de forma crua: “Caso não cheguemos a um acordo, precisaremos dela”. A frase, colocada ao lado do mapeamento de ativos militares, funciona como senha do momento: ou Teerã cede nos termos exigidos, ou a Casa Branca sinaliza que já prepara a alternativa militar — agora com musculatura reforçada e margem maior para sustentar operações e absorver retaliações.

A reportagem lembra que o histórico recente dá substância ao medo iraniano de uma diplomacia usada como cortina de fumaça. Em junho, segundo o Drop Site, o governo Trump se apoiou no pretexto de novas negociações para lançar um ataque surpresa, realizado por forças americanas e israelenses, contra alvos militares e civis no Irã. A ofensiva matou oficiais de alto escalão — incluindo Mohammad Bagheri, Hossein Salami e Amir Ali Hajizadeh — além de cientistas nucleares, com um total estimado acima de mil mortos, incluindo centenas de civis, e milhares de feridos. Nessa moldura, a retórica do líder supremo Ali Khamenei aparece como uma recusa explícita a aceitar uma negociação com resultado pré-fixado. Ele criticou o que chamou de ultimato travestido de diálogo e ironizou a ameaça naval: um navio de guerra é perigoso, disse, mas “mais perigosa… é a arma que pode afundá-lo”.

Do lado israelense, o texto aponta sinais de preparação para uma guerra possível. Após encontro com Trump em Washington, Benjamin Netanyahu elencou prioridades que vão além do dossiê nuclear: fim do enriquecimento de urânio e solução para as capacidades de mísseis balísticos. Ele afirmou que Trump tenta “esgotar possibilidades” de acordo, mas, ao mesmo tempo, expôs “ceticismo” sobre qualquer pacto. Para El-Gamal, essa ampliação de exigências atinge o núcleo do que resta como dissuasão iraniana: “neste momento, o programa de mísseis balísticos é essencialmente tudo o que resta ao Irã” para manter postura defensiva e projeção regional. Na leitura dela, exigir que Teerã abra mão disso equivale a pedir que o Estado aceite a própria amputação estratégica — condição pouco compatível com concessão voluntária.

A reportagem também costura o bastidor do planejamento militar americano com uma comparação incômoda. O tenente-coronel reformado Daniel Davis disse que o acúmulo “lembra o que eu previa antes da guerra do Iraque em 2003” e sustentou que “não se reúne esse tipo de poder” apenas para mandar recado. Davis descreve um provável roteiro: ataques iniciais contra defesas aéreas, comando e controle, comunicações, liderança da Guarda Revolucionária e capacidades ofensivas de mísseis e ativos navais — com possibilidade de ações simultâneas para atingir líderes políticos, numa lógica de “decapitação” que aposta num levante interno. O problema, alerta ele, é a falta de um plano B com tropas terrestres: se o “modelo Líbia” falhar — derrubar do alto esperando colapso por baixo —, “e aí, o que farão?”.

O Drop Site acrescenta que a pressão não é apenas militar: é econômica e, segundo autoridades citadas, deliberadamente desenhada para produzir instabilidade social. Em depoimento no Senado, o secretário do Tesouro Scott Bessent descreveu uma política voltada a criar “escassez de dólares” no país, enfraquecer a moeda e empurrar a população para as ruas. A reportagem liga esse discurso a protestos iniciados no fim de dezembro, que se tornaram violentos em janeiro e culminaram em mortes em massa. Enquanto organizações de direitos humanos apontaram uso desproporcional de força contra manifestantes, Teerã descreveu os episódios como terrorismo organizado por estrangeiros. Trump, segundo o texto, chegou a conclamar iranianos a tomar instituições estatais, prometendo apoio a uma insurreição — combinação explosiva quando emparelhada ao reforço militar em curso.

Em meio a essa escalada, o Irã volta a acenar com seu trunfo geoestratégico mais temido: o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e aproximadamente um quinto do comércio global de gás natural liquefeito, segundo os dados citados. A Marinha da Guarda Revolucionária iniciou exercícios com munição real no estreito, e analistas próximos ao governo iraniano falaram em opções como minagem, afundamento de navios e ataques com mísseis. A reportagem ressalta ainda uma mudança de regra não escrita: em ataques anteriores, Teerã retaliou de forma calibrada para evitar mortes de militares americanos e civis israelenses, em coreografias informais que ajudavam a conter a espiral. Desde janeiro, porém, autoridades iranianas indicam que essa calibragem acabou — e Davis avisa que Washington pode estar subestimando a capacidade de mísseis do país após a experiência da “Guerra dos Doze Dias”, quando projéteis iranianos atravessaram defesas antimísseis avançadas. No pano de fundo, a pergunta que atravessa o texto é simples e brutal: as conversas seguem, mas o palco já está montado — e, como disse El-Gamal, “isto não é um ensaio geral”.

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