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Caça chinês de quinta geração ameaça hegemonia militar aérea dos EUA

A corrida tecnológica entre China e Estados Unidos já não se limita à esfera civil. Nos últimos meses, empresas chinesas voltaram a dar sinais de que conseguem competir na ponta da inteligência artificial com modelos mais baratos para operar — enquanto Washington reforça controles de exportação e, ao mesmo tempo, lida com relatos de que […]

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A corrida tecnológica entre China e Estados Unidos já não se limita à esfera civil. Nos últimos meses, empresas chinesas voltaram a dar sinais de que conseguem competir na ponta da inteligência artificial com modelos mais baratos para operar — enquanto Washington reforça controles de exportação e, ao mesmo tempo, lida com relatos de que chips avançados continuam chegando à China por rotas indiretas. (Reuters)

Esse pano de fundo ajuda a entender por que um tema aparentemente “de feira aeronáutica” — a tentativa chinesa de encontrar compradores para o J-35/J-35A, seu caça furtivo de quinta geração — tem peso geopolítico. A tese é simples: se a China conseguir “normalizar” a exportação de um caça de quinta geração, ela começa a encostar naquilo que ainda funciona como barreira tecnológica e política dos EUA: o ecossistema militar de ponta, amarrado a software, armas, manutenção, treinamento, doutrina e alianças.

A reportagem do South China Morning Post de 21 de fevereiro de 2026, feita a partir do Singapore Airshow, mostra analistas céticos quanto ao tamanho do mercado para o J-35 diante do F-35 americano e de alternativas mais baratas (como FA-50, Gripen e o próprio KF-21 sul-coreano). (South China Morning Post)

O que significa “quinta geração” (e por que isso importa)

“Geração” não é um selo oficial universal. É um jeito de descrever saltos de tecnologia e doutrina na aviação de combate. A classificação mais usada costuma seguir esta lógica geral: (South China Morning Post)

  • 1ª geração (anos 1940–início dos 1950): primeiros jatos, aviônicos simples, foco em canhões.
  • 2ª geração (1950–1960): consolidação do supersônico e do radar; mísseis ar-ar começam a entrar.
  • 3ª geração (1960–início dos 1970): melhor integração de sensores e armas; salto incremental em radar e eletrônica.
  • 4ª geração (1970–1990): grande avanço em manobrabilidade, confiabilidade, guerra eletrônica e capacidade multiuso.
  • 4,5 geração (1990–hoje): 4ª geração “turbinada” com radar AESA, datalinks, eletrônica muito superior e algum tratamento de assinatura, mas sem “stealth de projeto” típico de quinta geração.
  • 5ª geração (2000–hoje): o pacote clássico combina stealth de projeto (com armas em baia interna), fusão de sensores, operações em rede e aviônicos integrados — a ideia é “ver primeiro, decidir primeiro, engajar primeiro”.

É por isso que quinta geração não é só “um avião mais moderno”: é um nó de guerra em rede. A aeronave passa a atuar como sensor, plataforma de ataque e terminal de compartilhamento de dados — algo que muda o jogo em cenários de defesa aérea moderna.

Quem tem os caças mais modernos do mundo hoje

No clube dos caças furtivos de quinta geração em operação (com diferentes graus de maturidade), aparecem três polos:

  • Estados Unidos: F-22 (foco em superioridade aérea) e F-35 (multimissão, com arquitetura de sensores/rede como pilar). (Reuters)
  • China: J-20 (não exportável) e J-35/J-35A, apresentado como candidato a exportação. (South China Morning Post)
  • Rússia: Su-57, com escala e inserção internacional bem menores. (Business Insider)

Há ainda a “franja” de transição: o KF-21 da Coreia do Sul, frequentemente tratado como alternativa “intermediária” com planos de evolução para mais furtividade e recursos. (South China Morning Post)

Por que o F-35 virou padrão e por que isso trava o J-35

O F-35 não é apenas uma aeronave; é um programa global. O resultado é escala industrial, padronização e um ecossistema de sustentação que amarra o comprador ao sistema ocidental de armas, sensores e interoperabilidade.

Esse peso aparece em números: em 7 de janeiro de 2026, a Lockheed informou que as entregas do F-35 em 2025 bateram recorde, com 191 aeronaves. (Reuters)

E há um fator estrutural maior. No comércio internacional de armamentos, os Estados Unidos são o maior exportador, com 43% do total global no período 2020–2024, segundo o SIPRI. (Reuters)
Isso não é “só caças”, mas ajuda a explicar a vantagem americana: vender equipamento militar de ponta normalmente significa vender aliança, doutrina e integração.

É justamente aí que o J-35 encontra sua muralha: muitos potenciais clientes asiáticos que teriam dinheiro e necessidade são, ao mesmo tempo, parceiros ou aliados dos EUA. Para eles, o F-35 tende a ser a escolha “natural”, ou então um caça 4,5 geração mais barato e suficiente.

Onde o J-35 pode encaixar: o “mercado político” dos não-alinhados (e o Paquistão)

Na matéria do SCMP, a ideia recorrente é que o J-35 pode atrair quem:

  1. não tem acesso ao F-35,
  2. quer reduzir dependência dos EUA,
  3. ou não quer pagar o custo de ciclo de vida do F-35. (South China Morning Post)

O problema é que, no Sudeste Asiático, muitos países preferem alternativas mais baratas, e alguns sequer cogitam comprar de Pequim por rivalidade estratégica. Nesse quadro, analistas apontam um candidato quase obrigatório: Paquistão. (South China Morning Post)

A lógica é consistente com o padrão comercial: o Paquistão já é o maior importador de armas chinesas no conjunto recente citado no debate público, e opera plataformas chinesas como o J-10C e o JF-17 (co-produção). (South China Morning Post)

A vantagem estratégica de um quinto-geração “chinês” para o comprador

Se um país sai de 4ª/4,5ª geração para um 5ª geração, a mudança é menos “acrobacia” e mais:

  • Sobrevivência e penetração: furtividade para reduzir detecção precoce por radares e defesa aérea.
  • Consciência situacional: sensores integrados e fusão de dados para reduzir “névoa de guerra”.
  • Efeito de rede: capacidade de operar como coletor e distribuidor de informação, multiplicando forças.

No papel, isso pode permitir que um comprador menor faça algo que antes era reservado a grandes potências: entrar em ambientes contestados com chances melhores de detectar e engajar alvos antes de ser engajado.

A última barreira não é o avião: é o ecossistema

Aqui a tese fecha. Mesmo que o J-35 seja competitivo como plataforma, exportar quinta geração exige construir um “mundo” ao redor do avião:

  • software e atualizações (ciclo contínuo),
  • cadeia de peças e manutenção,
  • treinamento, simuladores, doutrina,
  • integração com armas e datalinks,
  • e, sobretudo, confiança de que o fornecedor sustenta o produto por décadas.

Os EUA transformaram isso em padrão com o F-35. A China está tentando dar um salto parecido — mas o próprio debate público reconhece que a disputa é tanto política quanto técnica. (South China Morning Post)

Por que isso conversa com a guerra dos chips e da IA

A fronteira tecnológica hoje é uma cadeia: modelos de IA, infraestrutura, chips e fabricação avançada. E nessa cadeia há um ponto sensível: os chips mais avançados seguem altamente concentrados fora dos EUA, especialmente em Taiwan — daí investimentos e reposicionamentos como a expansão anunciada pela TSMC nos Estados Unidos, em março de 2025, para ampliar capacidade de manufatura avançada no Arizona. (pr.tsmc.com)

Quando a China busca exportar um caça furtivo, ela está tentando provar que consegue competir também no setor onde a tecnologia é mais fechada e mais politizada: o complexo militar-industrial de ponta.

O que está em jogo

Se o J-35 ficar restrito a um ou dois clientes (com Paquistão como destino natural), ele será importante regionalmente, mas não “vira o mercado”. Se, porém, a China conseguir transformar o avião em produto exportável com ecossistema, ela cria uma alternativa estratégica ao “pacote americano” — e isso mexe com o mapa de alianças, doutrinas e dependências tecnológicas no Sul Global.

Por enquanto, como resumiu o próprio SCMP a partir do Singapore Airshow, a China está tentando achar compradores num mercado em que a pergunta não é apenas “qual caça é melhor”, mas “a qual rede de poder o comprador quer pertencer”. (South China Morning Post)

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