Cansada das agressões americanas, Alemanha se rede à China

O chanceler alemão Friedrich Merz e o primeiro-ministro chinês Li Qiang participam de uma cerimônia de assinatura no Grande Salão do Povo, em Pequim, China, em 25 de fevereiro de 2026. Foto tirada com um celular. REUTERS/Andreas Rinke.

Friedrich Merz desembarcou em Pequim com um recado claro: a Alemanha quer reorganizar sua relação com a China sem romper a engrenagem que sustenta a maior economia da Europa. Em meio a um mundo mais instável, Berlim testa um reposicionamento estratégico que combina pragmatismo econômico e cálculo geopolítico.

O chanceler levou consigo uma comitiva robusta de empresários, incluindo gigantes do setor automotivo e tecnológico, sinalizando que o eixo central da visita é o comércio. Ao mesmo tempo, cobrou de Pequim menos distorções de mercado, subsídios mais transparentes e condições mais equilibradas de concorrência.

A China respondeu com a retórica do multilateralismo e da defesa do livre-comércio, posicionando-se como porto relativamente previsível em um cenário global turbulento. Pequim sabe que a previsibilidade, hoje, vale quase tanto quanto acesso a mercado.

O pano de fundo é a volta das agressões tarifárias de Donald Trump, somadas a declarações ofensivas e ameaças militares como a ideia de “conquistar” a Groenlândia. Para muitas capitais europeias, inclusive Berlim, a combinação de tarifas, insultos diplomáticos e imprevisibilidade estratégica tornou a dependência exclusiva dos Estados Unidos um risco.

A Alemanha é a terceira maior economia do mundo, com corrente de comércio superior a 3 trilhões de dólares por ano. A China, segunda maior economia global, movimenta mais de 6 trilhões de dólares em exportações e importações combinadas.

No comércio bilateral, a China foi novamente o maior parceiro comercial da Alemanha, com intercâmbio em torno de 250 a 300 bilhões de euros anuais nos últimos anos. Isso representa algo próximo de 7% a 8% de todo o comércio exterior alemão, enquanto para a China a Alemanha responde por cerca de 3% a 4% de seu fluxo comercial total.

Há, porém, um desequilíbrio crescente, com superávits chineses ampliados pela sobrecapacidade industrial e pela competitividade agressiva em setores como veículos elétricos, baterias e equipamentos industriais. Empresas alemãs sentem a pressão tanto no mercado chinês quanto dentro da própria Europa.

Ao mesmo tempo, o mercado consumidor chinês continua sendo estratégico para montadoras como Volkswagen e BMW, que dependem da escala asiática para sustentar investimentos em transição energética e digitalização. A disputa tecnológica, especialmente em semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura verde, torna essa interdependência ainda mais sensível.

Os acordos assinados nesta visita foram modestos, concentrados em clima, transição verde e cooperação setorial, longe de um grande pacto estrutural. Ainda assim, o simbolismo importa mais do que o conteúdo imediato.

Berlim sinaliza que não pretende escolher entre Washington e Pequim, mas ampliar margens de manobra. Em um mundo fraturado por tarifas, disputas tecnológicas e rivalidades estratégicas, a Alemanha aposta na diversificação como seguro contra a instabilidade americana.

O movimento alemão ecoa em outros países do Norte Global que, cansados de choques tarifários e retórica beligerante, buscam reequilibrar suas relações externas. A aproximação com a China não é uma ruptura com os Estados Unidos, mas uma tentativa de reduzir vulnerabilidades em um cenário cada vez mais imprevisível.

No fundo, trata-se de uma disputa por autonomia estratégica. A Alemanha quer continuar ancorada no Ocidente, mas sem ficar refém de seus sobressaltos.

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