China volta a criticar sanções europeias contra Rússia

Mao Ning, porta voz do Ministério de Relações Exteriores da China. 25 fev 2026

A acusação foi direta e a resposta também. Ao ser confrontada com a denúncia de que a China teria realizado testes nucleares, a porta-voz Mao Ning afirmou que a alegação dos Estados Unidos é “inteiramente infundada” e reiterou que Pequim mantém seu compromisso com a moratória global de testes nucleares. A declaração foi dada na coletiva regular do Ministério das Relações Exteriores da China realizada nesta terça-feira, 25 de fevereiro de 2026, em Pequim.

A pergunta, feita pela China Daily, mencionava declarações do secretário adjunto de Estado dos EUA para Controle de Armas, Christopher Yeaw, que acusou a China de conduzir testes nucleares e sugeriu que Washington poderia retomar ensaios “em igualdade de condições” com outros países. Mao respondeu reafirmando o apoio chinês ao Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares e acusando os EUA de tentar criar justificativas para abandonar compromissos de controle de armas, alertando que esse tipo de atitude prejudica a própria credibilidade americana.

A coletiva integra a rotina diplomática chinesa: encontros com a imprensa realizados de segunda a sexta-feira, abertos a veículos nacionais e internacionais, cuja íntegra foi divulgada hoje no site oficial do ministério. Ao longo da sessão, a porta-voz também tratou de sanções, guerra na Ucrânia, relações com a Alemanha, declarações sobre mudanças de regime na América Latina e política de defesa do Japão.

Questionada pela RIA Novosti sobre a ampliação das sanções do Reino Unido contra a Rússia — medidas que incluíram cerca de 250 indivíduos e empresas, entre elas entidades chinesas — Mao Ning afirmou que Pequim se opõe a sanções unilaterais sem base no direito internacional ou autorização do Conselho de Segurança da ONU. Ela deplorou a decisão britânica e declarou que a China tomará as medidas necessárias para defender seus direitos e interesses legítimos, acrescentando que a cooperação normal entre China e Rússia não deve ser afetada.

Em outra pergunta da RIA Novosti, sobre alegações do Serviço de Inteligência Externa russo de que Reino Unido e França estariam preparando a transferência de armas nucleares à Ucrânia, Mao evitou comentar detalhes específicos, mas reforçou que armas nucleares não devem ser usadas e que uma guerra nuclear não deve ser travada. Defendeu ainda que as partes aproveitem o início do diálogo para buscar um acordo de paz abrangente, duradouro e vinculante, com cautela para evitar escaladas.

A DPA perguntou sobre a visita do chanceler alemão Friedrich Merz a Pequim e o fato de ele não ter classificado a China como “rival sistêmico”, ao contrário do governo anterior. Mao respondeu destacando que China e Alemanha são parceiros estratégicos abrangentes, defendendo cooperação baseada em respeito mútuo, igualdade e benefício recíproco.

Já a Nippon TV questionou a flexibilização das regras japonesas para exportação de equipamentos de defesa, agora permitindo a venda de armas letais antes proibidas. Mao manifestou “séria preocupação”, evocou o histórico de agressão do Japão e afirmou que a comunidade internacional deve permanecer em alerta diante de movimentos que, segundo ela, indicam tendências de remilitarização e desafio à ordem internacional do pós-guerra.

Por fim, ao comentar declaração do senador americano Ted Cruz de que os governos da Venezuela, Cuba e Irã poderiam ser substituídos por regimes alinhados a Washington, a porta-voz reiterou a oposição chinesa a qualquer interferência nos assuntos internos de outros países. O conjunto das respostas reafirma a linha central da diplomacia chinesa: defesa da soberania, crítica a sanções e intervenções unilaterais e ênfase na estabilidade estratégica internacional.

Abaixo, a íntegra das perguntas e respostas:


Coletiva regular da porta-voz do ministério das relações exteriores Mao Ning em 25 de fevereiro de 2026

Atualizado: 25 de fevereiro de 2026 17:05

China Daily: Foi noticiado que o secretário adjunto de Estado dos EUA para o Bureau de Controle de Armas e Não Proliferação, Christopher Yeaw, acusou a China de realizar testes nucleares e disse que os EUA voltarão a testar “em igualdade de condições” com outros países. A Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares afirmou em seu site que detectou dois eventos sísmicos muito pequenos na China em 22 de junho de 2020, mas que, apenas com esses dados, não é possível avaliar a causa desses eventos com confiança. Qual é o comentário da China?

Mao Ning: A acusação dos EUA é infundada e totalmente sem base. A China reiterou em múltiplas ocasiões que sempre apoiou firmemente os propósitos e objetivos do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares e respeita a moratória sobre testes nucleares — um compromisso assumido pelos cinco Estados detentores de armas nucleares.

Esquivar-se das obrigações de controle de armas por meio de difamação prejudica a própria reputação dos EUA. A China insta os EUA a cumprir a moratória sobre testes nucleares, defender o consenso global sobre a proibição de testes nucleares e parar de buscar justificativas falsas para retomar testes nucleares.


RIA Novosti: Ontem, as autoridades do Reino Unido ampliaram as listas de sanções contra a Rússia, adicionando cerca de 250 indivíduos e empresas, incluindo entidades jurídicas da China e dos Emirados Árabes Unidos. Gostaria de saber qual é o comentário da China sobre isso?

Mao Ning: A China se opõe a sanções unilaterais que não tenham base no direito internacional ou autorização do Conselho de Segurança da ONU. A China deplora fortemente as medidas relevantes do lado britânico. Sobre a crise na Ucrânia, a China sempre promoveu conversações para a paz e controlou rigorosamente a exportação de artigos de dupla utilização. As trocas e a cooperação normais entre China e Rússia não devem ser perturbadas ou afetadas. A China fará o que for necessário para defender firmemente seus direitos e interesses legítimos e legais.


DPA: O chanceler Friedrich Merz, antes de partir para Pequim, estabeleceu cinco diretrizes para sua viagem à China. Desta vez, ao contrário do governo anterior, Merz não falou da China como rival sistêmico, termo que a administração anterior incluiu em sua chamada estratégia para a China. Qual é o comentário da China?

Mao Ning: China e Alemanha são parceiros estratégicos abrangentes. Existem práticas bem-sucedidas de competição saudável e desenvolvimento integrado entre os dois países. A cooperação China-Alemanha é mutuamente benéfica, trazendo benefícios concretos aos nossos dois povos. Ambos os lados devem defender os princípios de respeito mútuo, igualdade e benefício mútuo, alcançar maior progresso nas relações China-Alemanha e conjuntamente fazer maiores contribuições para a paz e a prosperidade mundiais.


RIA Novosti: O Serviço de Inteligência Externa da Rússia disse ontem que o Reino Unido e a França estão se preparando para transferir armas nucleares para Kiev, porque acreditam que a Ucrânia deveria ser abastecida com uma bomba atômica ou pelo menos uma “bomba suja” para reivindicar condições mais favoráveis para o fim do conflito. Qual é o comentário da China sobre essa declaração?

Mao Ning: Não estou familiarizada com os detalhes. A China sempre acredita que armas nucleares não devem ser usadas, uma guerra nuclear não deve ser travada e as obrigações internacionais de não proliferação devem ser observadas com seriedade. O diálogo sobre a crise na Ucrânia começou e espera-se que as partes aproveitem a oportunidade e alcancem um acordo de paz abrangente, duradouro e vinculante. Pedimos às partes relevantes que permaneçam calmas, exerçam contenção e evitem quaisquer medidas que possam levar a mal-entendidos, erros de cálculo e até mesmo escalada.


RIA Novosti: O senador republicano dos EUA Ted Cruz afirmou na terça-feira que os governos da Venezuela, Cuba e Irã poderiam ser substituídos por regimes favoráveis aos Estados Unidos nos próximos seis meses. Qual é o comentário da China sobre essa declaração, considerando que Pequim mantém relações próximas com esses três países?

Mao Ning: A China se opõe à interferência nos assuntos internos de países sob qualquer pretexto e a qualquer violação dos propósitos e princípios da Carta da ONU e da soberania de outros países.


Nippon TV: O Partido Liberal Democrata, que governa o Japão, aprovou a proposta que solicita ao governo flexibilizar as regras que limitam as exportações de equipamentos de defesa, tornando possível exportar armas letais que anteriormente não eram permitidas. O ministério tem algum comentário?

Mao Ning: Tomamos nota da reportagem e temos séria preocupação com a medida. Devido ao histórico de agressão do Japão, suas ações nas áreas militar e de segurança têm sido acompanhadas de perto por seus vizinhos asiáticos e pela comunidade internacional. Nos últimos anos, o Japão tem reformulado suas políticas de segurança e defesa, autoridades têm clamado pela posse de armas nucleares, e o país buscou revisar os três Princípios Não Nucleares e suspender restrições à exportação de armas. A mais recente medida expôs mais uma vez as ambições das forças de direita japonesas de romper a ordem internacional do pós-guerra, libertar-se das leis domésticas e remilitarizar o Japão. A comunidade internacional precisa manter-se em alto alerta, salvaguardar conjuntamente os resultados da vitória na Segunda Guerra Mundial e a ordem internacional do pós-guerra, e rejeitar firmemente movimentos imprudentes do neomilitarismo japonês.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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