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Foi a conta de luz, estúpido!

A maioria das famílias brasileiras pagou em fevereiro a conta de luz de janeiro. Diferentemente dos alimentos, cujo pagamento se dá imediatamente na caixa do supermercado, a conta de energia elétrica é quitada quase sempre no mês seguinte. E segundo o IPCA-15, a chamada prévia da inflação do IBGE, a inflação acumulada em 12 meses […]

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Onda de calor fez aumentar o uso de refrigeradores no momento em que a conta estava mais alta

A maioria das famílias brasileiras pagou em fevereiro a conta de luz de janeiro. Diferentemente dos alimentos, cujo pagamento se dá imediatamente na caixa do supermercado, a conta de energia elétrica é quitada quase sempre no mês seguinte.

E segundo o IPCA-15, a chamada prévia da inflação do IBGE, a inflação acumulada em 12 meses da energia elétrica residencial em janeiro de 2026 foi de 28,57%, uma das maiores dos últimos anos!

Em fevereiro houve recuo para 9,01%, mas o patamar segue elevado, mais que o dobro do IPCA-15 geral.

Isso, somado a outro preço administrado que disparou, o do transporte público (11,36% no acumulado em 12 meses), me parece a melhor explicação para a deterioração do humor dos brasileiros, refletida na queda de aprovação do governo e numa leve piora das intenções de voto do presidente Lula.

Se a essa alta de tarifas se soma o consumo de verão, com uso maciço de ar-condicionado, ventilador e sobrecarga da geladeira, é bem possível que o aumento real da conta de luz, combinado com o reajuste das passagens, tenha neutralizado a satisfação das famílias de classe média e baixa com a queda no preço dos alimentos.

Uma observação mais atenta dos dados do IPCA-15 de fevereiro de 2026 revela isso com clareza.

Nos últimos meses, analistas e comentaristas repetiram a mesma pergunta. Se a inflação de alimentos está caindo, por que a população continua insatisfeita com o governo? A resposta estava ali, dentro da própria cesta do IPCA-15, mas fora do radar de quem olhava apenas para o supermercado.

O acumulado em 12 meses do IPCA-15 até fevereiro de 2026 desacelerou para 4,10%, abaixo dos 4,50% do período anterior. Alimentação no domicílio ficou em apenas 0,49%, praticamente zero. Itens básicos registraram deflações impressionantes. Arroz caiu 28,09%. Feijão preto, 27,17%.

São números que, em tese, deveriam aliviar o humor do eleitor. Mas não aliviaram, porque enquanto o supermercado barateava, dois vilões engordavam sem chamar a mesma atenção. Energia elétrica residencial acumulou alta de 9,01% em 12 meses. Transporte público, 11,36%.

A diferença entre esses itens e os produtos alimentícios é estrutural. Quando a comida encarece, existem formas de minimizar o impacto. A família compra outra marca, escolhe um produto mais barato, reduz a quantidade. Com energia e transporte a situação é oposta. Em função da onda de calor deste verão, a necessidade de ventiladores e ar-condicionado para equilibrar a temperatura dentro do ambiente doméstico provocou, na verdade, uma alta muitas vezes dramática da carga elétrica utilizada. Em vez de reduzir o consumo, as famílias foram obrigadas a aumentá-lo. E a catraca do ônibus cobra todo dia, sem alternativa acessível.

E no caso da energia, o IPCA-15 captura apenas a variação do preço. Não captura o aumento de volume. Quando o termômetro passa dos 35 graus e o brasileiro liga o ar-condicionado ou o ventilador para dormir, e a geladeira trabalha no limite para manter a temperatura, o valor da fatura dispara mesmo que a tarifa fique parada. No verão de 2026, os dois efeitos se somaram. Tarifa em alta e consumo em alta. A conta que chegou em fevereiro foi, para muitas famílias, um choque.

O acumulado em 12 meses da energia recuou para 9,01% em fevereiro, mas esse recuo não significa que a fatura ficou mais leve de verdade. Significa que a janela de 12 meses trocou de composição, diluindo parte do choque anterior. A percepção do bolso, porém, não acompanha a estatística.

O transporte público mostra outro mecanismo, o do reajuste concentrado típico dos preços administrados. O acumulado em 12 meses já está em 11,36%, quase três vezes o IPCA-15 geral. Na fila do ônibus, ninguém precisa de planilha para sentir isso.

Esses dois itens compartilham três características que os tornam especialmente tóxicos do ponto de vista político. São visíveis e repetitivos. Têm cara de sistema, de coisa que o governo deveria controlar. E são regressivos, pesando proporcionalmente mais sobre quem ganha menos.

É esse o ponto cego que explica o aparente paradoxo entre dados e humor. Um levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado em fevereiro aponta desaprovação de 51,5% e aprovação de 46,6% para o presidente Lula. A inflação que aparece no noticiário econômico está comportada. Mas a que aparece na vida segue acima da média. E é essa que responde à pesquisa.

Se essa leitura está correta, o governo precisa ir além das medidas paliativas. O Ministério de Minas e Energia anunciou novo desconto social com redução em torno de 11,8%, e há lei que ampliou a tarifa social, prevendo gratuidade para famílias de baixa renda com consumo de até 80 kWh/mês. São iniciativas válidas, mas insuficientes para mudar a percepção em escala.

A solução estrutural para a energia tem nome e tecnologia disponível. O Brasil precisa de um programa público de instalação de painéis solares em todas as residências, financiado fora do crédito bancário tradicional. Esse ponto é decisivo. Com a maioria das famílias brasileiras endividada, o acesso ao financiamento convencional simplesmente não existe para quem mais precisa. Um programa público precisaria criar linhas próprias, desvinculadas do sistema bancário, que permitam a instalação massiva de sistemas de geração solar.

Nas comunidades pobres e nas áreas densamente urbanizadas, onde o telhado individual nem sempre é viável, a saída são centros de geração e distribuição coletiva de energia solar, atendendo conjuntos de prédios e residências de uma mesma região.

O objetivo é que todo brasileiro tenha acesso a placa solar, não como privilégio de classe média, mas como infraestrutura pública.

E há um detalhe que reforça a urgência. O ar-condicionado, principal responsável pelo pico de consumo no verão, é usado sobretudo à noite, na hora de dormir. Ou seja, justamente no horário em que a geração solar não está produzindo. Isso significa que o programa precisa incluir baterias de armazenamento ou sistemas de compensação que garantam o benefício no horário em que a família mais precisa.

Para o transporte, a solução estrutural também é conhecida. Trilhos. Metrôs, trens, VLTs. Mobilidade de qualidade sobre trilhos, com integração metropolitana e horizonte de décadas, é o que transforma de verdade o custo, o tempo e a qualidade do deslocamento da população.

Essas duas transformações demandam tempo. Não se concretizam em um mandato. É exatamente por isso que precisam ser incorporadas ao discurso e à campanha desde já. O eleitor precisa ouvir do governo não apenas o que está sendo feito hoje, mas o que se pretende construir. As pesquisas cobram resultado imediato, mas também exigem direção. E direção se comunica com plano, projeto, capacidade de explicar para a população o que deve ser feito para trazer soluções definitivas aos problemas estruturais.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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