Governo Lula condena ataques imperialistas ao Irã

Foto: A. C. Moraes

Como era de se esperar, a diplomacia brasileira não demorou a fazer uma condenação enérgica e categórica aos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica do Irã na manhã deste sábado (28/2). O governo do Brasil, por meio de nota oficial do Itamaraty, manifestou grave preocupação com as ações militares, destacando que elas aconteceram em meio a um processo de negociação entre as partes — o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região.

Eis a íntegra da manifestação do governo brasileiro:

“O Governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados hoje (28/2) por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região.

O Brasil apela a todas as partes que respeitem o Direito Internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil.

As embaixadas do Brasil na região acompanham os desdobramentos das ações militares, com particular atenção às necessidades das comunidades brasileiras nos países afetados. Recomenda-se aos brasileiros que estejam atentos às orientações de segurança das autoridades locais nos países onde morem ou se encontrem.

O Embaixador do Brasil em Teerã está em contato direto com a comunidade brasileira, a fim de transmitir atualizações sobre a situação e orientações de segurança.”

A posição brasileira não surge do nada. Ela dialoga com uma tradição diplomática que ganhou expressão clara em 2010, no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando o Brasil assumiu protagonismo inesperado na tentativa de mediar o impasse nuclear iraniano. Ao lado da Turquia, Lula articulou a chamada Declaração de Teerã, que previa a transferência de parte do urânio iraniano para fora do país, em troca de combustível para uso civil, criando um mecanismo de confiança para reduzir tensões.

Naquele momento, o gesto brasileiro foi visto com desconfiança por Washington. Havia resistência em aceitar que uma liderança considerada “subglobal” assumisse protagonismo em um tema estratégico para as grandes potências. O acordo costurado por Lula acabou sendo colocado à margem, e novas rodadas de sanções foram aprovadas.

Anos depois, porém, um entendimento muito semelhante — baseado na limitação do enriquecimento de urânio e em mecanismos de verificação internacional — seria fechado entre o Irã e as potências ocidentais. O espírito do que o Brasil havia defendido em 2010 reapareceu no acordo multilateral que buscou resolver diplomaticamente a questão nuclear iraniana. Esse entendimento seria posteriormente rompido durante a presidência de Donald Trump, reabrindo um ciclo de desconfiança e instabilidade que ajuda a explicar o cenário atual.

Ao condenar os ataques, o Brasil reafirma um princípio estratégico: para um país de dimensão continental, sem poder militar projetado globalmente, a estabilidade do sistema internacional é um ativo de segurança nacional. Um mundo anárquico, governado apenas pela força, é especialmente perigoso para países que dependem de regras claras, previsibilidade e mecanismos multilaterais.

Por isso, a defesa do Direito Internacional não é apenas retórica. É interesse concreto. Para o Brasil, conflitos entre Estados devem ser tratados no âmbito das Nações Unidas, especialmente no Conselho de Segurança, e resolvidos por meio de negociação, inspeção internacional e instrumentos diplomáticos. A alternativa — a normalização do uso da força fora desses marcos — enfraquece o sistema coletivo de segurança e amplia riscos globais.

Em meio à escalada no Oriente Médio, a nota do Itamaraty sinaliza que o Brasil continuará apostando na diplomacia, na contenção e no diálogo como únicos caminhos capazes de produzir paz duradoura.

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