O cinismo inacreditável de Kaja Kallas

A Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, participa numa conferência de imprensa após uma reunião informal do Conselho dos Estados do Mar Báltico em Varsóvia, Polónia, a 4 de março de 2026. (EPA)

Menos de 24 horas depois de milhares de pessoas tomarem as ruas de Minab, no sul do Irã, para enterrar 165 crianças e funcionárias mortas no bombardeio da escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, a principal diplomata da União Europeia subiu a um púlpito em Varsóvia para atacar Teerã. Em coletiva de imprensa após reunião ministerial do Conselho dos Estados do Mar Báltico, Kaja Kallas, Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, acusou o Irã de estar “semeando o caos e incendiando a região” ao revidar os ataques que destroem seu próprio território. A declaração ignorou por completo o fato de que o Irã está respondendo a uma ofensiva militar iniciada pelos Estados Unidos e por Israel no último sábado, campanha que já matou mais de mil civis iranianos segundo organizações de direitos humanos. Entre as vítimas estão majoritariamente meninas de 7 a 12 anos que assistiam a aulas na manhã de sábado quando um míssil atingiu a escola em Minab, na província de Hormozgan, perto do Estreito de Ormuz. O ataque foi condenado pela UNESCO e pela ativista Malala Yousafzai, vencedora do Nobel da Paz. Nas mesmas horas em que Kallas discursava em Varsóvia, imagens dos funerais coletivos em Minab circulavam pelo mundo, mostrando pais carregando fotografias das filhas mortas e caixões cobertos pela bandeira iraniana sendo transportados por multidões em luto. Em Teerã, o Hospital Gandhi e o Hospital Motahari foram danificados por ataques aéreos, forçando a evacuação de pacientes em plena guerra. Nada disso foi mencionado pela chefe da diplomacia europeia. Em vez de reconhecer a destruição que atinge civis iranianos, Kallas afirmou que “o regime está construindo um argumento forte para a sua própria queda” e declarou que “o cenário ideal seria um Irã democrático que não representasse ameaça aos seus vizinhos”. A frase seria apenas ingênua se o mapa político do Oriente Médio não a transformasse em algo pior. Os vizinhos do Irã a que Kallas se refere são, em sua maioria, monarquias absolutas e regimes autoritários que funcionam como vassalos estratégicos dos Estados Unidos. Vários desses países abrigam bases militares americanas que estão sendo usadas neste exato momento para conduzir os bombardeios contra o território iraniano. Em comparação com essas monarquias do Golfo, o sistema político iraniano, apesar de suas limitações conhecidas, apresenta mecanismos eleitorais e disputas internas que simplesmente não existem na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos ou no Bahrein. A contradição se aprofunda quando se observa o único país da região que líderes ocidentais costumam apresentar como “a única democracia do Oriente Médio”. Desde outubro de 2023, Israel conduziu em Gaza uma campanha militar que organizações internacionais, juristas e agências da ONU descrevem como uma das mais devastadoras ofensivas contra população civil no século XXI, com dezenas de milhares de mortos, a maioria civis. Nos últimos dias, paralelamente à escalada contra o Irã, o governo israelense voltou a fechar as passagens de Gaza e bloquear a entrada de alimentos, água, combustível e insumos médicos, agravando uma crise humanitária que já havia sido classificada como catastrófica por agências da ONU. Organizações humanitárias alertam que o bloqueio pode provocar novamente fome em larga escala entre crianças e mulheres palestinas. Sobre isso, Kaja Kallas não disse uma palavra. O que a chefe da diplomacia europeia fez, em vez disso, foi dedicar parte de seu pronunciamento a garantir que o novo conflito não reduziria o apoio do bloco à Ucrânia. Para Kallas, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua sendo a principal ameaça à segurança europeia, e o bloco pretende manter seu compromisso político, financeiro e militar com Kiev. A hierarquia de preocupações revelada pelo discurso é, por si só, eloquente. Crianças iranianas enterradas em valas coletivas e hospitais bombardeados em Teerã não mereceram menção. A fome imposta à população de Gaza por um aliado ocidental tampouco. O que mereceu atenção foi a necessidade de proteger cidadãos europeus na região e de organizar voos de repatriação. Para analistas e observadores internacionais, o episódio ilustra um problema estrutural da política externa europeia contemporânea. Os bombardeios que deram início à atual fase da guerra foram descritos por especialistas como ataques preventivos sem autorização internacional, levantando questionamentos jurídicos sobre sua legalidade. Ainda assim, a liderança europeia evita qualquer crítica aos responsáveis pela escalada inicial e concentra toda a sua retórica contra o país que está sendo bombardeado. O discurso de Kaja Kallas em Varsóvia acabou simbolizando, de forma involuntária, a distância crescente entre a retórica diplomática europeia e a realidade vivida pelas populações atingidas pelas guerras do Oriente Médio.
Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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