Pedro Sanchez emerge como única liderança europeia a não se ajoelhar

Pedro Sanchez

Em meio ao silêncio cúmplice das capitais europeias diante da guerra contra o Irã, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, fez nesta quarta-feira um pronunciamento televisivo à nação com uma mensagem que nenhum outro líder do continente teve coragem de formular com tanta clareza: “Não à guerra”.

Sánchez, de 54 anos, que governa a Espanha desde 2018 pelo Partido Socialista Obrero Español e cumpre atualmente o terceiro mandato, emergiu como a única liderança europeia disposta a desafiar abertamente a escalada militar desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã.

A resposta de Washington veio antes mesmo do discurso, quando Donald Trump, sentado ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz no Salão Oval da Casa Branca, anunciou que pretendia cortar todas as relações comerciais com a Espanha.

O motivo da retaliação foi a recusa de Madri em permitir que as bases aéreas de Rota e Morón, no sul do país, fossem usadas para lançar ataques contra o território iraniano. O ministro das Relações Exteriores espanhol, José Manuel Albares, havia declarado que a Espanha não autorizaria o uso das bases em operações que não estivessem cobertas pela Carta das Nações Unidas.

A humilhação, porém, não se limitou à ameaça contra Madri. Friedrich Merz, recém-empossado chanceler da Alemanha, assistiu à cena sentado ao lado de Trump e, em vez de defender um aliado europeu ameaçado em público, concordou com o presidente americano, afirmando que a Espanha era o único país da OTAN que se recusava a elevar os gastos militares e que Berlim estava “tentando convencê-los”.

O contraste entre as duas posturas não poderia ser mais eloquente. Enquanto Merz aceitava o papel de coadjuvante obediente no Salão Oval, Sánchez preparava um pronunciamento que entrará para a história recente da diplomacia europeia como um ato de independência política cada vez mais raro no continente.

Em seu discurso, o primeiro-ministro espanhol traçou um paralelo direto com a guerra do Iraque, lembrando que há 23 anos outro governo americano arrastou a Europa para um conflito no Oriente Médio sob pretextos que se revelaram falsos. “Aquela guerra, que em teoria era travada para eliminar armas de destruição em massa, trazer democracia e garantir a segurança global, produziu o efeito contrário”, afirmou Sánchez, referindo-se à onda de instabilidade que se seguiu à invasão de 2003.

Sánchez recordou a participação do então primeiro-ministro espanhol José María Aznar no chamado Trio das Açores, ao lado de George W. Bush e Tony Blair. “Esse foi o presente que o Trio das Açores deu aos europeus da época: um mundo mais inseguro e uma vida pior”, disse.

O líder espanhol também recorreu à história da Primeira Guerra Mundial para ilustrar o risco da escalada em curso. Citou a resposta que o chanceler da Alemanha deu em agosto de 1914, quando perguntado como a guerra havia começado: “Quem me dera saber”. “Muitas vezes, grandes guerras eclodem por uma série de eventos que saem do controle, por erros de cálculo, falhas técnicas ou circunstâncias imprevistas”, alertou. “Não podemos brincar de roleta russa com o destino de milhões de pessoas.”

A frase mais cortante do pronunciamento foi também a mais simples. “A questão não é se somos a favor ou contra os aiatolás. Ninguém é”, afirmou. “A questão é se estamos ou não do lado do direito internacional e, portanto, da paz.”

A posição de Sánchez ganha relevo ainda maior quando comparada ao comportamento das demais lideranças europeias. Kaja Kallas, Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, discursou hoje em Varsóvia acusando o Irã de “semear o caos na região” e afirmou que “o cenário ideal seria um Irã democrático”, ignorando que os vizinhos do Irã são em sua maioria monarquias autoritárias aliadas de Washington. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, pediu uma “transição credível” no Irã, alinhando-se à retórica americana de mudança de regime.

Nenhum desses líderes mencionou as 165 crianças e funcionárias enterradas ontem em Minab após o bombardeio da escola primária Shajareh Tayyebeh. Nenhum falou dos hospitais Gandhi e Motahari danificados em Teerã. Nenhum questionou a legalidade dos ataques preventivos que deram início à ofensiva.

Sánchez, em contraste, classificou a operação militar como “um desastre” e recusou qualquer tipo de cumplicidade. “Não seremos cúmplices de algo que é ruim para o mundo e contrário aos nossos valores e interesses, por medo de represálias”, declarou, numa referência direta às ameaças de Trump.

A ministra do Orçamento espanhola, María Jesús Montero, ecoou o primeiro-ministro ao afirmar que a Espanha “não será vassala” de nenhum outro país. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, telefonou para Sánchez para expressar “total solidariedade”, e o presidente francês Emmanuel Macron também fez contato para manifestar apoio.

Ainda assim, o gesto de Sánchez permanece essencialmente solitário no cenário europeu. Enquanto o primeiro-ministro espanhol fala em paz, direito internacional e lições da história, os demais líderes do continente oscilam entre a subserviência declarada e o silêncio diplomático diante de uma guerra que já matou mais de mil civis iranianos em cinco dias, segundo organizações de direitos humanos.

O pronunciamento de Pedro Sánchez não deterá os bombardeios nem mudará sozinho a correlação de forças no Oriente Médio. Mas cumpre uma função que a política europeia parecia ter esquecido: a de demonstrar que é possível governar um país da OTAN, membro da União Europeia, sem abrir mão da dignidade e do compromisso com a vida humana, mesmo quando a maior potência militar do planeta ameaça represálias.

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