Lavrov denuncia a agressão ao Irã e acusa o Ocidente de “dividir para governar”

“O pretexto é o programa nuclear, mas o objetivo real é a troca de regime em Teerã e a fragmentação das relações entre o Irã e seus vizinhos árabes”, declarou o chanceler russo Sergei Lavrov em Moscou nesta quinta-feira, 5 de março de 2026.

A guerra deflagrada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã não é, na leitura de Moscou, uma operação pontual contra instalações nucleares, mas uma agressão deliberada cujo alvo final é redesenhar o mapa político do Oriente Médio.

O líder supremo Ali Khamenei foi morto nos bombardeios, a escalada regional se acelera e os preços da energia disparam pelo mundo.

A chancelaria russa condenou os ataques como “agressão armada” e acusou Washington e Tel Aviv de se esconderem atrás do programa nuclear enquanto perseguem troca de governo em Teerã. No discurso, o chanceler cita a retomada de laços entre Arábia Saudita e Irã, processo ao qual Moscou diz ter contribuído, e afirma ter “todas as dúvidas” de que um dos objetivos da guerra seria rachar exatamente essas relações.

O método, segundo ele, é velho conhecido. “Ou você está conosco ou está contra nós.” A técnica, clássica. “Governar e dividir”, colocando países uns contra os outros.

No terreno do direito internacional, onde o Ocidente costuma se sentir confortável, o chanceler tenta virar o jogo. Fala de infraestrutura civil destruída, de vítimas, e defende que qualquer iniciativa diplomática precisa começar por parar os ataques que atingem civis. Sugere uma resolução no Conselho de Segurança da ONU exigindo o fim imediato do conflito.

Sobre a Europa, o tom é corrosivo. A União Europeia atuaria, na prática, como extensão do mesmo mecanismo de coerção estratégica que ele atribui à OTAN. Pressão, alinhamento automático e expansão do perímetro de “interesses” para fora de suas fronteiras.

O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, é citado com ironia. A ideia de “defesa 360 graus” significaria, na prática, uma aliança que se reserva o direito de operar onde decidir que seus interesses estão em jogo. Nesta mesma quinta-feira, Rutte disse que não há debate sobre acionar o Artigo 5, o de defesa coletiva, mas ao mesmo tempo reforçou que a OTAN deve garantir a defesa de “cada centímetro” do território aliado. O chanceler russo usa essa contradição para sustentar que o Ocidente, quando se move, nunca se move apenas para responder a um fato. Ele se move para redefinir o espaço em que outros países podem agir.

Ministro das Relações Exteriores desde 2004, um dos mais longevos da diplomacia global, o que o chanceler tenta fazer é oferecer uma moldura única para duas guerras simultâneas, Irã e Ucrânia, como capítulos de um mesmo conflito contra a soberania dos países que não se alinham ao Ocidente.

Quando chega à Ucrânia, encaixa tudo na mesma lógica. Afirma que o Ocidente “preparou” a Ucrânia para agir contra a Rússia, como “espinha dorsal” de uma guerra híbrida. Menciona a anulação de resultados eleitorais em 2004 e 2005, com Bruxelas exigindo que os ucranianos escolhessem entre a Europa e a Rússia. Sobre 2014, chama de golpe de Estado o que ocorreu após o acordo mediado por França, Alemanha e Polônia, e diz que os garantidores europeus aceitaram a ruptura no dia seguinte.

O discurso também aborda a não proliferação nuclear. A guerra contra o Irã, segundo ele, corrói os princípios do regime de não proliferação e alimenta uma conclusão inevitável. “Se você não tem armas nucleares, podem fazer o que quiserem com seu país.” E cita a Líbia de Muammar Gaddafi.

O recado, na lógica de Moscou, é que a soberania dos Estados, sem dissuasão real, vira ficção. E que isso empurra países a buscarem o único seguro de vida reconhecido pelos impérios, o poder de destruição.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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