Irã é a Stalingrado do século 21, diz pesquisador

Marco Fernandes

“O Irã é a Stalingrado do sul global no século XXI”, disse o pesquisador Marco Fernandes em entrevista ao programa 20 Minutos, da Opera Mundi, gravada em 5 de março de 2026, em São Paulo.

A frase condensa a percepção de que o desfecho da guerra contra o Irã vai definir o equilíbrio geopolítico dos próximos anos, e que uma derrota iraniana teria efeitos desmoralizantes sobre toda a articulação multipolar que se ensaiava nos BRICS e no chamado Sul Global.

Stalingrado, entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943, foi a batalha que decidiu a Segunda Guerra Mundial no front oriental. Se a União Soviética caísse ali, como lembrou o jornalista Breno Altman durante a entrevista, “não restava mais nada”.

Fernandes explicou a lógica por trás da comparação. Se o Irã for derrotado, depois do que já aconteceu com a Venezuela, qualquer articulação anti-hegemônica ficará desacreditada. “Bom, se até o Irã, que está há 20 anos se preparando, tem aliados poderosos, até o Irã perdeu, imagina o que o Brasil vai fazer? O que a África do Sul vai fazer?”

Altman sintetizou o risco em duas palavras, “tigres de papel”. Se o Irã cair, muda o objeto do discurso.

Já a hipótese inversa abre outro horizonte. “Se o Irã ganha, aí nós vamos ver que os Estados Unidos são, sim, um tigre de papel”, afirmou Fernandes, acrescentando que a desindustrialização americana teria mudado as regras da guerra no mundo.

Para explicar o peso estratégico do Irã, o pesquisador recuou a abril de 2023, quando a China intermediou o restabelecimento de relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita. Fernandes chamou o episódio de “golaço diplomático” e contou que estava no aeroporto de Pequim naquele dia, quando viu o avião oficial da República Islâmica sem que houvesse qualquer notícia sobre uma visita iraniana. Horas depois, veio o anúncio do acordo histórico. Meses adiante, em outubro de 2023, a guerra em Gaza interrompeu aquele ciclo de estabilidade que se desenhava na região.

Marco Fernandes é analista internacional, viveu cinco anos e meio na China e atualmente reside em Moscou, de onde acompanha a política russa e os desdobramentos da rivalidade entre Washington, Pequim e Moscou. Integrou o coletivo Dongsheng e hoje faz parte do Conselho Popular do BRICS. Esteve em Teerã em novembro de 2025.

Na entrevista, Fernandes detalhou a importância do Irã como hub logístico da integração euroasiática. A China construiu uma linha férrea que vai de Xi’an até o Irã e, de lá, segue até Praga, como alternativa ao Estreito de Málaga. Na direção norte-sul, o Corredor Internacional de Transporte que liga São Petersburgo a Mumbai, já 75% concluído, também passa pelo território iraniano. São quatro países dos BRICS conectados por rotas 30% a 40% mais rápidas e baratas.

O pesquisador evocou ainda a advertência de Zbigniew Brzezinski, que em 1997, no livro O Grande Tabuleiro de Xadrez, identificou como pior cenário para a segurança dos Estados Unidos “uma improvável aliança entre Rússia, China e Irã”. A única chance de isso acontecer, segundo Brzezinski parafraseado por Fernandes, seria os três países se unirem “por reclamações comuns contra nós”.

Fernandes também trouxe dados sobre a capacidade iraniana. O país é o quinto do mundo em formação de engenheiros, um país de 90 milhões de habitantes que, com 47 anos de sanções nas costas, forma per capita mais engenheiros do que China, Rússia ou Estados Unidos. E 60% dos universitários iranianos são mulheres. Um relato pessoal do pesquisador ilustrou a polarização interna do Irã. Em novembro, ele conversou em Teerã com um banqueiro importante, formado na Universidade de Columbia em Nova York, cuja esposa morava na França e cujo filho estudava lá. O homem começou a conversa dizendo que era preciso fazer um acordo com o Ocidente, que as sanções estavam sufocando o país. Uma hora e meia depois, o mesmo banqueiro concluía que a única saída era assumir o bloco dos BRICS e fazer negócio entre os parceiros, porque com o Ocidente já não dava mais para contar.

Do lado russo, a guerra na Ucrânia funciona como pântano que limita a ação de Moscou em outros tabuleiros, embora o Lavrov tenha declarado que a Rússia fará “tudo possível para criar um ambiente onde as operações militares dos Estados Unidos e de Israel no Irã sejam impossíveis”. Do lado chinês, Fernandes confirmou o envio de radares capazes de detectar aviões furtivos F-35 e B-2, além do navio Oceano-1, que faz mapeamento submarino na costa iraniana. “A China faz muita coisa sem falar”, lembrou.

A China, aliás, já se prepara internamente para um cenário de confronto direto com os Estados Unidos. Fernandes descreveu uma mudança profunda no imaginário chinês ao longo dos últimos anos. Em 2019, depois de uma rodada dura de negociações comerciais com Trump, a TV estatal passou pela primeira vez em 30 anos um filme sobre a Guerra da Coreia, um tabu que estava enterrado havia décadas. Um grande intelectual chinês disse a Fernandes que aquilo significava que “a ala mais nacionalista, a ala mais patriótica está ganhando a batalha interna no partido”. Em 2021, A Batalha do Lago Changjin, sobre o único combate direto entre tropas chinesas e americanas, bateu a maior bilheteria da história do cinema chinês, com mais de um bilhão de dólares. Depois vieram romances, séries, documentários, veteranos resgatados para a televisão.

Fernandes mencionou ainda que um general de alta patente do Pentágono declarou ao Congresso dos Estados Unidos que há uma data limite para iniciar uma guerra contra a China, o ano de 2027. Depois disso, segundo essa avaliação, o nível de desenvolvimento tecnológico chinês tornaria impossível uma vitória americana.

A entrevista abordou ainda a Indonésia como exemplo de inovação no Sul Global. Fernandes descreveu um sistema de pagamento instantâneo internacional que já funciona em cinco países do Sudeste Asiático, a proibição de exportar níquel bruto, o que levou a China a investir 30 bilhões de dólares em industrialização local, e um fundo soberano de 1 trilhão de dólares capitalizado pelos lucros das estatais. “A Indonésia está fazendo coisas muito inovadoras”, disse Fernandes, apontando que o modelo indonésio pode ser mais próximo da realidade dos países do Sul Global do que o chinês.

A conversa durou quase duas horas. Assista à entrevista abaixo.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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