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Lava Jato 2, a vingança

A Lava Jato nunca morreu — entrou em hibernação, à espera do momento certo para voltar. E o momento chegou por uma confluência previsível de fatores. A tentativa de golpe de 2022 devolveu enorme protagonismo ao Judiciário, que voltou a ocupar o centro da cena política. Com a situação de Bolsonaro já praticamente encerrada — […]

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A Lava Jato nunca morreu — entrou em hibernação, à espera do momento certo para voltar.

E o momento chegou por uma confluência previsível de fatores. A tentativa de golpe de 2022 devolveu enorme protagonismo ao Judiciário, que voltou a ocupar o centro da cena política. Com a situação de Bolsonaro já praticamente encerrada — preso e condenado —, toda aquela energia punitivista precisava de um novo destino. A cultura lavajatista, que nunca foi desarmada por completo, começou a buscar uma nova vítima, de preferência um alvo politicamente sensível. Do outro lado, os setores bolsonaristas pressionam por revanche. E há ainda o fator eleitoral: com Lula amplamente favorito nas pesquisas para 2026, era esperado que surgisse alguma ofensiva para tentar interferir no processo político.

Agora o alvo é Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Segundo apuração da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, a Polícia Federal discute internamente a possibilidade de pedir sua prisão, em um inquérito sigiloso no STF. Oficialmente, ninguém sabe se esse pedido foi apresentado. O que está confirmado é que André Mendonça autorizou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha.

Prisão preventiva exige fundamentos concretos e a lei veda seu uso como consequência automática de investigação ou denúncia. Quando a hipótese de prender alguém circula antes da prova robusta, o processo começa a sair dos trilhos.

A notícia de que há divisão dentro da PF desmonta o mito da neutralidade absoluta da corporação. Há setores que empurram a linha mais dura e outros que lembram o óbvio: liberdade é direito fundamental, e o encarceramento cautelar exige mais do que impulso investigativo.

No caso de Lulinha, o descompasso entre ruído político e substância probatória é gritante. A CPMI do INSS aprovou quebra de sigilos em 26 de fevereiro, mas Flávio Dino suspendeu a decisão em 5 de março porque os requerimentos haviam sido votados em bloco, sem fundamentação individualizada. Toda a imprensa registrou que, até o momento, não há indícios de ligação de Lulinha com os desvios de mensalidades associativas de aposentados e pensionistas.

O desastre da Lava Jato original começou quando o punitivismo policial encontrou ressonância no Ministério Público e no Judiciário, e o sistema deixou de funcionar como freio para virar acelerador. Investigação, acusação e julgamento passaram a andar no mesmo trilho ideológico. O Supremo reconheceu a parcialidade de Sérgio Moro no caso do triplex, e o CNJ aprovou relatório apontando possíveis crimes de agentes públicos na operação.

O bolsonarismo herdou esse repertório: a crença de que o inimigo deve ser destruído primeiro e julgado depois, a transformação da polícia em ator político e a confusão deliberada entre justiça e revanche. Parte da mídia comercial, seduzida pela dramaturgia do escândalo, volta e meia flerta com esse roteiro porque ele produz crise, clique e ruído.

Há aí uma lição para o governo Lula. Disputar narrativa, democratizar o ecossistema de comunicação e fortalecer mídias independentes é tão estratégico quanto governar. Quando a esquerda trata comunicação como tema secundário, entrega para os outros a moldura do debate público.

A pergunta decisiva permanece de pé: qual é o fato concreto que justificaria sequer cogitar a prisão de Lulinha? Até aqui, nada do que veio a público responde a essa pergunta de forma convincente. Sem essa resposta, o enredo soa menos como investigação séria e mais como vingança política com verniz jurídico. O Brasil precisa de prova, devido processo legal, juiz imparcial e memória histórica para não repetir o desastre.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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