“É a nossa escola. São nossos estudantes, nossas meninas, e elas foram atacadas por um caça americano e mortas.” “Nós começamos essa guerra? Atacamos nosso próprio povo? Não. Estávamos negociando com os Estados Unidos. E, no meio da diplomacia, eles decidiram nos atacar.” “Eles começaram essa guerra sem provocação, sem justificativa, ilegalmente.”
Foi com essa resposta, em tom de confronto direto, que o ministro das Relações Exteriores do Irã reagiu à acusação atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o próprio Irã seria responsável pelo bombardeio de uma escola primária no sul do país. Na entrevista, a jornalista lembrou que o ataque “matou mais de 170 pessoas, incluindo muitas crianças” e, em seguida, citou a declaração de Trump de que “o Irã é responsável por esse ataque”. A resposta do chanceler foi imediata: “Por que o Irã seria responsável?”
O entrevistado é Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã. A entrevista foi concedida neste domingo, 8 de março de 2026, a uma emissora de televisão americana, durante uma edição do programa político dominical Meet the Press, em meio à escalada da guerra envolvendo o Irã.
Ao longo da entrevista, Araghchi sustentou uma linha de defesa baseada em três pontos centrais: o Irã foi atacado, a guerra é ilegal e Teerã não iniciou o conflito. Em um dos trechos mais diretos, ele afirma: “Esta não é a nossa guerra. Esta não é uma guerra da nossa escolha. Ela foi imposta a nós pelos Estados Unidos e por Israel.” Em seguida, reforça o argumento jurídico e político da posição iraniana: “Eles começaram essa guerra sem provocação, sem justificativa, ilegalmente. O que estamos fazendo é um ato legal de autodefesa, e temos todo o direito.”
A mesma formulação aparece quando o ministro é pressionado sobre ataques iranianos a alvos localizados em países vizinhos. Em vez de aceitar a premissa da pergunta, ele a rejeita. “Não, nós não estamos atacando nossos vizinhos”, diz. Logo depois, delimita o alvo que, segundo ele, está na mira de Teerã: “Estamos atacando bases americanas, instalações americanas, ativos americanos, que infelizmente estão localizados no território de nossos vizinhos.” E volta ao argumento central da entrevista: “Nós não começamos essa guerra. Foram os americanos que começaram essa guerra contra nós ao nos atacar. E nós estamos nos defendendo.”
Na defesa do governo iraniano, o peso maior recai sobre o impacto da guerra sobre civis. Araghchi afirma que o país voltou a ser alvo de ataques e enumera instalações e grupos atingidos. “Eles estão matando estudantes, estão atacando hospitais, usinas de dessalinização, refinarias — em todos os lugares pessoas foram mortas e locais foram destruídos — e agora querem novamente um cessar-fogo”, declarou. Em outro momento, quando questionado especificamente sobre a escola bombardeada, insiste: “É a nossa escola. São nossos estudantes, nossas meninas.”
É nesse ponto que a entrevista ganha seu momento mais duro. Depois de ouvir que Trump atribuiu ao próprio Irã a responsabilidade pelo ataque à escola, Araghchi reage com ironia e indignação. “Bem, isso é curioso”, diz, antes de emendar uma sequência de perguntas retóricas que organiza sua defesa: “Nós começamos essa guerra? Atacamos nosso próprio povo?” Em seguida, retoma a versão iraniana de que o país estava em negociação quando foi atingido: “Não. Estávamos negociando com os Estados Unidos. E, no meio da diplomacia, eles decidiram nos atacar.”
Quando a apresentadora pede evidências para sustentar a acusação de que a escola foi atingida por um caça americano, o chanceler mantém o mesmo enquadramento político. “Há todas as evidências de que essa escola foi atacada por um caça americano”, afirma. Diante da insistência da jornalista, ele não recua e amplia a resposta: “Se não fomos nós, então quem foi? Talvez os israelenses. Mas é evidente — quem mais está nos atacando?”
Araghchi também reagiu à justificativa apresentada por Trump para a guerra, segundo a qual o Irã já teria mísseis capazes de atingir a Europa e, em breve, os Estados Unidos. O ministro classificou essa alegação como falsa. “Isso é, na verdade, desinformação”, declarou. Em seguida, procurou rebater o argumento com uma formulação objetiva: “Nós deliberadamente limitamos o alcance de nossos mísseis a menos de 2.000 quilômetros porque não queremos ser vistos como uma ameaça para ninguém no mundo.” E concluiu: “Não existe evidência ou informação de inteligência indicando que o Irã planeje mísseis de longo alcance, muito menos mísseis capazes de alcançar os Estados Unidos.”
No conjunto da entrevista, a fala do chanceler iraniano se organiza como uma resposta política e diplomática à narrativa americana sobre a guerra. Araghchi apresenta o Irã como um país atacado, insiste que o conflito foi iniciado por Washington e por Israel, define a ofensiva contra seu país como ilegal e sustenta que a reação iraniana é um ato de autodefesa.
Ao tratar do ataque à escola, do bombardeio a civis e das acusações de Trump, sua linha não muda: “Esta não é a nossa guerra.” “Nós não começamos essa guerra.” “Estamos nos defendendo.”
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