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Sem o feminismo não há paz: uma análise do “Gamergate”

A maneira como a dimensão digital — ou virtual — tomou conta das nossas vidas é inegável. As redes digitais transformaram profundamente nossos relacionamentos afetivos, assim como as plataformas digitais alteraram de forma abrupta as relações de trabalho. Esse território ainda nos é, em grande medida, desconhecido, e buscamos compreender cada vez mais o seu […]

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A maneira como a dimensão digital — ou virtual — tomou conta das nossas vidas é inegável. As redes digitais transformaram profundamente nossos relacionamentos afetivos, assim como as plataformas digitais alteraram de forma abrupta as relações de trabalho.

Esse território ainda nos é, em grande medida, desconhecido, e buscamos compreender cada vez mais o seu real impacto sobre nossas vidas.

Um dos métodos mais utilizados pelos seres humanos para entender um sistema complexo é buscar a sua raiz. As ciências exatas recorrem a equações para encontrar essas raízes — e desde cedo aprendemos a utilizá-las. Mas as ciências humanas também costumam lançar mão dessa lógica. É daí que vem a expressão “ser radical”, ou seja, buscar a raiz de algo.

No caso do território digital, há uma forte ligação com o movimento de extrema direita que tomou conta do mundo. Há um tipo de fascismo digital no ar — e ele foi bem representado por Elon Musk ao fazer um gesto nazista durante a posse de Donald Trump.

O interessante desse dito fascismo digital é que, ao investigar sua trajetória, encontramos um episódio-chave para a proliferação de milhões de militantes de extrema-direita: o chamado Gamergate.

O Gamergate é um episódio que revela os primórdios de uma organização no território digital para atacar alguém — uma espécie de efeito borboleta do que hoje chamamos de “cancelamento”. No caso, o ataque foi coordenado contra uma mulher, a americana desenvolvedora de jogos Zoe Quinn, que enfureceu a comunidade gamer ao criar um jogo mais humanizado.

Segundo o livro *Engenheiros do Caos*, de Giuliano da Empoli — que estuda esse fenômeno —, Quinn foi brutalmente atacada por criar o jogo “Depression Quest”:

“No início de 2013, a isca se materializa, de repente, na forma inesperada da pessoa de Zoe Quinn, desenvolvedora que está na origem de um videogame insólito. (…) O objetivo é demonstrar que um videogame poderia ser algo mais que aventuras de soldados, ninjas e guerreiros medievais, e que as mulheres seriam capazes de trazer uma contribuição preciosa. Os gamers, jogadores ‘de raiz’, não recebem bem a novidade. (…) Quinn começa então a ser objeto de ataques na internet, que se transformam num furacão quando seu ex-namorado escreve uma mensagem sustentando que ela teria obtido comentários positivos sobre ‘Depression Quest’ graças à sua relação com um jornalista. O ‘ex’ assina, desse modo, a autoria do primeiro tiro do bombardeio de gamers que, às centenas de milhares, disparam insultos e ameaças de morte contra Zoe Quinn. (…) Os trolls descobrem e compartilham o endereço e outras informações pessoais de Quinn nas redes, a ponto de ela ser obrigada a deixar sua casa. Todos os que tentam defendê-la se tornam, por sua vez, alvos de ataques violentíssimos. Entre setembro e outubro de 2014, são criadas, só no Twitter, mais de dois milhões de mensagens contendo a hashtag #gamergate.”

Há outros materiais, como esta matéria da BBC, que argumentam como o Gamergate foi uma espécie de efeito borboleta para a onda de violência que vivemos hoje. O próprio Steve Bannon — estrategista que elegeu Trump e viaja o mundo organizando a extrema direita, inclusive a de Bolsonaro — reconheceu a força desse episódio.

Não existe coincidência no grande fluxo da história. Uma mulher tenta criar um jogo mais humanizado e é massacrada por homens adoradores da violência. A organização misógina que ataca essa mulher é o embrião da extrema direita que tornou o território digital um ambiente tóxico e violento. E é essa mesma extrema direita, liderada pelos Estados Unidos, que fomenta um mundo de guerra estarrecedor, ameaçando a paz mundial de uma maneira nunca antes vista na história.

Por isso, ser um radical da paz, hoje, é ser um feminista convicto. De alguma forma, o ódio às mulheres alimenta uma máquina poderosa de violência que, se não for detida, é capaz de engolir o mundo numa guerra cujo potencial de destruição ameaça inclusive a existência humana.

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Tadeu Porto

Petroleiro e Secretário adjunto de Comunicação da CUT Brasil

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Comentários

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Jhonny

08/03/2026 - 19h29

Os homicidios de mulheres aumentaram exponencialmente desde a eleiçào do Larapio da Republica

Zulu

08/03/2026 - 19h27

O Lulismo està matando mulheres e gays como nunca antes na historia.


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