A dura resposta do Irã às novas ameaças de Trump

Após Donald Trump dizer que os ataques americanos vão aumentar 20 vezes mais forte caso o Irã impeça o fluxo de petróleo no Estreito de Hormuz, o porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) respondeu de forma direta e grave.

Trump publicou em sua rede social: “Se o Irã fizer qualquer coisa que impeça o fluxo de petróleo no Estreito de Hormuz, eles serão atingidos pelos Estados Unidos da América VINTE VEZES MAIS FORTE do que foram atingidos até agora. Além disso, vamos destruir alvos facilmente destruíveis que tornarão praticamente impossível o Irã ser reconstruído como nação novamente. Morte, fogo e fúria reinarão sobre eles… Isso é um presente dos Estados Unidos da América para a China e todas as nações que usam intensamente o Estreito de Hormuz”.

Horas depois, por meio de veículos de mídia alinhados como a agência estatal iraniana ISNA e a Al Mayadeen, a IRGC declarou que, se os ataques americanos e israelenses continuarem, “não permitirá que um único litro de óleo na região seja exportado para o inimigo e seus aliados até nova ordem”.

Essa resposta do Irã significaria, na prática, um bloqueio muito mais amplo que apenas o Estreito de Hormuz. Estaria em jogo a exportação de petróleo de praticamente todo o Golfo Pérsico, incluindo terminais da Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e outros países que o Irã considera aliados do inimigo.

Um cenário assim representaria uma crise energética sem precedentes no mundo moderno. O Estreito de Hormuz é uma das rotas marítimas mais importantes do planeta e responde historicamente por cerca de um quinto de todo o comércio global de petróleo por via marítima.

Os primeiros efeitos seriam sentidos de forma dramática em toda a Europa e no Sudeste Asiático. Países mais ricos da Ásia, como a China, possuem reservas estratégicas maiores e maior capacidade de buscar fontes alternativas. Já nações como Bangladesh, Tailândia, Indonésia, Japão, Taiwan e Coreia do Sul têm reservas mais limitadas e dependem fortemente dos suprimentos do Golfo.

A maioria desses países asiáticos também aumentou bastante suas importações de petróleo russo nos últimos anos, justamente por causa das sanções ocidentais contra Moscou. Uma paralisação prolongada das exportações do Golfo complicaria ainda mais o suprimento mundial e faria os preços do petróleo subirem a níveis que muitos economistas consideram perigosos para economias emergentes e em desenvolvimento.

Na Europa, mesmo com os esforços de diversificação desde 2022, o choque nos mercados internacionais de energia seria imediato, com reflexos diretos nos preços de combustíveis, na inflação e nos custos da indústria.

É importante destacar que o Estreito de Hormuz já enfrenta uma crise comercial grave, independente das novas ameaças. Desde o dia 5 de março, os principais clubes de seguro P&I (entre eles Gard, Skuld, NorthStandard e o London P&I Club) cancelaram as coberturas de risco de guerra para navios que operam no Golfo e nas águas adjacentes. Como resultado, o tráfego comercial de petroleiros caiu drasticamente, com relatos de redução entre 80% e 95% em alguns trechos.

A troca de ameaças entre Trump e a IRGC acontece exatamente quando o fluxo já está severamente comprometido por razões de seguro e risco. Cada nova declaração de escalada só aumenta a percepção de insegurança e afasta ainda mais qualquer chance de normalização rápida do transporte marítimo.

Esse ciclo de retaliações, ameaça de destruição total americana versus ameaça de bloqueio completo iraniano, eleva o risco de uma crise que não fica restrita ao Oriente Médio. Os mercados globais de energia estão em alerta máximo, e os próximos dias vão decidir se a situação vira um confronto ainda maior ou se algum canal de diálogo consegue interromper essa espiral.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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