“A posição dos EUA no mundo está indo pelo ralo”

A perplexidade de um cidadão americano com o presidente do seu país simboliza o sentimento de grande parte da humanidade diante do que está acontecendo no Irã. Questionado por um repórter sobre o bombardeio de uma escola primária de meninas no sul do país — ataque que matou cerca de 175 pessoas — Donald Trump acusou o próprio Irã de ser responsável pela tragédia. Segundo ele, a escola teria sido atingida por munições iranianas imprecisas.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, interveio em seguida dizendo que o episódio ainda estaria sendo investigado. Mesmo assim, Trump retomou a palavra e voltou a acusar o Irã, afirmando novamente que o país seria responsável pelo ataque.

Trump acusa diretamente o Irã de ter bombardeado uma escola iraniana e matado suas próprias crianças.

O que torna a cena ainda mais perturbadora é a completa ausência de empatia diante de uma tragédia dessa dimensão. Em nenhum momento Trump demonstrou preocupação com as vítimas ou com o massacre de crianças. A discussão ficou restrita à tentativa de transferir a responsabilidade pelo ataque.

Esse movimento de inverter responsabilidades lembra um episódio ocorrido no início da guerra em Gaza. Na ocasião, Israel tentou difundir na imprensa internacional a versão de que a explosão de um hospital havia sido causada por um foguete do Hamas. Investigações posteriores indicaram que a explosão foi provocada por um míssil israelense. Naquele momento ainda havia um esforço para sustentar uma versão pública dos acontecimentos.

Com o passar do tempo, porém, essa preocupação desapareceu. Hospitais passaram a ser bombardeados repetidamente sem sequer o esforço de apresentar justificativas plausíveis.

Agora algo semelhante volta a acontecer na guerra contra o Irã. O cinismo passou a ser assumido de forma aberta. Depois de meses em que Israel — sempre com o apoio dos Estados Unidos — foi gradualmente anestesiando a empatia da opinião pública ocidental, ficou evidente que crimes contra civis fora desse universo já não provocam a mesma reação política ou moral.

O caso da escola de meninas no Irã é ilustrativo. O massacre de crianças não provocou grandes editoriais de indignação na imprensa internacional, tampouco levou líderes políticos das potências ocidentais a se manifestarem de forma contundente.

Quando se fala em “imprensa internacional”, porém, não se trata apenas de jornais e emissoras sediados nas potências ocidentais. O termo acaba designando um sistema de comunicação muito mais amplo, que inclui também veículos de países do sul global, mas que frequentemente reproduzem a mesma narrativa geopolítica dominante. Trata-se de um ecossistema midiático profundamente influenciado pelas estruturas de informação, pelas agências de notícias e pelo enquadramento político produzido nos centros de poder do mundo atlântico.

Esse fenômeno talvez seja uma das armas mais poderosas — e mais difíceis de enfrentar — do imperialismo americano: a capacidade de moldar o fluxo global de informação e de transformar sua versão dos acontecimentos na narrativa dominante em grande parte do planeta.

O que emerge desse silêncio é algo perturbador: a percepção de que a opinião pública da chamada “civilização ocidental” foi profundamente envenenada por um racismo estrutural que normaliza a morte de crianças quando elas pertencem a outra cultura, outro povo, outra civilização.

É um sentimento que o mundo acreditava ter enterrado com o nazismo: a desumanização completa do outro.

Mas o mundo não está engolindo isso — e nem mesmo muitos americanos. Um deles é o comentarista e youtuber de geopolítica Cyrus Janssen, que publicou a seguinte mensagem em suas redes sociais:

“Trump: Irã explodiu a escola primária onde mais de 175 foram mortos.

Como cidadão dos EUA, é difícil assistir ao líder do nosso país mentir sobre algo tão grotesco e horrível, mas é isso que Trump faz todos os dias da vida dele.

O governo dos EUA fez um ataque de ‘double tap’ nessa escola, matando não apenas as crianças, mas também os pais que foram procurá-las depois. Todos os veículos de mídia dos EUA e agências do governo estão agora reportando isso, mas Trump? Apenas mente e diz o que quiser.

Acho que é isso que ‘libertação’ significa para o MAGA. Absolutamente nojento! A posição dos Estados Unidos no mundo está indo pelo ralo.”

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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