O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou nesta terça-feira que o país não está buscando um cessar-fogo no conflito em curso com os Estados Unidos e seus aliados.
Em publicação nas redes sociais e em declaração à televisão estatal, ele disse que o Irã considera necessário responder aos ataques e que o agressor deve ser “atingido na boca”.
Ghalibaf rejeitou a lógica de uma sequência de guerra, negociação e cessar-fogo — padrão que ele atribuiu à estratégia israelense de manutenção de poder.
A declaração ocorre em um momento em que mercados financeiros e governos internacionais vinham interpretando sinais de possível desescalada. Reportagens recentes indicavam que conselheiros próximos ao presidente Donald Trump estariam defendendo, em privado, uma saída do conflito.
A expectativa de trégua chegou a provocar recuo momentâneo nos preços do petróleo, que haviam disparado desde o início da guerra em 28 de fevereiro. Os barris, no entanto, seguem acima de US$ 100.
As palavras de Ghalibaf reforçam a percepção de que a liderança iraniana pretende manter a pressão militar. Nas últimas horas, forças iranianas voltaram a lançar ataques com mísseis e drones contra alvos associados a Israel e a bases norte-americanas na região.
O conflito já produziu efeitos profundos sobre o comércio internacional de energia. O estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo, tornou-se uma zona de alto risco para o transporte marítimo — o tráfego de navios caiu 80% nas primeiras 24 horas após o início dos bombardeios e logo se aproximou de zero.
Clubes internacionais de seguro marítimo, entre eles o American Club, a norueguesa Gard e a britânica NorthStandard, cancelaram a cobertura de risco de guerra para embarcações que operam no Golfo. Com isso, os prêmios dispararam, tornando economicamente inviável para a maioria das companhias manter as rotas. Mais de 150 embarcações permanecem ancoradas fora da zona de perigo enquanto armadores avaliam alternativas.
A paralisação começou a se propagar pela cadeia energética global. Grandes petroleiras do Golfo declararam situações de força maior em contratos de exportação, enquanto refinarias e indústrias petroquímicas na Ásia relatam dificuldades para obter matérias-primas derivadas do petróleo.
Outros focos de tensão no entorno da península Arábica ampliam o alcance da crise. No mar Vermelho, os houthis do Iêmen anunciaram a retomada de ataques contra navios comerciais, o que levanta a possibilidade de que dois dos principais gargalos do comércio marítimo mundial — Ormuz e Bab al-Mandab — sejam afetados ao mesmo tempo. Grandes operadoras de contêineres, como Maersk, CMA CGM e Hapag-Lloyd, já suspenderam trânsitos pelo estreito e pelas rotas adjacentes do mar Vermelho.
Para grandes potências, a guerra também se converteu em um laboratório geopolítico. Analistas apontam que a China observa atentamente o desempenho militar dos Estados Unidos e coleta dados sobre sistemas de defesa e capacidade de reação operacional. A Rússia, por sua vez, beneficia-se da alta nos preços da energia e da reorganização dos fluxos de petróleo e gás, que elevam suas receitas de exportação.
A combinação entre escalada militar, colapso parcial do transporte marítimo e incerteza política transformou a guerra em um choque sistêmico para o mercado global de energia. Investidores haviam apostado em um confronto curto — as declarações da liderança iraniana sugerem que Teerã está preparada para algo bem mais longo.
Sem sinais concretos de negociação e com a infraestrutura comercial do Golfo paralisada, o cenário que se desenha é o de uma guerra cuja duração e consequências permanecem imprevisíveis.
Com informações do Substack de Shanaka Anslem Perera.
Endereço de X: @shanaka86

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