Tehran Times — O aiatolá Seyyed Ali Khamenei sempre considerou a segurança o bem mais precioso que uma nação pode possuir. Quando se tornou líder do Irã, em 1989, o país estava saindo de um dos períodos mais devastadores de sua história moderna.
Menos de dois anos antes, as forças iranianas haviam conseguido expulsar as tropas iraquianas de seu território, encerrando uma guerra que durou oito anos e custou centenas de milhares de vidas. O Irã preservou sua soberania, mas o preço foi enorme. Diante de um exército iraquiano apoiado por grandes potências globais e equipado com armamentos muito superiores, os iranianos dependeram da resistência e do sacrifício para evitar o colapso do país.
As lições desse conflito deixaram uma marca profunda no pensamento do novo líder. Para Khamenei, a prioridade nos anos seguintes era garantir que o Irã nunca mais enfrentasse uma ameaça semelhante sem ter meios para responder. Construir uma arquitetura de segurança capaz de proteger não apenas as fronteiras do país, mas também seu ambiente estratégico mais amplo tornou-se um eixo central da política iraniana.
Nas décadas seguintes, os acontecimentos no Oriente Médio reforçaram essa visão. Vários vizinhos do Irã foram desestabilizados ou ocupados em conflitos envolvendo os Estados Unidos e seus aliados. Afeganistão e Iraque foram invadidos. A Líbia colapsou após intervenção estrangeira. A Síria mergulhou em uma longa e destrutiva guerra civil. Para Teerã, esses episódios mostraram a vulnerabilidade de Estados que não possuem capacidade de dissuadir pressões externas.
O Irã seguiu outro caminho. Apesar das pesadas sanções, investiu fortemente no desenvolvimento de sua indústria militar doméstica. Seus programas de mísseis e drones avançaram rapidamente, tornando-se alguns dos mais sofisticados da região. Ao mesmo tempo, Teerã construiu alianças e parcerias além de suas fronteiras, especialmente no Líbano, no Iraque e no Iêmen. Esse conjunto de relações passou a ser descrito como uma estratégia de “defesa avançada”, destinada a impedir que ameaças chegassem ao território iraniano.
Khamenei teve papel central na formulação dessa estratégia, mas sua visão não era isolada dentro do Irã. As ideias que enfatizava dialogavam com correntes mais amplas da cultura política iraniana. Para muitos iranianos, a narrativa de Karbala — episódio central do islamismo xiita que exalta a resistência diante de forças muito superiores — oferece uma referência simbólica de perseverança. Outros, menos religiosos, interpretam essas políticas à luz da história do país, marcada por séculos de invasões, perdas territoriais e intervenções estrangeiras. Em ambos os casos, a noção de resistência e independência possui forte ressonância.
Esse contexto, no entanto, esteve em grande parte ausente dos cálculos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Em 28 de fevereiro de 2026, seus governos realizaram um ataque contra o escritório do aiatolá Khamenei no centro de Teerã. A operação tinha como objetivo eliminar o líder iraniano e desorganizar o sistema político que ele ajudou a moldar ao longo de décadas.
Em Washington e Tel Aviv, muitos acreditavam que a morte de Khamenei provocaria o colapso da República Islâmica ou deixaria o país enfraquecido demais para responder de forma significativa. A expectativa era de que a estrutura política iraniana dependesse excessivamente de uma única figura e não sobrevivesse à sua ausência.
Os acontecimentos seguiram outro rumo. Poucas horas após os primeiros bombardeios, as Forças Armadas iranianas lançaram ataques de retaliação contra bases militares americanas na região e contra alvos em Israel. Em vez de protestos internos, como alguns analistas ocidentais previam, grandes multidões se reuniram em cidades iranianas. Praças e avenidas foram ocupadas por manifestações de apoio ao sistema político e de condenação aos ataques estrangeiros.
Quando ficou claro que a República Islâmica não entraria em colapso após os bombardeios, Trump sinalizou que Washington ainda pretendia influenciar o futuro político do país. Em entrevistas à imprensa americana, sugeriu que os Estados Unidos deveriam participar da definição de quem sucederia Khamenei. Também indicou um nome que considerava “inaceitável”: o aiatolá Seyyed Mojtaba Khamenei, filho do líder morto.
A oposição de Trump a Mojtaba Khamenei não era nova. Em 2019, os Estados Unidos já haviam imposto sanções contra ele por meio de uma ordem executiva que mirava integrantes da liderança iraniana. Na época, o Departamento do Tesouro afirmou que Mojtaba representava o líder supremo em atividades oficiais, apesar de não ocupar cargo formal no governo.
No sistema político iraniano, porém, a liderança não é transmitida por herança. A Constituição estabelece que o líder seja escolhido pela Assembleia dos Especialistas, órgão formado por 88 clérigos eleitos pelo voto popular. Nas primeiras horas da segunda-feira, essa assembleia anunciou sua decisão: o aiatolá Seyyed Mojtaba Khamenei seria o terceiro líder da República Islâmica.
O anúncio provocou celebrações em várias cidades iranianas. Ao longo do dia, multidões se reuniram em praças e avenidas, exibindo bandeiras nacionais e retratos do líder morto e de seu sucessor. À medida que a noite avançava, ecoavam palavras de ordem nas ruas. Alguns gritavam que “Khamenei está jovem novamente”. Outros repetiam: “Khamenei ainda está aqui”.
Autoridades que declararam lealdade ao novo líder apresentaram a transição como continuidade, e não ruptura. Segundo elas, Mojtaba Khamenei, de 56 anos, trabalhou por muitos anos ao lado do pai e conhece de perto a orientação estratégica seguida pelo país nas últimas quatro décadas. A expectativa entre esses dirigentes é que a chamada “via da resistência” permaneça como eixo central da política iraniana.
Para Trump, o resultado representou um desfecho muito diferente daquele que alguns haviam previsto no início da guerra. Em vez de desmantelar o sistema político iraniano, a campanha militar acabou levando à ascensão de outro líder com o mesmo sobrenome e associado à mesma linha estratégica.
A guerra iniciada por Washington teve custos elevados sem alcançar os objetivos anunciados. Bases americanas na região foram atingidas por ataques de retaliação e houve baixas entre militares dos Estados Unidos. A ofensiva também intensificou o sentimento antiamericano entre muitos iranianos, inclusive entre aqueles que anteriormente criticavam seu próprio governo.
No final, a tentativa de remodelar a liderança iraniana produziu um resultado que poucos em Washington haviam antecipado. Em vez de enfraquecer o sistema construído ao longo de décadas, a crise parece ter reforçado a narrativa de resistência que ocupa lugar central na identidade política da República Islâmica. Para muitos iranianos, a conclusão foi clara: a pressão externa não quebrou a vontade do país, mas fortaleceu sua determinação de enfrentar a dominação estrangeira.
Por Sheida Sabzehvari
Fonte: Tehran Times