Em meio ao conflito no Oriente Médio, uma narrativa tem sido repetida por alguns políticos e analistas europeus: a de que a guerra contra o Irã seria, no fundo, uma estratégia para conter a China, limitando seu acesso ao petróleo e enfraquecendo seus interesses geopolíticos. Essa visão, no entanto, é duramente contestada por quem observa os fatos com clareza.
O texto que circula nas redes é de Arnaud Bertrand, empreendedor francês, analista de geopolítica muito respeitado no meio internacional. Fundador da HouseTrip (vendida para o TripAdvisor), Bertrand é conhecido por suas análises independentes sobre relações internacionais, China e multipolaridade. Em um post recente no X (antigo Twitter), ele expressa irritação profunda com essa narrativa e explica por que ela é não só errada, mas perigosa, especialmente para a Europa.
Bertrand cita como exemplo o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que afirmou que o objetivo da guerra seria “limitar as capacidades de suprimento de petróleo da China”. Para ele, isso é praticamente copiar palavra por palavra o discurso de neoconservadores americanos como o senador Lindsey Graham e think tanks como o Hudson Institute, uma companhia no mínimo surpreendente para um político de esquerda.
O que mais incomoda o analista francês é a desconexão total com a realidade dos impactos. Segundo ele, as consequências do conflito são muito piores para a Europa do que para a China. Longe de prejudicar Pequim, a guerra pode até beneficiar a China de forma irônica: ela funciona como a maior propaganda ao vivo já vista em favor das energias renováveis. Cada dia de tensão no Estreito de Ormuz, cada pico nos preços do petróleo, demonstra na prática por que depender de combustíveis fósseis controlados por pontos de estrangulamento é um risco estratégico gigantesco. Isso valida completamente a aposta chinesa em solar e eólica.
Dados impressionantes reforçam o argumento: graças ao avanço em energias limpas, a China alcançou no ano passado 85% de autossuficiência energética, um número extraordinário para um país que consome tanta energia quanto Estados Unidos e União Europeia juntos. A Europa, por sua vez, está em patamar vergonhoso: apenas 41%.
Mas o problema vai além da energia. Bertrand alerta para o precedente que está sendo criado: a maior potência do mundo ataca um país soberano, assassina seu líder e tenta mudança de regime sem nem apresentar um motivo convincente (o “casus belli” citado por Marco Rubio chegou a ser que a vítima iria se defender). Isso consolida um mundo de “o poder faz o direito”, um cenário onde só conta a força bruta.
Nesse novo paradigma, quem perde é a Europa, que historicamente sobrevive graças a regras e instituições internacionais. Países como a China, com poderio real, saem fortalecidos. Bertrand pergunta: e se amanhã os mesmos que aplaudiram esse precedente decidirem agir contra interesses europeus, como na Groenlândia? Quem vai defender a soberania do continente?
No fim, o analista levanta uma questão urgente: quem exatamente está olhando pelos interesses da Europa? Até políticos que não são vassalos totais dos EUA parecem repetir o mesmo roteiro dos neoconservadores americanos, só com sinal trocado. Enquanto isso, o continente sofre na pele os efeitos da instabilidade energética e geopolítica.
A análise de Arnaud Bertrand serve como um alerta claro: a guerra no Irã não é sobre a China. É sobre um mundo que está mudando rápido, e a Europa corre o risco de ficar para trás se não acordar para seus próprios interesses.
Em outro comentário, Bertrand resume a ironia suprema de toda essa situação: “A maior ironia desta guerra até agora não é que Trump substituiu Khamenei por Khamenei (embora isso já seja bastante rico). É que Trump presumivelmente entrou nela em parte para fortalecer o domínio dos EUA sobre o petróleo, e em vez disso criou o melhor argumento de venda que a China poderia sonhar para painéis solares, baterias e veículos elétricos. Ele pode acabar aumentando a fatia americana do bolo dos combustíveis fósseis, mas ao mesmo tempo está convencendo o mundo a parar de comê-lo.”