A guerra no Irã chegou ao campo — e o preço dos fertilizantes explodiu

Trator espalha fertilizante em lavoura (Foto: Divulgação)

A ofensiva militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, paralisou o fluxo de fertilizantes pelo Estreito de Ormuz. Por ali passa cerca de um terço do comércio mundial de ureia, amônia e compostos nitrogenados. Com o estreito praticamente fechado, os preços dispararam no pior momento possível: às vésperas do plantio de primavera no Hemisfério Norte.

A ureia, fertilizante mais utilizado no planeta, subiu 30% em poucos dias nos Estados Unidos. Em Nova Orleans, a tonelada saltou de US$ 516 para US$ 683. Na Bolsa de Chicago, o contrato futuro de abril acumula alta de 36% só em 2026, chegando a US$ 573 por tonelada. Em doze meses, a valorização é de 73%. Analistas já falam em retorno aos picos de 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou colapso semelhante.

O Qatar, um dos maiores produtores mundiais de gás natural e matéria-prima essencial para a fabricação de ureia, suspendeu parte da produção. Irã, Arábia Saudita, Emirados e Egito, que juntos respondem por 40% do comércio marítimo global de ureia, estão com exportações travadas ou severamente comprometidas.

“Isso não poderia acontecer num momento pior do ano”, disse Josh Linville, analista da StoneX, à Reuters. Produtores americanos que aguardavam queda nos preços para comprar insumos foram pegos no contrapé. No Illinois, o agricultor Jim Martin resumiu o sentimento geral: “É o pesadelo de todo mundo agora.” A American Farm Bureau alertou que, sem prioridade nos envios, há risco concreto de queda na produção agrícola e pressão inflacionária sobre os alimentos.

O Brasil, que importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, foi em grande parte poupado do impacto imediato. A safra 2025/26, em sua maioria, já foi plantada. Os insumos já estavam comprados e aplicados antes do início do conflito. É uma questão de calendário agrícola: enquanto o Hemisfério Norte se prepara para plantar agora, o Brasil já colhe.

Mas o alívio é temporário. A safra seguinte, 2026/27, enfrenta cenário preocupante. Segundo Maísa Romanello, da Safras & Mercado, “há grande incerteza sobre o suprimento de fertilizantes nitrogenados”. O Ministério da Agricultura classificou o risco de desabastecimento como “elevadíssimo”. Algumas tradings já começaram a substituir ureia por sulfato de amônio importado da China, mas a alternativa tem limitações técnicas e logísticas. Se o conflito se prolongar por semanas, a estimativa do setor é de aumento de até 50% no custo total de produção.

A guerra no Irã começou como questão geopolítica. Duas semanas depois, já é questão de mesa de jantar. No Hemisfério Norte, agora. No Brasil, na próxima safra.

Com informações de Reuters, Valor Internacional, Farm Progress e Yahoo Finance

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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