Faz tempo que o Brasil não via uma inflação tão baixa. O IPCA acumulado em 12 meses ficou em 3,81% em fevereiro, o menor patamar em muitos anos. Para quem acompanha economia, é um número que chama atenção. Para quem vai ao supermercado, é um alívio que começa a aparecer no bolso, ainda que devagar.
Mas tem uma coisa que precisa entrar no cálculo de quem quer entender como pensa o eleitor brasileiro hoje: a tolerância à inflação mudou. O país que viveu hiperinflação, que já aceitou dois dígitos como normal, está ficando mais exigente. Se esses mesmos 3,81% fossem nos Estados Unidos ou na Europa, seriam considerados inflação alta. E o brasileiro, cada vez mais, pensa parecido. Isso explica, inclusive, por que uma inflação historicamente baixa para os padrões do país não gera tanto entusiasmo político. Não é que o número seja ruim: é que ele está sendo normalizado. O brasileiro não compara com o passado de descontrole; compara com o que acha que deveria ser. E isso muda tudo para quem faz campanha, para quem governa e para quem tenta vender notícia boa com número bom.
Dito isso, o prato feito em casa está mais barato. A alimentação no domicílio ficou em -0,09% em 12 meses, ou seja, caiu de fato. O arroz despencou quase 28%. O ovo de galinha recuou mais de 10%. O frango inteiro caiu quase 2%. Para quem cozinha em casa, o cenário é melhor do que o barulho da inflação sugere.
E a picanha? Subiu 2,37%. É alta, mas abaixo do IPCA geral. Politicamente, a picanha continua sendo um símbolo poderoso: promessa de campanha, meme, termômetro de mesa de bar. Estatisticamente, porém, ela não é a vilã da inflação hoje. Está subindo menos que o índice geral. Quem quiser atacar o governo pela picanha vai ter que procurar outro argumento, pelo menos por enquanto.
A cerveja fora de casa, outro item que o brasileiro monitora com carinho, ficou em 3,11%. Abaixo do IPCA. Ou seja: o happy hour não está pesando mais que a média da inflação. Não é barata, mas está comportada.
O botijão de gás subiu 1,76%, também abaixo do índice cheio. A gasolina ficou praticamente estável, com variação de -0,08%. E o diesel caiu 3,65%. Até aqui, portanto, o retrato de 12 meses não é o de uma inflação puxada por combustíveis. Pelo contrário.
Mas nem tudo são flores. A conta de luz segue pesada: a energia elétrica residencial subiu 9,38% em 12 meses, muito acima do IPCA. O transporte público está em 10,25%. A alimentação fora do domicílio, em 6,70%. Esses três itens explicam muito mais a sensação de aperto do que a picanha ou a cerveja. Porque são gastos inevitáveis: luz, passagem e refeição na rua atingem diretamente quem tem menos margem para cortar.
E tem o risco que vem de fora. O conflito envolvendo o Irã sacudiu o mercado de petróleo: o Brent chegou a bater US$ 119,50 nesta semana e ainda rondava US$ 99 após uma alta diária de cerca de 8%. Em Brasília, a área econômica já trabalha com o cenário de que petróleo acima de US$ 100 começa a produzir pressão inflacionária real. O governo zerou PIS/Cofins do diesel e criou taxações temporárias sobre exportação de petróleo para segurar o repasse. A Petrobras diz que não costuma repassar choques bruscos. Mas o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, e diesel não é só combustível de caminhão: é frete de alimento, custo de agronegócio, logística de tudo que circula.
Os primeiros reflexos já apareceram. Na primeira semana de março, o diesel subiu quase 1% na revenda. O botijão avançou 0,17%. É pouco, por enquanto. Mas é o começo de uma contaminação que pode se espalhar por toda a cadeia de preços se o barril não arrefecer.
O resumo é este: a inflação em 12 meses está no menor nível em anos, com alívio real nos alimentos básicos. A picanha, a cerveja e o botijão não estão puxando o índice, estão abaixo dele. Mas a conta de luz tá cara, o transporte público acelerou, e o petróleo recolocou um risco que o Brasil conhece bem. A boa notícia está no prato feito em casa. A má notícia vem da conta de luz, e agora, também do barril.
E quem olha para esses 3,81% e não se impressiona não está sendo ingrato. Está sendo um eleitor que normalizou a estabilidade, e que agora cobra mais. Para um país que já tratou inflação de dois dígitos como paisagem, isso é uma mudança silenciosa, mas enorme.