As críticas à nova loucura imperial de Donald Trump no Oriente Médio começam a se avolumar dentro e fora dos Estados Unidos. Dentro do próprio país, parte da grande imprensa americana passou a publicar reportagens e análises extremamente críticas à guerra contra o Irã.
Entre esses veículos está o New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo. Na edição deste domingo, 15 de março, o jornal traz como manchete uma reportagem sobre o impacto global da guerra.
O título da matéria resume o alerta: “A guerra envia novos tremores por uma economia mundial já abalada”. O subtítulo reforça o diagnóstico: as consequências de um conflito prolongado com o Irã podem provocar “efeitos catastróficos” para a economia mundial.
A reportagem descreve como, poucos dias após o início da guerra, os efeitos já começam a aparecer em várias partes do planeta. Cadeias de suprimento estão sendo interrompidas, custos de transporte e energia estão subindo e empresas começam a rever investimentos diante da incerteza global.
Nem sempre, porém, o New York Times adotou uma postura crítica diante de guerras americanas. Em 2003, o jornal desempenhou papel importante na construção da narrativa que justificou a invasão do Iraque.
Naquele momento, publicou reportagens baseadas em informações falsas fornecidas por autoridades americanas, segundo as quais Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Anos depois, o próprio jornal reconheceu que aquelas reportagens estavam erradas e pediu desculpas aos leitores.
Mas o estrago já estava feito.
A guerra destruiu o Estado iraquiano, matou cerca de um milhão de pessoas e obrigou milhões de iraquianos a fugir do país. O colapso do Iraque também abriu espaço para novas ondas de instabilidade no Oriente Médio, incluindo o surgimento do Estado Islâmico.
Agora, duas décadas depois, os Estados Unidos se envolvem novamente em um conflito potencialmente devastador na região. Desta vez, pelo menos, um dos principais jornais do país já começa a registrar os riscos e os efeitos da escalada militar.
A reportagem do New York Times descreve um cenário de impactos globais imediatos. “Bombas estão explodindo no Irã e no Oriente Médio, mas os efeitos já estão sacudindo famílias e empresas em bairros ao redor do mundo”, escreve a jornalista Patricia Cohen.
Nos Estados Unidos, compradores de imóveis no Kansas viram as taxas de hipotecas de 30 anos ultrapassarem 6%. Na Índia, famílias descobriram que crematórios movidos a gás foram temporariamente fechados por falta de combustível.
No Vietnã, postos de gasolina começaram a exibir placas de “sem combustível”. No Quênia, produtores de chá temem que exportações destinadas ao Irã fiquem paradas e estraguem nos portos.
Agricultores nos Estados Unidos, Canadá e Europa também estão preocupados com a disparada nos preços de fertilizantes, um efeito indireto da crise energética provocada pelo conflito.
O risco mais imediato, segundo especialistas citados pela reportagem, é uma interrupção no Estreito de Ormuz, principal rota de transporte de petróleo do planeta.
O ex-diplomata e ex-funcionário do Departamento de Energia dos Estados Unidos David Goldwyn afirmou ao jornal que esse cenário sempre foi considerado o pior possível. “Esse realmente é o grande pesadelo”, disse ele.
A crise já provoca impactos diretos no comércio global. Entregas de carga foram interrompidas, custos de frete marítimo aumentaram e prêmios de seguro dispararam.
A consequência não se limita ao preço da gasolina. Segundo a reportagem, o conflito também pressiona os preços de alimentos, medicamentos, passagens aéreas, eletricidade, óleo de cozinha e semicondutores.
Amin Nasser, diretor-executivo da Saudi Aramco — a maior empresa de petróleo do mundo — alertou que um conflito prolongado pode ter consequências catastróficas para o mercado global de energia e para a economia mundial.
Mesmo que a guerra termine rapidamente, economistas afirmam que a incerteza já está alterando decisões de consumo e investimento.
Empresas precisam reorganizar cadeias de suprimento, lidar com novos aumentos de custos e acompanhar restrições comerciais cada vez mais imprevisíveis. Esse ambiente de incerteza tende a reduzir investimentos e frear o consumo.
A historiadora Meg Jacobs, autora do livro Pânico nas bombas: a crise energética e a transformação da política americana nos anos 1970, lembra que crises energéticas costumam ter efeitos duradouros. Após o embargo do petróleo de 1973, por exemplo, os preços permaneceram elevados durante toda a década de 1970.
Outro efeito possível da crise atual é o fortalecimento da Rússia.
Com preços mais altos do petróleo, a economia russa tende a ganhar fôlego e aumentar sua capacidade de financiar a guerra na Ucrânia. Vladimir Putin, observa o jornal, já aproveitou a oportunidade para provocar líderes europeus que apoiaram sanções energéticas contra Moscou.
A Europa também enfrenta um momento delicado. Depois de anos tentando reduzir sua dependência do gás russo, o continente agora enfrenta uma nova pressão energética.
Com estoques de gás relativamente baixos, governos europeus podem ser obrigados a comprar energia rapidamente no mercado internacional. Essa corrida por abastecimento tende a manter os preços elevados nos próximos meses.
A crise também coloca os bancos centrais diante de um dilema.
Se os preços de energia continuarem subindo, a inflação pode voltar a acelerar, pressionando autoridades monetárias a elevar juros. Mas juros mais altos encarecem o crédito e reduzem o crescimento econômico.
Além disso, muitos países já enfrentam níveis recordes de endividamento. Nesse contexto, taxas elevadas significam que recursos que poderiam ser destinados a saúde, educação ou infraestrutura acabam sendo usados para pagar juros da dívida.
Carsten Brzeski, economista do banco ING, alertou que setores altamente sensíveis a juros — como empresas de tecnologia e inteligência artificial — podem sofrer impactos importantes.
Segundo ele, um pequeno grupo dessas empresas tem sido um dos principais motores do crescimento da economia americana. Uma mudança nas taxas de juros poderia provocar uma forte correção nos mercados de ações.
O economista Neil Shearing, da consultoria Capital Economics, resumiu o momento com uma advertência. À medida que Washington passa a direcionar cada vez mais o fluxo global de comércio, serviços e capitais, as consequências econômicas dessas decisões se tornam cada vez mais profundas.


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