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A guerra que pode explodir a fome no mundo

Enquanto governos discutem estratégia militar e mercados acompanham o preço do petróleo, um outro efeito da guerra no Golfo começa a se formar longe dos radares da grande imprensa. O bloqueio das rotas marítimas na região ameaça interromper o fluxo global de fertilizantes — um insumo sem o qual metade da comida produzida no planeta […]

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Enquanto governos discutem estratégia militar e mercados acompanham o preço do petróleo, um outro efeito da guerra no Golfo começa a se formar longe dos radares da grande imprensa. O bloqueio das rotas marítimas na região ameaça interromper o fluxo global de fertilizantes — um insumo sem o qual metade da comida produzida no planeta simplesmente não existiria.

Guerras modernas costumam ser apresentadas como disputas geopolíticas abstratas entre Estados. Mas suas consequências recaem sempre sobre os povos, especialmente os mais pobres, que pagam a conta através da fome, da inflação e da instabilidade social.

A atual crise no Estreito de Ormuz expõe esse mecanismo com brutal clareza. O estreito liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é um dos corredores marítimos mais estratégicos do planeta.

Aproximadamente um terço do comércio marítimo global de fertilizantes passa por essa faixa de mar de apenas 33 quilômetros de largura, segundo análises da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Isso transforma a região em um ponto crítico para o funcionamento da agricultura mundial.

A região também concentra parte essencial da produção de fertilizantes nitrogenados, como ureia e amônia. Esses compostos são produzidos a partir de gás natural, abundante nos países do Golfo.

Sem gás natural barato, o processo industrial que produz fertilizantes em larga escala simplesmente não funciona. A dependência energética dessa indústria torna o sistema agrícola global extremamente sensível a crises na região.

Além disso, quase metade do comércio mundial de enxofre — elemento químico indispensável para a produção de fertilizantes fosfatados — também depende da região do Golfo. Sem enxofre, o processamento de fosfato para a agricultura moderna torna-se inviável.

O resultado é um gargalo logístico extremamente perigoso. Analistas estimam que cerca de 30% a 35% do comércio marítimo global de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz.

Qualquer interrupção prolongada nesse corredor pode provocar um choque imediato na agricultura mundial. A guerra já começa a produzir sinais desse impacto.

Diversos países altamente dependentes de fertilizantes importados enfrentam dificuldades para garantir suprimentos. Em regiões vulneráveis da África e da Ásia, pequenas reduções no uso desses insumos podem causar quedas dramáticas na produção agrícola.

No Sudão, país já afetado por fome em larga escala, cerca de 54% do fertilizante utilizado vem de fornecedores da região do Golfo. Bangladesh também enfrenta riscos significativos, já que sua produção de arroz depende fortemente da disponibilidade de fertilizantes nitrogenados.

Essas pressões ocorrem justamente quando o calendário agrícola global entra em uma fase crítica. No hemisfério norte, agricultores precisam garantir fertilizantes entre março e abril para preparar o plantio da primavera.

Na Índia, a preparação da safra de verão começa nas próximas semanas. Se os insumos não chegarem nesse período, a queda de produtividade não pode ser compensada mais tarde.

A química do solo não negocia com diplomatas. Esse é o aspecto mais alarmante da crise.

Diferentemente do petróleo, cuja produção pode ser parcialmente compensada por estoques ou fornecedores alternativos, o mercado global de fertilizantes não possui reservas estratégicas relevantes. Além disso, a produção industrial desses insumos leva meses para ser ampliada.

Isso significa que interrupções prolongadas podem afetar diretamente a produção de alimentos em dezenas de países. Hoje, cerca de 318 milhões de pessoas já enfrentam níveis severos de insegurança alimentar no mundo, segundo dados do Programa Mundial de Alimentos.

Um choque global de fertilizantes poderia empurrar esse número ainda mais alto. Especialistas em agricultura também alertam para um fenômeno conhecido: a relação entre fertilizante nitrogenado e produtividade agrícola não é linear.

Em países ricos, onde o uso de fertilizantes é elevado, pequenas reduções podem causar impactos relativamente modestos. Já em países do Sul Global, onde os agricultores utilizam quantidades muito menores desses insumos, reduções semelhantes podem provocar quedas abruptas na produção.

Foi exatamente o que ocorreu no Sri Lanka em 2021. A tentativa de eliminar fertilizantes sintéticos provocou um colapso de cerca de 40% na produção de arroz.

A crise atual ocorre em um momento particularmente delicado. O fenômeno climático El Niño pode reduzir as chuvas na Ásia, enquanto várias regiões agrícolas importantes enfrentam condições de seca.

Nos Estados Unidos, parte significativa do cinturão do milho já apresenta níveis preocupantes de estiagem. Na Austrália, os níveis de umidade do solo também estão entre os mais baixos das últimas décadas.

Se a crise logística persistir por semanas, os efeitos podem se espalhar rapidamente pela cadeia global de alimentos. Primeiro vêm os fertilizantes mais caros.

Depois, os custos agrícolas sobem. Em seguida aparecem as pressões sobre o preço dos alimentos.

E finalmente, meses depois, as consequências chegam às mesas das famílias. Apesar desse risco, a maior parte da cobertura internacional continua concentrada em petróleo, mercados financeiros e operações militares.

Mas, na prática, o calendário agrícola pode se revelar a variável mais decisiva da guerra. Se as rotas marítimas permanecerem bloqueadas durante as próximas semanas, o impacto sobre a produção de alimentos será inevitável.

Nesse caso, a verdadeira crise provocada pelo conflito não aparecerá apenas nos campos de batalha. Ela aparecerá nos pratos vazios de milhões de pessoas.

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