Países europeus — especialmente a Alemanha — têm rejeitado publicamente a pressão militar feita pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que exige a participação de seus aliados em uma missão naval para proteger o Estreito de Ormuz, no Irã, com o objetivo de conter a possível crise energética causada por um bloqueio prolongado do corredor.
O governo alemão reagiu aos apelos de Washington afirmando que o conflito não envolve a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Um porta-voz do gabinete do chanceler Friedrich Merz declarou que a aliança militar não tem papel no atual cenário de guerra no Golfo Pérsico. “Esta guerra não tem nada a ver com a Otan. Não é uma guerra da Otan”, disse o representante do governo alemão ao comentar sobre a pressão dos Estados Unidos em relação ao Estreito.
A posição foi reiterada pelo ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, que afirmou não enxergar qualquer função para países da aliança na região. Segundo ele, Berlim não considerou participar de operações no Estreito de Ormuz antes da guerra e tampouco avalia fazê-lo agora.
As declarações representam um recado direto à Casa Branca após Trump insinuar que a OTAN poderia enfrentar um “futuro muito ruim” caso os aliados não apoiem os Estados Unidos na tentativa de reabrir a passagem marítima, que se tornou foco da crise no Oriente Médio.
O estreito, localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo. Cerca de 20% do petróleo global e grande parte do gás natural liquefeito passam por esse corredor oceânico, tornando qualquer ameaça à navegação um risco imediato para a economia global.
Nos últimos dias, ataques e incidentes envolvendo navios comerciais e petroleiros aumentaram a tensão na região. Autoridades americanas acusam o Irã de tentar minar a rota por meio de embarcações menores. De acordo com informações divulgadas por Washington, forças dos EUA destruíram ao menos 16 barcos iranianos usados para instalar dispositivos explosivos na área.
Teerã, por sua vez, afirma que está preparada para responder militarmente à presença naval americana. A Guarda Revolucionária iraniana declarou que suas forças aguardam a frota dos EUA no estreito e que consideram legítimos ataques a embarcações que ignorem advertências das autoridades militares do país.
O aumento das hostilidades já provocou incidentes com navios mercantes. Autoridades regionais relataram ataques contra embarcações que transitavam pela região, incluindo um porta-contêineres com bandeira liberiana e um navio graneleiro tailandês. Parte da tripulação precisou ser resgatada após o ataque, enquanto alguns tripulantes permaneceram desaparecidos.
Em meio à crise, Trump vem pressionando aliados a enviar navios de guerra para escoltar petroleiros que atravessam o estreito. O presidente americano afirmou que vários países já teriam prometido ajuda, embora não tenha revelado quais nações participariam da operação. Segundo ele, alguns aliados demonstraram entusiasmo com a missão, enquanto outros foram reticentes.
“Alguns são países que ajudamos por muitos e muitos anos. Nós os protegemos de ameaças externas terríveis, e eles não se mostraram tão entusiasmados”, declarou Trump em evento na Casa Branca ao comentar a resposta internacional ao pedido americano.
O republicano descreveu a possível operação naval como algo “insignificante”, apesar do risco crescente para a navegação comercial. Ele também voltou a criticar o que considera falta de reciprocidade de aliados que se beneficiam da presença militar dos Estados Unidos em seus territórios.
Outros países europeus membros da OTAN como França, Itália e Reino Unido indicaram que preferem priorizar iniciativas diplomáticas para conter a escalada militar no Golfo. Lideranças europeias também demonstraram preocupação com a falta de clareza sobre os objetivos estratégicos de Washington e de Israel no conflito.