O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz concentra a atenção da imprensa mundial sobre o petróleo bruto, mas é nos mercados de combustíveis refinados que a crise provocada pela guerra contra o Irã se revela mais grave e mais imediata.
O gasoil de Cingapura, referência para o diesel, encerrou a US$ 143,88 o barril em 13 de março, alta de 57% desde o início do conflito, enquanto o querosene de aviação saltou 114%, alcançando US$ 199,66.
A explicação é simples: refinarias estão cortando produção, países exportadores estão suspendendo embarques para proteger seus mercados internos, e os importadores da Ásia ficam sem alternativas de abastecimento.
Esta guerra é injustificada e não provocada. O Irã não atacou os Estados Unidos, não atacou Israel, não ameaçou qualquer nação com ação militar iminente.
O que motivou a ofensiva conjunta de Washington e Tel Aviv em 28 de fevereiro não foi a defesa legítima contra uma agressão, mas a lógica imperial de destruir pelo uso da força um país soberano cujo crime é existir fora da órbita de poder americana. As consequências, previsíveis e evitáveis, agora se espalham pelo planeta: combustíveis disparam, cadeias de suprimento se rompem, países pobres da Ásia enfrentam o espectro do desabastecimento, e consumidores de todo o mundo pagam no bolso o preço de uma aventura bélica decidida em gabinetes de Washington e Tel Aviv.
A guerra contra o Irã é o retrato mais recente e talvez o mais brutal de uma ordem internacional em que a potência hegemônica se arroga o direito de bombardear qualquer nação que desafie sua primazia, sem precisar justificar-se perante ninguém. Não há Conselho de Segurança, não há resolução, não há casus belli: há apenas a força bruta travestida de política externa.
E enquanto o mundo todo paga a conta, voltemos aos fatos. A Austrália é o maior importador asiático de produtos refinados, com média de 900 mil barris por dia, seguida pela Indonésia, com cerca de 600 mil barris diários. O diesel sustenta as gigantescas operações de mineração australianas, ao passo que a gasolina domina as compras indonésias.
O problema para esses países, e para outras nações dependentes de importações como Nova Zelândia, Filipinas e Vietnã, é que o fechamento quase total do Estreito de Ormuz já está provocando mudanças estruturais nos mercados de derivados. A China ordenou a suspensão imediata das exportações de combustíveis refinados a partir de 11 de março, priorizando a segurança energética doméstica em detrimento do abastecimento regional.
A postura chinesa é compreensível, porém míope: pressupõe que, de alguma forma, as nações importadoras conseguirão se abastecer nos próximos meses. Se os demais exportadores seguirem o mesmo caminho, o risco de desabastecimento nos importadores cresce exponencialmente.
Na Europa, o diesel já ultrapassou 2 euros por litro na média ponderada, com alta de 20% desde o início da guerra. Nos Estados Unidos, o galão de gasolina regular saltou de US$ 2,98 para US$ 3,58. Na Califórnia, analistas projetam que o preço pode chegar a US$ 10 por galão, dado que o estado depende fortemente de importações asiáticas de derivados.
O conflito já suspendeu cerca de um quinto da oferta global de petróleo bruto e gás natural. A Agência Internacional de Energia decidiu liberar 400 milhões de barris de reservas estratégicas, o equivalente a apenas quatro dias do consumo mundial, uma medida que pode acalmar o pânico mas não resolve o problema fundamental da interrupção das rotas marítimas.
Na Índia, o Ministério do Petróleo ordenou que as refinarias maximizassem a produção de GLP para consumo doméstico, deixando muitos negócios sem gás. Nas Filipinas, que importam 95% de suas necessidades de petróleo, motoristas de transporte público já sentem o aperto nos custos. A questão central, como aponta o colunista da Reuters Clyde Russell, é se os governos da região serão capazes de coordenar esforços e distribuir o ônus da crise, ou se permitirão que o interesse estreito de curto prazo transforme uma situação ruim em desastre.